UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (63)

CARTA DO PORTO

 

 

 

IGREJA DE SÃO JOSÉ DAS TAIPAS

De cada vez que eu ia para a baixa, passava à porta da Igreja. Provavelmente por causa da hora, ou horas, a que lá passava, mas também por causa do vandalismo dos dias em que hoje vivemos, a igreja estava fechada.
Na passada semana, mudei o meu horário e vi-a aberta. Não perdi tempo, e entrei.
Já na minha crónica nº 13 me referi a esta Igreja por causa do cruzeiro de pedra pintada que tinha estado onde hoje se encontra o Palácio da Justiça, e que agora está guardado na galeria museológica que a Igreja possui (estava de fronte ao mercado do peixe, que lá existia, e era dedicado ao Senhor da devoção dos negociantes de peixe, por via do qual lhe faziam grande festa todos os anos. Era o padrão do Senhor da Saúde, mas todos o conheciam pelo nome de Senhor dos Peixeiros).

Padrão do Senhor da Saúde
Padrão do Senhor da Saúde

 

A Igreja das Taipas fica mesmo no início da Rua Dr. Barbosa de Castro, na esquina com a rua do Campo dos Mártires da Pátria, no topo sudoeste do Jardim da Cordoaria. A fachada e o seu interior são representativos do neoclássico portuense (o neoclassicismo entrou em Portugal pela cidade do Porto), e a sua autoria é atribuída ao Arquitecto Carlos Amarante (Braga, 1748 – Porto, 1815).
De uma forma simplista, pode dizer-se que o neoclassicismo (movimento intelectual iniciado em Itália em meados do século XVIII), por oposição ao barroco (imitando os antigos artistas clássicos), escolhe formas rectangulares, as colunas têm frisos simples ou canelados, e os revestimentos a ouro são substituídos por pintura a branco com ligeiras aplicações de ouro.
O projecto da igreja terá sido efectuado em 1806 (no mesmo ano em que também projectou a Ponte das Barcas, cuja tragédia iria ocorrer em 1809) e a sua construção prolongou-se até 1878 (a documentação da Irmandade de S. José das Taipas, referente a este período, perdeu-se, pelo que, tanto a atribuição da autoria como as datas propostas, carecem de confirmação).
A igreja primitiva, localizada onde agora se situa a actual sacristia, foi edificada em 1666, e em 1786, a Irmandade / Confraria (que em 1780 se tinha fundido com a Irmandade de S. Nicolau Tolentino e Almas, que era a dos bacalhoeiros) pediu autorização ao município para rasgar a muralha da cidade, de forma a que, assim, pudesse dar mais profundidade à nova igreja, a construir (obtida a respectiva autorização, estas obras começaram em 1795).

Nas catacumbas da Igreja, que há quem diga terem sido local de oração dos Judeus, ainda é possível ver restos da muralha Fernandina.

 

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Sacristia
Sacristia

Em 1810 os moradores da Ribeira conferiram à Irmandade / Confraria o encargo de “velar e consagrar as almas dos falecidos no desastre da Ponte das Barcas”, de ter sempre duas velas acesas no local do desastre, de recolher as esmolas (que a partir dessa altura aumentaram significativamente e a par com as verbas obtidas com a percentagem nos lucros da venda do bacalhau, permitiram costear a construção da nova igreja), e, a cada 29 de Março, de celebrar uma missa e promover uma procissão, com música, desde a capela até à Ribeira, em sua memória (esta tradição acabou aquando da implantação da República, em 1910).
Existe, por isso, uma pintura sobre cobre, alusiva ao desastre, num altar à entrada da igreja e do lado da Epístola (chama-se lado da Epístola, ao lado da igreja onde se lêem as Epístolas, normalmente do lado direito de quem olha para o altar – lado sul nas antigas igrejas, que se construíam orientadas nascente – poente), baseada na pintura que, originalmente, fora colocada no memorial das “Alminhas da Ponte”. Essa pintura foi substituída em 1897 por um baixo-relevo em bronze da autoria de Teixeira Lopes (pai).

Alminhas da Ponte
Alminhas da Ponte

 

Na galeria museológica, existente do lado do Evangelho (lado oposto ao da Epístola), para além do cruzeiro de que já falei, podemos encontrar pinturas, imagens de santos e um magnífico presépio do século XVIII, que segue os modelos da escola de Machado de Castro.

Galeria Museológica
Galeria Museológica
Pormenor do Presépio
Pormenor do Presépio

 

A igreja tem 4 altares laterais dedicados a Nossa Senhora das Dores, da Saúde, da Conceição e de Santo António.

 

Igreja de São José das Taipas
Igreja de São José das Taipas
Igreja de S. José das Taipas (Foto Internet)
Igreja de S. José das Taipas (Foto Internet)

 

Esta é, sem dúvida, mais uma das igrejas da nossa cidade, a visitar urgentemente.

 

 

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