” A VIDA DOS SONS”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (VI) – 1 – por Álvaro José Ferreira

Nota da Coordenação – Por dificuldades técnicas, lamentamos não podermos como, até aqui colocar todos os vídeos indicados pelo autor. Todos os vídeos podem, no entanto, ser vistos no YouTube.

1973

A edição do programa “A Vida dos Sons” relativa ao ano de 1973 teve, também, o triste condão de pecar por defeito em matéria cultural.
Tivemos:

1. Transmissão de um trecho da canção “Amílcar Cabral”, pelo cantor cabo-verdiano Tony Lima [>> YouTube], em jeito de remate à secção em que foi abordado o assassinato de Amílcar Cabral, presidente do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), ocorrido em Conacry, a 20 de Janeiro de 1973 [>> YouTube];

2. Transmissão de um excerto da “Sitting Bull Memorial Song”, pelos Lakota Thunder [>>YouTube], antes da referência à ocupação, em Fevereiro de 1973, da pequena cidade de Wounded Knee, no Dakota do Sul, por membros da tribo Lakota [“Lakota Mother Earth Song” >> YouTube] [“Lakota Dream Song” >> YouTube], em protesto contra o Governo Federal por não respeitar os tratados assinados; transmissão de um depoimento de Russell Means [>> YouTube];

3. Transmissão da introdução da “The Godfather Waltz” [>> YouTube], composta por Nino Rota para a banda sonora do filme “O Padrinho” (“The Godfather”), em preâmbulo à notícia da não comparência de Marlon Brando na cerimónia de entrega dos Óscares, sendo um dos nomeados na categoria de Melhor Actor; transmissão do discurso da sua representante, a índia Sacheen Littlefeather, expondo as razões da recusa do Óscar atribuído a Marlon Brando [>> YouTube];

4. Referência ao assassinato do cantautor chileno Victor Jara, a 16 de Setembro de 1973, depois de preso e torturado pelos esbirros do ditador Pinochet, que cinco dias antes ordenara o bombardeamento ao Palácio de La Moneda, de que resultou a morte do presidente democraticamente eleito Salvador Allende; transmissão de um depoimento do cantor e de um excerto da canção “Yo no canto por cantar” [>> YouTube];

5. Referência ao falecimento, a 20 de Setembro, do poeta Pablo Neruda, galardoado dois anos antes com o Prémio Nobel da Literatura; transmissão de palavras de ordem de pessoas presentes no funeral e da secção final do poema “No me lo pidan”, de Neruda, dito pelo autor [>> YouTube];

6. Transmissão de um excerto da canção patriótica “Soul of October”, do compositor egípcio Omar Khairat [>> YouTube], antes do tratamento da Guerra do Yom Kippur, desencadeada pelo Egipto e pela Síria, no dia 6 de Outubro de 1973, com o objectivo de recuperarem a península do Sinai e os Montes Golan, respectivamente, ocupados por Israel desde a Guerra dos Seis Dias (1967) [>> YouTube] [>> YouTube];

7. Transmissão do segmento inicial da canção “Tourada”, por Fernando Tordo, que em 1973 venceu o então Grande Prémio TV da Canção Portuguesa [>> YouTube] [no Festival da Eurovisão, Luxemburgo >> YouTube]; transmissão de breves declarações prestadas a Maria Leonor pelo cantor e pelo autor da letra, José Carlos Ary dos Santos.

Foram ignorados:

