De vez em quando, vale a pena lançar uma olhadela sobre Dealbreaker. O site apresenta-se como um “insider de Wall Street”, um “Insider” do Interior da Finança. Os atores da Finança deixam intencionalmente escapar para este site ecos de todos os tipos. Às vezes há por aqui até informações exclusivas. Lêem-se por este blog mil e uma fofoquice que fazem as delícias dos membros de um meio onde nos deparamos mais rapidamente com gente afundada em algarismos do que com gente a rir. Mas, mais importante, surfa-se em Dealbreaker para apanhar o cheiro do buzz que circula na altura. Na Sexta-feira, 13 de julho, o título do artigo de Matt Levine, um dos seus blogueiros mais regulares, diz tudo: ” sempre a mesma velha e chata história.”. O inglês soa bem mais forte: “Same Old Boring Story.” No dia seguinte, pudemos perceber bem o porquê. O Wall Street Journal tinha em grande título : “6 mil milhões de multa para os gigantes dos cartões bancários, dos cartões de crédito.” O Financial Times tinha : “as perdas de JP Morgan atingem os 5,60 mil milhões”. E finalmente, o New York Times: “O Federal Reserve sabia que os relatórios do Barclays sobre as suas taxas eram manipulação ..”. Em suma, três escândalos diferentes publicados por três jornais diferentes , mas no fundo, tratava-se da “mesma velha e chata história”
Uma breve síntese dos factos.
Um: os fornecedores de cartões bancários, Visa, Mastercard e grandes bancos (Citi, Chase, Bank of America, etc.), são acusados de terem indevidamente sobrecarregado as suas taxas sobre as transacções. Estes grandes operadores aceitaram pagar não 6 mas sim quase 7 mil milhões dólares de multa para evitarem todo e qualquer julgamento, e destes 4.4 mil milhões são pagos pelo VISA .
Dois: a estimativa das perdas em operações de produtos derivados “podres” em Londres do JP Morgan, vai já em quanto? Portanto, eles não desapareceram? – atingirá quatro vezes o valor inicialmente anunciado.
Três: Finalmente, com a Libor, passa-se a uma escala bem superior.
A factura apresentada aos bancos em fraude pelas suas manipulações combinadas desta taxa de empréstimo interbancário pode atingir os 22 mil milhões! Doze deles estão já incriminados e qual o total dos acusados ver-se-á… Todos teriam truncado as suas declarações sobre as taxas de juros que eles estavam dispostos a aplicar. Há estados americanos como (Massachusetts, Connecticut…), cidades como (Baltimore, a primeira delas) , grandes instituições ( os reformados do serviço público da Califórnia) que apresentaram já queixa: estes manipuladores tê-los-ão roubado, a eles e aos contribuintes ou sócios, pretendem estes.
A impressão geral nos Estados Unidos é a de um retorno aos tempos das “negociatas” face ao público, o que nunca é bom para os negócios, para os verdadeiros negócios. Porque os escândalos financeiros surgem de todos os lados. Somente nessa segunda-feira 16: primeiro, um estudo mostra que a divulgação de informações confidenciais pelos bancos para os seus clientes preferenciais e para os Hedge funds é uma prática muito mais difundida do que aquilo que se pensa. . Assim, a legalidade é na prática alegremente contornada. Além disso, o departamento norte-americano de Justiça e o banco HSBC estão “perto de chegarem a um acordo” sobre a multa a pagar para evitar um julgamento: os dirigentes do banco são considerados suspeitos de cumplicidade com a lavagem de dinheiro do tráfico de droga.
Nos meios financeiros, a falta de transparência prevalece: eis que estes fazem figura de gente sem moral, sem respeito nenhum pelo que pode ser considerado de bem colectivo . E mais uma vez, os defensores de uma maior e mais eficaz regulação manifestam-se. . Mas isto poder-se-ia tratar apenas de um momento passageiro. Porque a opinião está fortemente interessada nestes casos. Como se aqui se instalasse a consciência desenganada de um poder público impotente face à “ganância” e ao sentimento de impunidade dos banqueiros. Em Dealbreaker, Matt Levine publicou as passagens de um documento, que ele encontrou facilmente nos dados tornados públicos do FED (Fed, Banco Central). É uma conversa entre um dos seus economistas e um trader , operador da sala de mercados de Barclays. Isso aconteceu em Abril de 2008, cinco meses antes do colapso financeiro. Aqui está um trecho:
O trader: “Hum…”. Neste momento, finalmente, desde três meses, Ahh… vou dizer-te que se eu fosse um banco, e eu precisasse de levantar fundos no mercado interbancário, isso custar-me-ia provavelmente 8 a 10 pontos-base mais o que fixa a Libor … »
O agente do FED : « Como é que explica esta contradição ? Talvez os bancos não se informem como o deveria fazer ou então….. »
O trader : « Bom, digamos … Poder-se-ia dizer dessa maneira. Enfim, vou ser franco e honesto consigo .. »
O agente, a rir-se : «Não, mas é isso que eu lhe estou a pedir…»
O trader: « (…) Enfim, você sabe bem que não se fornece, eh, uma taxa Libor honesta. E, contudo, fazemos isto porque, eh, se não o fizéssemos estaríamos a chamar a atenção sobre nós mesmos»
Isto é estariam a chamar a atenção sobre o estado real do banco, menos florescente do que o que se fazia crer.
Está aqui tudo lá, entre os ” eh..”. ” do trader e o riso amargo do funcionário do FED, as cumplicidades implícitas que podem ser postas em prática entre as duas instituições, entre o sector bancário e o Estado. “Eu sei que tu sabes que eu sei…”. “Dois meses depois, em Junho, o Presidente do Fed de Nova York, Tim Geithner (futuro Secretário do Tesouro de Barack Obama), informou o seu homólogo britânico das suas dúvidas sobre as manipulações da Libor. Elas mantiveram-se até mais de um ano depois.
Não é certo, apesar dos escândalos cumulativos, que saiam reforçados os reguladores financeiros – tanto eles aparecem sem praticamente meios legislativos, financeiros, humanos, em pessoal e também em qualificações , para conseguirem impor a lei àqueles que eles devem controlar. Tanto, também, eles parecem ter pactuado com a sua própria impotência.