Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise —- Parte I – Texto 15. Degradação mental sem fronteiras (6/8): “Filhos das Margens” . Abdelaziz Baraka Sakin

Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime

Se não me encontrar num lugar, procure noutro,

Eu pararei em algum lugar à sua espera

“Song of Myself” de Walt Whitman

Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico

“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”

Hermen Hesse


Nota de editor:

Este décimo quinto texto da parte I – Morte da Cultura e o Regresso à Barbárie e ao Pensamento Mágico é composto por oito textos sujeitos ao tema Degradação Mental sem Fronteiras, do sítio The Bafler. Hoje publicamos o sexto texto da autoria de Abdelaziz Baraka Sakin.

FT


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4 min de leitura

Texto 15. Degradação mental sem fronteiras (6/8): Filhos das Margens

 Por Abdelaziz Baraka Sakin

Traduzido do árabe por Lemya Shammat

Publicado por  Baffler Symposium no. 81, em Novembro de 2025 (original aqui)

 

Fotografias de Kaya LeGrand e Max Brandstadt

Os romancistas sudaneses da minha geração foram criados no meio dos livros. Até há pouco tempo, não conseguíamos imaginar outro caminho para o conhecimento. Mas enquanto nos debruçávamos sobre o papel e percorríamos os livros como se nada mais existisse, uma nova tecnologia da imaginação — do saber, do aprender, do conectar — estava em franco desenvolvimento à velocidade da luz: ferramentas mais adequadas a esta era frenética que nos tornaram relíquias do século passado, os filhos esquecidos da tinta e das margens. Apenas alguns de nós, porém, habitam verdadeiramente um mundo pós-letrado. Ao nosso lado — muitas vezes de forma invisível, quase sempre sem voz — estão os muitos que permanecem nas garras sombrias do analfabetismo.

Para dizer a verdade, vivemos em duas sociedades paralelas. É verdade, as gerações mais jovens — aquelas com acesso à educação, que saltaram dos livros escolares para os ecrãs, dos alfabetos para as aplicações digitais — encontraram-se desligadas das suas raízes sociais, mesmo enquanto as comunidades de onde vieram continuam a arrastar-se sob o peso da iliteracia, travadas pela pobreza, pelo colapso económico e por uma guerra atrás da outra. O Sudão é, por natureza ou por necessidade, uma cultura oral. Inclinamo-nos mais para a fala do que para a escrita. A iliteracia é generalizada e os livros são escassos. Numa cidade enorme como Cartum, seria uma sorte encontrar dez livrarias a sério — e por “a sério” quero dizer lugares que vendem de facto livros que valham a pena ler. Quanto a verdadeiras livrarias culturais, independentes, podem contar-se pelos dedos de uma mão. Fora da capital — em lugares como el-Qadarif, Kassala, Shendi, el-Obeid, Dongola, el-Fasher — até uma livraria decente é coisa de sonho.

Apesar da rica história do Sudão — berço das grandes civilizações da Núbia, Daju e Alwa — os livros são um fenómeno relativamente recente. Muitos escritores como eu, de origens humildes e rurais, tiveram o primeiro contacto com a narrativa literária através dos enigmas e histórias que as nossas avós e anciãos nos contavam. Curandeiros tradicionais e feiticeiros escrevem talismãs em papel, naturalmente destinados a serem lidos por espíritos malignos ou benevolentes. Só aos treze anos abri o meu primeiro livro — uma coletânea de contos de terror de Edgar Allan Poe, traduzida para árabe. A primeira livraria, a Sudan Bookshop, abriu as suas portas apenas em 1902.

