Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico
“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”
Hermen Hesse
Nota de editor:
Este décimo quinto texto da parte I – Morte da Cultura e o Regresso à Barbárie e ao Pensamento Mágico é composto por oito textos sujeitos ao tema Degradação Mental sem Fronteiras, do sítio The Bafler. Hoje publicamos o quinto texto da autoria de Yassin Adnan.
FT
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
4 min de leitura
Texto 15. Degradação mental sem fronteiras (5/8): Iliteracia Sagrada
Traduzido do árabe para inglês por Alex Tan
Publicado por
Baffler Symposium no. 81, em Novembro de 2025 (original aqui)

Os países do mundo árabe-islâmico têm, mesmo no seu período pós-independência, uma objeção persistente que parece estar em contradição com as novas liberdades desfrutadas pelos cidadãos anteriormente oprimidos. Nomeadamente, numerosos programas de alfabetização encontram oposição e ressentimento em certos setores da sociedade tradicionalista. Tenho sentido frequentemente que o analfabetismo no Médio Oriente e no Norte de África não é tido em tão baixa conta como noutros lugares; nem é uniformemente encarado como uma mancha moral. Legisladores e teólogos apontam para o Profeta — que os muçulmanos aspiram a imitar em palavras e atos — e para a sua própria suposta iliteracia. Um lugar-comum do discurso religioso popular exalta a iliteracia do Profeta como sinal da sua sinceridade, pureza e consciência imaculada.
Naturalmente, porém, explorar a lenda da iliteracia do Profeta para justificar a própria ignorância é um resultado da ignorância. Sem acesso a um dicionário que detalhe a etimologia árabe, muitos não conseguem compreender que a palavra para expressar “iliteracia”, ummiyya, pode ter um significado completamente diferente no Alcorão, sem qualquer relação com o seu sentido no árabe contemporâneo. Quando Deus diz que “enviou ao povo da ummiyya um mensageiro de entre eles próprios,” é possível que Ele esteja a referir-se às tribos da Península Arábica que “não tinham o Livro Divino.” E, da mesma forma, o “Profeta ummi que crê em Deus e nas Suas palavras” poderia apontar para o facto de o Profeta não ser nem judeu nem cristão.
A ambiguidade e o mal-entendido persistiram em turvar as interpretações, instrumentalizados por regimes autoritários para legitimar a ignorância. Era a era da descolonização, e a vanguarda intelectual — composta por estudantes e pela intelligentsia — foi determinante nas sucessivas revoltas e revoluções do Atlântico ao Golfo, fazendo repercutir ondas de choque através desses regimes. Em países como Marrocos, a educação foi corrompida e o cerco à intelligentsia foi apertado para consolidar o poder desses regimes.
A iliteracia sagrada tornou-se, então, o elemento por excelência a sustentar a estabilidade desses regimes, desesperados pela sua própria preservação. A ummiyya transformou-se numa estrutura oculta de despotismo e supremacia. Assim, o combate à iliteracia foi retirado das prioridades das políticas educativas e de desenvolvimento; os programas contraíram-se e foram reduzidos a meros indicadores numéricos em relatórios de desenvolvimento, esvaziados do seu propósito mais profundo de libertar as sociedades árabe-islâmicas e promover o progresso dos seus povos.
Em várias ocasiões, o rei Hassan II alertou os marroquinos sobre uma “nova iliteracia” que lhes havia passado despercebida. Ele sublinhou num discurso que “quem é monolingue é analfabeto”. Isto não foi mais do que uma forma de evasão disfarçada de postura orientada para o futuro, um álibi para desviar a atenção dos fracassos do Estado em abordar o problema estrutural mais fundamental da iliteracia sobre o próprio alfabeto. De facto, esta nova definição de iliteracia não só celebrava o bilinguismo do rei, como também era sintomática da era pós-independência de Marrocos, que até hoje valoriza o domínio da língua do antigo colonizador como condição tácita para cargos oficiais e responsabilidades governamentais.
A maioria da população marroquina arabizada ainda sofre com uma injustiça linguística. O Estado continua a adiar a criação de uma academia para a língua árabe, para a qual foi aprovada uma lei há mais de duas décadas. A segunda língua oficial do país, o Amazigh, não tem melhor sorte do que a sua contraparte marginalizada, apesar da fundação do Instituto Real da Cultura Amazigh em 2001. Em consequência, a discussão sobre a “nova iliteracia” em Marrocos assume que esta é sinónimo de manipulação pelos poderes vigentes. Em vez de enfrentar a iliteracia de frente com programas claros e objetivos, o regime serve apenas os seus próprios interesses.
