« É SEMPRE A MESMA HISTÓRIA »… por Sylvain Cypel, Le Monde

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Serie banca nº 7

De  vez em quando, vale a pena lançar uma olhadela sobre Dealbreaker. O site apresenta-se como um “insider de Wall Street”, um “Insider” do Interior da Finança. Os atores da Finança deixam  intencionalmente  escapar para este site ecos  de todos os tipos. Às vezes há por aqui até informações exclusivas. Lêem-se por este blog  mil e uma fofoquice  que fazem as delícias  dos membros de um meio onde nos deparamos mais rapidamente com gente afundada em algarismos do que com gente a rir. Mas, mais importante, surfa-se em Dealbreaker para apanhar o cheiro do  buzz que circula na altura. Na Sexta-feira, 13 de julho, o título do artigo de Matt Levine, um dos seus blogueiros mais  regulares, diz tudo: ” sempre a mesma velha e chata história.”. O inglês  soa bem mais forte: “Same Old Boring Story.” No dia seguinte, pudemos perceber bem  o porquê. O Wall Street Journal tinha em grande título : “6  mil milhões de multa para os gigantes dos cartões bancários, dos cartões de crédito.” O Financial Times tinha : “as perdas de JP Morgan atingem os  5,60 mil milhões”. E finalmente, o New York Times: “O Federal Reserve sabia que os relatórios do Barclays sobre  as suas taxas eram manipulação ..”.  Em suma, três escândalos diferentes publicados por três jornais diferentes , mas no fundo, tratava-se da “mesma  velha e chata história”

Uma breve  síntese dos factos.

Um: os fornecedores de cartões bancários, Visa, Mastercard e grandes bancos (Citi, Chase, Bank of America, etc.), são acusados de terem indevidamente sobrecarregado as suas  taxas sobre as  transacções. Estes grandes operadores aceitaram pagar  não 6  mas sim quase 7 mil milhões dólares de multa para evitarem todo e qualquer julgamento, e destes 4.4 mil milhões são pagos pelo VISA .

Dois: a estimativa das perdas em operações de produtos derivados “podres” em Londres do  JP Morgan, vai já em quanto?  Portanto, eles não desapareceram? – atingirá  quatro vezes o valor  inicialmente anunciado.

Três: Finalmente, com a Libor, passa-se a uma escala bem superior.

A factura apresentada  aos bancos em fraude  pelas  suas manipulações combinadas desta taxa de empréstimo interbancário pode  atingir os 22 mil milhões! Doze deles estão já incriminados e qual o total dos acusados ver-se-á… Todos teriam truncado as suas  declarações sobre as taxas de juros que eles estavam dispostos a aplicar. Há estados americanos como  (Massachusetts, Connecticut…),  cidades  como (Baltimore, a primeira delas) , grandes instituições ( os reformados do serviço público da Califórnia) que apresentaram já queixa: estes manipuladores tê-los-ão roubado, a eles e aos contribuintes ou sócios, pretendem estes.

A impressão geral nos Estados Unidos é a de um retorno aos tempos das  “negociatas” face ao público, o  que nunca é bom para os negócios, para os verdadeiros negócios. Porque os escândalos financeiros surgem de todos os lados. Somente nessa  segunda-feira 16: primeiro, um estudo mostra que a divulgação de informações confidenciais pelos bancos para os seus clientes preferenciais e para os Hedge funds é uma prática muito mais difundida do que aquilo que se pensa. . Assim, a legalidade é na prática alegremente contornada. Além disso, o departamento norte-americano de Justiça e o banco HSBC estão “perto de chegarem a um acordo” sobre a multa a pagar para evitar um julgamento: os dirigentes  do banco são considerados suspeitos de cumplicidade com a lavagem de dinheiro do tráfico de droga.

Nos meios financeiros, a falta de transparência prevalece:  eis que estes fazem figura de gente sem moral, sem respeito nenhum pelo que pode ser considerado de bem colectivo . E mais uma vez, os defensores de uma maior e mais eficaz regulação manifestam-se. . Mas isto poder-se-ia tratar  apenas de um momento passageiro. Porque a opinião está fortemente interessada nestes casos. Como se aqui se instalasse a  consciência desenganada de um poder público impotente face à  “ganância” e ao sentimento de impunidade dos banqueiros. Em  Dealbreaker, Matt  Levine publicou as passagens de um documento, que ele encontrou facilmente nos dados tornados  públicos do FED  (Fed, Banco Central). É uma conversa entre um dos  seus economistas e um trader , operador da sala de mercados  de Barclays. Isso aconteceu  em Abril de 2008, cinco meses antes do colapso financeiro. Aqui está um trecho:

O trader: “Hum…”. Neste momento, finalmente, desde três meses, Ahh… vou dizer-te que se eu fosse um banco, e eu precisasse de levantar fundos  no mercado interbancário, isso  custar-me-ia provavelmente 8 a 10 pontos-base mais o que fixa  a Libor … »

O agente do FED : « Como é que explica esta contradição ? Talvez os bancos não se informem como o deveria fazer  ou então….. »

O trader : « Bom, digamos … Poder-se-ia dizer dessa maneira. Enfim, vou ser franco e honesto consigo .. »

O agente, a rir-se : «Não, mas é isso que eu lhe estou a pedir…»

O trader: « (…) Enfim, você sabe bem que não se fornece, eh, uma taxa Libor honesta. E, contudo, fazemos isto porque, eh, se não o fizéssemos estaríamos a chamar a atenção sobre nós mesmos»

Isto é estariam a chamar a atenção sobre o estado real do banco, menos florescente do que o que se fazia crer.

Está aqui tudo lá, entre os ” eh..”. ” do trader e o riso amargo do funcionário do FED,  as cumplicidades implícitas que podem ser postas em prática entre as duas instituições, entre o sector bancário e o Estado. “Eu sei que tu sabes que eu sei…”. “Dois meses depois, em Junho, o Presidente do Fed de Nova York, Tim Geithner (futuro Secretário do Tesouro de Barack Obama), informou o seu homólogo britânico das  suas dúvidas sobre as manipulações da Libor. Elas  mantiveram-se até mais  de um ano depois.

Não é certo, apesar dos escândalos cumulativos, que saiam reforçados os reguladores financeiros – tanto eles aparecem sem praticamente  meios  legislativos, financeiros, humanos, em pessoal e também em qualificações , para conseguirem impor a lei àqueles que eles devem controlar. Tanto, também, eles parecem ter pactuado  com a sua própria impotência.

Sylvain Cypel

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