Os longos anos de ditadura militar não ajudaram. Um após outro, cada regime encontrou a sua própria forma de suprimir a edição de livros e silenciar os escritores. Sob o governo islamista do dito regime da Salvação (1989–2019), os livros eram confiscados e os escritores perseguidos. Em 2001, foi aprovada a Lei das Obras Literárias e Artísticas. A lei determinava o que os escritores podiam escrever, onde podiam publicar e o que aconteceria caso não cumprissem — por vezes submetidos a interrogatórios, outras vezes algo pior. Desde 2005, foram mais os meus livros que foram proibidos do que os que foram permitidos. O Ministério da Cultura chegou mesmo a emitir uma declaração oficial proibindo por completo a circulação de um dos meus livros. Mas encontrei uma forma de contornar a situação. Recorri à internet e comecei a partilhar os meus livros livremente, em formato PDF, com todos os que quisessem ler. É mais difícil para as autoridades censurar ou bloquear uma transferência digital.

Além dos censores, o outro inimigo da literacia no nosso país é o analfabetismo. De acordo com estimativas da UNESCO, cerca de um quarto da população do Sudão — quase seis milhões de pessoas — é analfabeta. A literacia luta sob o peso do descaso da autoridade política, tornando qualquer apoio significativo à educação formal a última prioridade no orçamento do governo. Pastores e agricultores preferem que os seus filhos fiquem em casa para ajudar nas atividades diárias de subsistência, em vez de ir à escola. Outros levam uma existência nómada, tornando a frequência escolar regular impossível.

E assim chegamos a uma geração partida em desacordo contra si mesma. Um segmento consome a tecnologia moderna, favorecido por condições materiais relativamente confortáveis, um nível razoável de literacia e acesso a dispositivos inteligentes que os conectam ao mundo. Esse segmento desta geração vive num mundo virtual e interconectado, desvinculado da sua própria realidade social. O outro grupo — privado dos meios modernos de comunicação pela guerra, pelo deslocamento forçado e pela pobreza — não se espera que se envolva de forma significativa na leitura. O acesso a livros literários ou educativos é severamente limitado, restrito sobretudo a currículos escolares insípidos, concebidos deliberadamente — tanto ideologicamente quanto estruturalmente — para perpetuar o atraso e a dependência. O seu mundo permanece exclusivamente oral. Há vinte anos, quando eu estava na minha cidade natal de Khashm el-Girba, a organização de voluntários com a qual trabalhava organizou uma visita a uma família cristã muito pobre, chefiada por uma mulher analfabeta que vendia uma bebida alcoólica artesanal local. Ela recebeu-nos calorosamente na sua casa humilde. Quando me apresentei, ela interrompeu-me e disse: “Abdu Wad Maryam” — esse é o meu apelido na aldeia — “eu conheço-te. Todas as sextas-feiras, o nosso padre vem a minha casa e lê as tuas histórias em voz alta para todas as mulheres da vizinhança.”

Acho que hoje em dia já não ouviria uma história assim. Os filhos ou netos dessa mulher prefeririam estar a deslizar o ecrã dos seus dispositivos inteligentes. Haverá sempre pessoas apaixonadas e talentosas, e algumas almas irreverentes e excêntricas atraídas pela linguagem, que embandeiram imaginações realistas. Enquanto existirem, a literatura resistirá. Talvez estes criadores recitem textos através de aplicações digitais desenvolvidas por engenheiros habilidosos além-fronteiras. Essas aplicações servirão de pontes entre as obras literárias e aqueles que ainda amam a literatura, movidos por uma centelha herdada. Para não desaparecer no esquecimento, os escritores têm de encarar um mundo pós-letrado e confrontar um futuro inevitável, em vez de enterrarem a cabeça na areia.