É exatamente isto o que acontecerá à medida que Marrocos transita da iliteracia alfabética para a iliteracia digital. A cultura digital tomou conta do cenário, e as novas tecnologias que não exigem domínio da linguagem escrita irromperam no espaço marroquino. A capacidade de ler e escrever já não é um requisito para a tecnologia. As políticas públicas que alegadamente privilegiavam o crescimento digital em detrimento dos programas de literacia estavam no espírito do tempo. Até agora, o Estado ganhou a aposta, uma vez que esta nova iliteracia é possível de ser gerida. À medida que uma sociedade de iletrados se tornou uma sociedade de pós-literacia, a necessidade da aprendizagem alfabética tradicional praticamente desapareceu, na medida em que a escrita foi quase completamente substituída por meios de som e imagem. O conhecimento é comprimido em pequenos videoclipes que inundam plataformas como o TikTok, o Facebook, o Instagram e o WhatsApp. A geração criada com informação digital e audiovisual sente pouca necessidade das ferramentas analíticas ou da compreensão crítica da escrita. Estranhamente, esta nova situação epistemológica — um estado de “anticonhecimento” — não preocupou ninguém. Os sistemas de mercado abraçaram-na, pois garante uma oferta abundante de consumidores passivos capazes de realizar transações sem ter de ler uma única frase escrita. Este público cativo, cronicamente ligado à internet, é convenientemente alheio a qualquer distinção entre conteúdo substancial e ausência de conteúdo. O que veem é o que obtêm. Desprovidos de um núcleo cognitivo, cultural e crítico, o domínio tecnológico destes indivíduos impressiona, mas acaba por ser apenas uma máscara da sua suscetibilidade à manipulação, dada a sua incapacidade de escrutinar discursos e publicações.
Marrocos não é exceção na região. A Organização Educacional, Cultural e Científica da Liga Árabe estima que o número de iletrados no mundo árabe pode chegar a cem milhões até 2030. Embora os Estados do Golfo tenham alcançado um relativo sucesso a esse respeito graças à sua riqueza petrolífera, o tsunami tecnológico apenas aprofundou o fosso entre os cidadãos abastados do Golfo e as populações mais pobres desses países. Os investimentos hiperbólicos do Golfo em infraestrutura digital, cidades inteligentes e inteligência artificial não se traduziram em qualquer progresso substantivo nos domínios da democracia, da liberdade de expressão e dos direitos humanos.
Os regimes árabes, avessos à perspetiva de um monopólio total do capitalismo digital, estabeleceram um império pós-letrado de conteúdo superficial, permitindo que o árabe formal se corroa sob coloquialismos abreviados e emojis sortidos. Os seus súbditos estão mal equipados para formular uma opinião independente e crítica em relação à ordem vigente. Diz-se que as redes sociais podem não ser mais do que um meio para um fim; as memórias da chamada Primavera Árabe ainda estão vivas, quando estas devolveram a voz ao povo e lhe concederam uma plataforma. Mas os novos déspotas e censores não perderam tempo em perverter os meios virtuais para os seus próprios fins, envenenando as suas atmosferas com um consenso antidemocrático.
No meu romance “Hot Maroc”, traduzido para inglês por Alexander Elinson, o verdadeiro Marraquexe não são os mercados e as casas, mas o “espaço azul” do Facebook, dos ecrãs de telemóvel e computadores, dos sites de notícias sintéticas, das ruas cibernéticas e dos passatempos interativos. O meu anti-herói, Rahal, começa por preferir as sombras, mas rapidamente abandona a sua personalidade tímida e introvertida e transforma-se numa figura monstruosa no momento em que se senta diante do ecrã do computador. Escondendo-se por detrás de contas falsas e pseudónimos, semeando o caos no Facebook, um zé-ninguém covarde e sem distinção que se transforma num ator político digital — não porque tenha adquirido qualquer conhecimento real, mas porque aprendeu a usar o seu anonimato para ajustar contas pessoais.
O novo Marrocos é uma fossa vicária onde os rumores, a difamação e as fake news se tornaram linhas editoriais. Tragicamente, esta orientação goza de uma popularidade sem precedentes, enquanto as plataformas profissionais sérias enfrentam um colapso iminente. À medida que a sociedade se desagrega, o polvo da opinião fabricada vive da desorientação do público, de fabricar heróis e vítimas virtuais, e de levar a cabo o assassínio simbólico de figuras da oposição. Tudo isto se desenrola à distância, através de hordas de trolls online e de uma imprensa difamatória que o regime protege de qualquer responsabilização. Em “Hot Maroc”, Rahal é recrutado pelos serviços de inteligência, mais do que satisfeitos por transformar mais um guerreiro do teclado mentalmente perturbado num agente contratado ao serviço da máquina mediática. Quem me dera isto ser apenas imaginação minha.
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O autor: Yassin Adnan [1970 – ] é um escritor e radialista marroquino. Nasceu em Safi, mas cresceu em Marraquexe. Como jornalista, tem estado fortemente empenhado na cena cultural marroquina desde a década de 1990, publicando revistas literárias e apresentando o programa de televisão Masharif a partir de 2006. Escreveu livros de poesia, colecções de contos e obras de não ficção, incluindo um estudo da escritora Fátima Mernissi. O seu romance de estreia Hot Maroc (2016) foi nomeado para o Arabic Booker Prize, estando traduzido francês e inglês.


