Em 7 de Outubro de 2011, Carlos Loures, um dos coordenadores do blogue, tomou posição. Sublinhe-se que as posições pessoaia dos coordenadores não vinculam o blogue.
O Acordo Ortográfico é um tigre de papel – por Carlos Loures
Não tenciono aplicar as regras do novo Acordo Ortográfico.
A adopção deste Acordo, parece-me medida de uma total inutilidade – as grandes diferenças entre o português europeu e o brasileiro não são de natureza ortográfica – a sintaxe é diferente nas duas normas e continuará a sê-lo e o campo semântico de muitos vocábulos também . E essa diferença não será o Acordo que a resolverá. ´´É, aliás, a inutilidade em forma de diploma – um tigre de papel.
Os idiomas são organismos vivos – nascem, os seus vocábulos vão sofrendo uma ampliação semântica e subdividem-se noutras palavras, crescem e transformam-se. Outros, vão sofrendo restrições, as palavras vão sendo substituídas pelas de um idioma dominante sob a forma de neologismos, até que desaparecem, morrem.
De acordo com estimativas elaboradas pela UNESCO, o português e o espanhol são os idiomas europeus que mais crescem, a seguir ao inglês que vai sendo imposto como língua franca da União Europeia. Porém a maior margem de progressão, o maior potencial está reservado à nossa língua, mercê do crescimento demográfico previsto para os países africanos de expressão portuguesa. No ano de 2050 a previsão do número de falantes da nossa língua é de 335 milhões de pessoas. A «nossa língua», disse eu. Nossa, de quem? Dos portugueses?
Como nos diz a Professora Isabel Casanova em A Língua no Fio da Navalha, de certo modo, todos falamos um dialecto – regional, social, profissional, pessoal…A unicidade da língua é uma abstracção. Saussure afirma que numa comunidade de falantes, o sistema gramatical só existe virtualmente na mente dos indivíduos – o idioma não está completo em nenhum desses indivíduos. A existência real da língua só existe na massa.
O português, enquanto língua existe na massa constituída por 270 milhões de pessoas que o falam (250 milhões de nativos, mais 20 milhões que o usam como segunda língua).
Portanto, quando digo «nossa», refiro-me a este universo de 270 milhões de indivíduos. Quando o galego-português surgiu no seu embrião da Galiza, a deriva logo começou. Puristas galegos censuravam o que os escritores, os cronistas do sul faziam do «seu» idioma. Mas foram os portugueses que, com essas violações á pureza fundacional, consolidaram a língua, a codificaram, lhe deram forma literária e a espalharam por todo o planeta. Mutatis mutandis, hoje em dia, podemos não gostar do abrasileiramento da língua, mas sem o Brasil seríamos umas escassas dezenas de milhões de falantes, sem o Brasil, o idioma não teria a mesma importância.
Os brasileiros não respeitam o idioma como nós? Nós, quem? Os intelectuais? A massa anónima? Os galegos disseram o mesmo de Fernão Lopes e de Gil Vicente…
Quem se preocupa com a entrada em vigor do Acordo, talvez não se tenha preocupado com uma violência que há mais de trinta anos o português europeu sofreu – no bom e no mau sentido, a invasão de telenovelas brasileiras, de que fomos vítimas a partir dos anos setenta, fez mais pela unificação da língua do que uma dúzia de acordos. Sou frequentemente emendado por dizer bicha em vez de fila ou infantário em vez de escolinha. A construção frásica típica do português do Brasil, entrou em Portugal pela porta ínvia da TV Globo e atingiu, não os intelectuais e académicos, que folheiam afanosamente as bases do Acordo, mas sim os mais iletrados. Embora ouça, vindo de pessoas cultas, muitas brasileiradas – o “tudo bem?” institucionalizou-se. Como se em países como o Brasil ou Portugal pudesse alguma vez estar tudo bem…
Os termos e expressões que por essa via entraram no quotidiano e se integraram na linguagem dos portugueses (cusca, fofoca, curtir, estar numa de, chamar de, viver às custas de…). Afectaram mais as pessoas com índices de iliteracia mais elevados, mas os intelectuais, alguns dos que agora atacam o Acordo, não mexeram um dedo quando essa operação comercial da Globo, da RTP, da SIC, pôs os portugueses a falar de uma forma idiota. Porque as expressões brasileiras são normais nas bocas dos brasileiros e ridículas quando papagueadas por portugueses. Mas, visto à escala da história, nada disto é grave.
Quando em fins do século XIX os emigrantes que haviam feito fortuna no Brasil regressaram a Portugal e enxamearam, sobretudo o Norte, com as suas casas, foi um enorme reboliço de protesto contra o mau gosto da arquitectura dos «brasileiros». Hoje, algumas delas são ex-líbris de cidades e vilas, toda a gente as acha lindas. Habituamo-nos a tudo – os lisboetas já olham sem repugnância para as torres das Amoreiras e demais «taveiradas» que se espalham pela cidade. O CCB considerado uma ofensa à pureza do manuelino dos Jerónimos, parece que sempre ali esteve. Mais uma geração ou duas, os termos vindos do Brasil para o negócio do Dr. Balsemão, estarão definitivamente enquistados no corpus do idioma.
Se pudéssemos viajar para o futuro, talvez ficássemos tristes ao ouvir aquilo em que o português se terá transformado. Mas se existir e não tiver sido absorvido pelo inglês ou pelo mandarim, já seria motivo para nos orgulharmos. De uma coisa podemos estar certos – deste Acordo que tanto nos preocupa só os coca-bichinhos, terão (talvez) daqui por uns anos alguma informação.
Aplicá-lo. Não o aplicar. Cada um que faça o que lhe aprouver.
Eu vou ignorá-lo.

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