Mas há uma ameaça ainda maior a pairar sobre as gerações pós-letradas e iletradas que crescem no Sudão em guerra — a instrumentalização da desinformação. As notícias falsas espalham-se rapidamente nas redes sociais como o Facebook, o Instagram, o WhatsApp e, em especial, o TikTok. Na maioria das vezes, trata-se de informações precipitadas sobre batalhas que nunca aconteceram, publicadas por jovens apoiados por grupos de milícias. Isso não faz senão alimentar os conflitos reais e minar o moral da população. Um dos lados mais sombrios da iliteracia é o facto de muitos combatentes — sejam de milícias ou de exércitos regulares — documentarem os seus crimes contra civis ou grupos armados rivais e de os transmitirem nas redes sociais. Esses vídeos poderiam servir como prova para responsabilizá-los (se existissem sistemas de justiça locais ou internacionais eficazes). Mas com a cumplicidade da comunidade internacional, receio que estes crimes passem em silêncio, como tantos outros antes deles.

Um dos aspetos mais perturbadores desta guerra é o fenómeno conhecido no Sudão como al-Layfatiya, termo derivado do ato de publicar vídeos ao vivo. Trata-se de campanhas de guerra psicológica enraizadas em discurso de ódio, racismo, incitamento à violência e vingança, travadas principalmente no TikTok e em outras plataformas de transmissão ao vivo. A maioria dos Layfatiya, como são assim chamados os homens e mulheres envolvidos, tem baixa escolaridade ou vive à margem da sociedade. Muitos provavelmente nunca leram um livro e desconhecem os direitos humanos mais básicos. Até os textos religiosos sagrados que afirmam seguir estão além da sua verdadeira compreensão. No entanto, comandam milhões de seguidores, travando batalhas verbais frenéticas e letais. As suas munições são as mentiras, e as suas consequências são reais: inflamar conflitos, aumentar o deslocamento forçado e aprofundar a pobreza. A próxima geração tornar-se-á transformada mentalmente em soldados, não em leitores — e a guerra arrastar-se-á cada vez mais.

______________

O autor: Abdelaziz Baraka Sakin [1963 – ] é um escritor de ficção sudanês com raízes em Darfur, no oeste do Sudão, cuja obra literária foi proibida no Sudão em 2011. Desde 2012, vive exilado na Áustria e, mais tarde, em França. Ele é mais conhecido pelos seus romances O Messias de Darfur e O Jungo, traduzido do árabe original para o francês, inglês, espanhol e alemão. De acordo com o crítico literário Sudanês Lemya Shammat, “Sakin refletiu repetidamente sobre a complexidade da experiência humana durante o conflito, refletindo a horrível massa de contradições que a guerra traz.” É licenciado em Administração de Empresas pela Universidade de Assiut, no Egipto, e exerceu diferentes actividades profissionais durante a sua vida: como trabalhador manual, professor do ensino secundário, consultor da UNICEF em Darfur ou como funcionário de uma ONG internacional para os direitos da criança.

A sua obra literária, que fala de pessoas marginalizadas e da guerra, com referências ao genocídio de Darfur e à ditadura no Sudão sob Omar al-Bashir, é publicada em árabe no Egipto. É popular entre os leitores sudaneses, que contrabandeavam os seus livros para o seu país após a sua interdição em 2009. O escritor Sudanês Ayman Bik chamou o romance O Messias do Darfur de “um grande passo em frente, para a libertação dos nossos laços históricos em relação à região do Darfur, e em relação ao racismo sistemático e aos massacres cometidos na região”. Em 2011, Baraka Sakin recebeu o Prémio Al-Tayeb Salih de Escrita Criativa na Feira do Livro de Cartum pelo seu romance The Jungo – Stakes of the Earth, que trata das condições de uma prisão feminina em El-Gadarif, no leste do Sudão. Pouco depois da sua libertação, as autoridades sudanesas confiscaram e proibiram os seus livros. Em 2012, Baraka Sakin deixou o Sudão Para se exilar na Áustria. Em agosto de 2022, a cidade austríaca de Graz anunciou que Baraka Sakin tinha sido nomeado para o seu prémio de artista residente para 2022/23. Em 2023, Baraka Sakin foi condecorado Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras pelo Ministério da Cultura francês, em reconhecimento pelas suas contribuições para a literatura.

 

Leave a Reply