ANGELA MERKEL, “O HOMEM DOENTE” DO EURO – Jean Quatremer, Coulisses de Bruxelles

Este texto foi publicado no Estrolabio de 23 de Junho de 2011
Enviado por Júlio Marques Mota

“Se a chanceler  alemã, Angela Merkel, tivesse afirmado  em Dezembro de 2009 a sua solidariedade para com a Grécia,  teria marcado o fim da crise”, afirmou ainda há  pouco, Jorgo Chatzimarkakis, em Bruxelas, aquando de uma conferência de imprensa. No entanto, este deputado europeu alemão é membro do FDP, o partido liberal que, na Alemanha, considera que Merkel é demasiado frouxa na crise grega e que considera também que há muito tempo que se deveria ter deixado  Atenas ir para a falência. O facto de este deputado criticar assim abertamente Angela Merkel, mostra que o vento está a talvez a mudar em Berlim perante a desastrosa gestão da crise pelo governo conservador-liberal (CDU-CSU/FDP). Na maior parte dos países da zona euro, a exasperação está já no seu máximo: “instilando a dúvida sobre a pertença da Grécia ao euro, criou-se a crise na qual estamos agora ”, assim martelou Guy Verhofstadt, o presidente do grupo liberal e democrata do Parlamento Europeu.

A França sabe melhor que todos os outros a que  ponto a zona euro, por várias vezes esteve à beira da catástrofe, como sabe tanto quanto a  Alemanha de Merkel se tem tornado europeia. “Nicolas Sarkozy tudo tem feito para trazer  Angela Merkel para a embarcação europeia quando esta tinha apenas um desejo que era dela  saltar”, afirma-se nos corredores do poder . “Podem  acusar-nos de estar colados  à posição alemã desde há dezoito meses, mas era o preço a pagar de modo que a Alemanha permanecesse a bordo e aceitasse participar no salvamento do euro e posso dizê-lo e reconhecê-lo  que tudo isto não é nada  evidente. Nicolas Sarkozy absteve-se com cuidado de toda e qualquer declaração pública sobre o assunto para evitar quebrar a relação franco-alemã, a única coisa que poderia  permitir à zona euro sair da situação”. Mas, longe de tirar as lições das falsas operações passadas, Berlim continua a alimentar a fogueira , como se Berlim não consiga  pensar para além dos seus problemas de coligação e dos seus períodos eleitorais.

Nestes últimos dias, mesmo a França sentiu fortemente a gravidade da situação  e opôs-se frontalmente à Chanceler alemã. Desde algumas semanas, esta, face à  impossibilidade da  Grécia voltar aos  mercados em 2012 como o esperava, a melhoria das suas contas públicas sendo mais longa do que previsto, a Chanceler exigiu que o futuro plano de ajuda à Grécia implicasse desta vez  o sector privado. Por outras palavras, Merkel  apoiada pelo seu ministro das finanças, Wolfgang Schäuble,  no entanto muito europeu, quis  obrigar os bancos e as outras instituições financeiras a subscrever novas obrigações gregas para substituir as que se estavam a vencer e, de passagem,  alongar para  sete anos a sua data de vencimento, para que não seja só o contribuinte a suportar a carga da dívida  grega. O que representa uma situação de incumprimento, de default,  porque a situação dos credores é degradada em relação a que era antes…

Imediatamente, os investidores que se julgavam ao abrigo de qualquer incumprimento , como se o tinham assumido  os  governos da zona euro, entraram em pânico  e daí , então.  o brutal agravamento da crise: as taxas de juro sobre a dívida grega, mas também a irlandesa ou a portuguesa, espanhola ou  italiana dispararam . Porque, se se está a implicar  o sector privado na reestruturação da dívida grega, não se será o mesmo  caso depois para com os outros países em dificuldade? O Banco Central Europeu, apoiado pelo Bundesbank ou ainda pelo FMI, opôs-se violentamente à esta ideia, da mesma maneira que a França e a maior parte dos países da zona euro (fora da antiga “zona marco”, Áustria, Países Baixos, Finlândia).

Finalmente, na sexta-feira, Nicolas Sarkozy teve êxito a trazer à razão o seu homólogo alemão, abalado pelo levantamento de mecanismos de protecção  que a sua ideia tinha suscitado: a participação do sector privado  sim,  mas se e só se for  “voluntária e informal”, o que evitará a situação de incumprimento  (os credores não estarão mesmo  reunidos em torno  de uma mesa para discutirem a sua participação). Aquando do Eurogrupo de Domingo à noite, no Luxemburgo,  o director associado do FMI pediu aos Europeus que parassem com as suas discussões “improdutivas” sobre a reestruturação da dívida grega. Jean-Claude Juncker, o primeiro ministro do Luxemburgo e o presidente do Eurogrupo, chamou à atenção  contra “o efeito de contágio das más decisões; corremos o risco de atear  o fogo à zona euro”. Mas o mal está  feito: os mercados, já nervosos, mais uma vez foram abalados e interrogaram-se se a zona euro é capaz superar a crise.