1. Falecimento do poeta e cantor Edmundo de Bettencourt; nascido no Funchal, estudou Direito em Lisboa e, a partir de 1922, em Coimbra, onde integrou o grupo fundador da “Presença” (1927), cujo título sugerira, e em cujas edições publica “O Momento e a Legenda”; vem a afastar-se em 1930, subscrevendo com Miguel Torga e Branquinho da Fonseca uma carta de dissensão, em que denuncia o risco em que a revista incorria ao enquadrar o “artista em fórmulas rígidas”, esquecendo o princípio de “ampla liberdade de criação” defendido nos primeiros tempos; antes e concomitantemente, Edmundo de Bettencourt teve relevante papel na renovação da canção de Coimbra ao abordá-la com uma nova postura interpretativa, ajudada pela beleza tímbrica da sua voz e pela extraordinária guitarra de Artur Paredes, bem patente em “Saudades de Coimbra”, em “Menina e Moça” e em “Fado da Sugestão” [>> YouTube], e ao incorporar no repertório coimbrão espécimes originários de outras regiões do país, como “Saudadinha” (Açores) [a partir de 11′:35″ >> YouTube], “Canção do Alentejo” [>> YouTube], “Canção da Beira Baixa” [a partir de 15′:05″ >> YouTube] e “Senhora do Almortão e Senhora da Póvoa” (Beira Baixa) [>> YouTube]; uma das suas mais imortais criações intitula-se “Samaritana” (letra e música de Álvaro Cabral) [>> YouTube]; a redacção de “Poemas Surdos”, entre 1934 e 40, alguns dos quais publicados na revista lisboeta “Momento”, permite antedatar o surto do surrealismo em Portugal, enquanto adesão a um «sistema de pensamento, no que ele tem de fuga à chamada realidade, repúdio dos valores duma civilização e esperança de acção num domínio onde por tradição ela é quase sempre negada»(cf. entrevista concedida a João de Brito Câmara), embora não seja possível esclarecer com especificidade qual foi o conhecimento que Bettencourt teve da lição surrealista francesa; a sua produção poética, boa parte da qual dispersa em diversas publicações, seria reunida no livro “Poemas de Edmundo de Bettencourt” (1963), prefaciado por Herberto Hélder, poeta que, pela primeira vez, faz justiça à originalidade do autor de “Poemas Surdos”, considerando-o «uma das pouquíssimas vozes modernas entre o milagre do “Orpheu” e o breve momento surrealista português»;

2. Falecimento da escritora norte-americana Pearl S. Buck; filha de um missionário presbiteriano que dedicou muitos anos de vida à tradução da Bíblia do grego para o mandarim, Pearl S. Buck passou, em consequência, a sua infância na China; educada pela mãe e por um perceptor chinês, aprendeu a falar o principal idioma do Império do Meio ainda antes de dominar o inglês; de 1907 a 1909, estudou num colégio interno em Xangai, colaborando em seguida com uma associação de refúgio e apoio a prostitutas e escravas sexuais chinesas; rumou depois aos Estados Unidos da América, com o intuito de prosseguir a sua educação, estudando Psicologia no Randolph-Macon Woman’s College, na Virgínia; obtido o diploma em 1914, regressou à China para ocupar o cargo de professora numa missão presbiterana, e para cuidar da mãe que adoecera gravemente; quando esta recuperou, Pearl Buck foi viver com John Lossing Buck, um agrónomo com quem se havia casado pouco tempo antes, passando a viajar pelas zonas rurais como sua intérprete, ao mesmo tempo que exercia o magistério de professora; o seu primeiro romance, “Vento do Oriente, Vento do Ocidente” (“East Wind, West Wind”, 1930), teve acolhimento modesto da crítica, mas melhor sorte teria “Terra Bendita” (“The Good Earth”, 1931), romance original ao conseguir conciliar uma prosa de tom bíblico com a estrutura das sagas narrativas chinesas, que receberia o Prémio Pulitzer, e seria levado ao cinema, em 1937, pela mão de Sidney Franklin [>> YouTube]; em resultado da invasão da China pelas tropas nipónicas, é deportada, em 1934, para o Japão, após o que ruma aos Estados Unidos; depois da II Guerra Mundial, tentou regressar à China, mas tal intento saiu frustrado, simplesmente porque o regime de Mao Tse Tung sempre lhe negou o visto de entrada por ser considerada “agente imperialista”; em 1938, tornou-se a primeira mulher norte-americana a ser galardoada com o Prémio Nobel da Literatura; depois do romance “O Patriota” (“The Patriot”, 1939), obra em que a Pearl S. Buck deixa transparecer a sua desilusão quanto à cooperação entre os povos, a autora empenhou-se na luta pelos direitos das mulheres norte-americanas e pela melhoria das condições de vida e de educação das crianças de origem asiática, muitas delas fruto de relações entre ocidentais e orientais, e, nessa medida, estigmatizadas; nessa preocupação humanitária se inscrevem as obras “The Angry Wife” (1947) e “A Flor Oculta” (“The Hidden Flower”, 1952), bem como a criação da Pearl S. Buck Foundation [>> YouTube];

(Continua)

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