Os parceiros da Alemanha estão enervados ainda mais quanto este  passo em  falso não é único, é apenas  o último de uma muito longa série, a  ponto de que alguns se interrogam já “se há ainda alguém que na Alemanha que compreende os mercados financeiros” quando são eles os actores essenciais da crise actual. Assim, é Berlim que transformou pelas suas hesitações a crise da dívida grega, que começou em Dezembro de 2009, em crise da zona euro. Após ter acarinhado a ideia, durante cinco meses,  de deixar a Grécia entrar e assumir  a sua situação de  falência, ou mesmo de a  levar  a deixar a zona euro, a chanceler  alemã, Angela Merkel, acabou  por se  deixar  convencer por Paris e Bruxelas que vieram em seu  socorro, no dia 1 Maio de 2010. Mas  com o respeito pelas  suas condições: exigiu que os países da zona euro emprestassem  os 80 mil milhões de euros prometidos à Grécia (mais 30 mil milhões emprestados pelo FMI) com taxa de juro duas vezes mais elevada que a do FMI para não dar a impressão à sua opinião pública, já fortemente agastada  por uma imprensa popular resolutamente anti-Grécia,  que não se estava a fazer nenhum “presente” à Atenas: a Grécia não respeitou o regulamento de co-proprietária  do euro, deixando derivar as suas finanças públicas e então deve por isso mesmo  ser “punida” ( esclareça-se que esta remuneração não cai nos bolsos dos investidores, mas nos orçamentos dos Estados credores).

Resultado: em Março de 2011, foi necessário diminuir em situação de catástrofe esta taxa de juro antes sem dúvida,  em breve,  de a levar aos níveis de  taxa do mercado, porque estas condições draconianas agravam a carga da dívida grega…

Mas o pânico já tinha alcançado  os mercados persuadidos que estes já estavam de que a zona euro ia explodir. Uma semana depois do salvamento da Grécia, a 10 de Maio de 2010, foi necessário criar e com grande urgência  um Fundo europeu de estabilidade financeira (FEEF) dotado de 440 mil milhões de euros (mais 60 mil milhões que pode emprestar a Comissão, mais 250 mil milhões que poderá emprestar o FMI)… A zona euro esteve  muito perto da explosão. Mas este FEEF, sujeito ao veto de cada Estado membro, como  o exigiu os Alemães, realmente não convenceu os mercados, porque deve ser activado  caso a caso, situação a situação,  e não por um organismo federal como a Comissão. E as violentas críticas do Presidente  do Bundesbank, Axel Weber, contra a decisão do BCE  estar a comprar dívida pública  grega no mercado secundário, o da revenda,  não contribuiu para tranquilizar os investidores sobre a determinação alemã de salvar a Grécia. A situação por conseguinte continuou tensa todo o verão.

No entanto, em Setembro, Berlim, apesar das advertências do BCE, recomeçou nas suas exigências. Berlim pediu oficialmente que a reestruturação das dívidas soberanas possa ser automática no caso um Estado-Membro da zona euro beneficiar  de uma ajuda pública. “Merkel tem que tranquilizar a sua opinião pública: não é  agradável para  os contribuintes que sejam eles a pagar para um país, devem ser esses malditos  banqueiros”, explica-se  em Paris. “Mas sobretudo, esta não quer se trate  de uma União de transferências: teme que no  final, a dívida grega, por exemplo, seja detida inteiramente pelos parceiros de Atenas e que estes sejam  forçados a  anular uma parte depois”. Em suma, que se transfira  uma parte dos rendimentos de um Estado para um outro Estado, o que  representaria de facto estar a criar  um orçamento federal.

Os mercados (principalmente os bancos e organismos financeiros privados da zona euro) entenderam a mensagem: a Alemanha quer reestruturar a dívida grega e por conseguinte procuraram desfazerem-se desta dívida o mais rapidamente possível, o que fez disparar  as taxas de juro (e conduzir as agências de notação a degradar de novo a Grécia). Paris, inquieta-se, compreendeu que se  tratava  de um ponto duro para Berlim, mas teve êxito em  limitar os estragos aquando da cimeira de  Deauville de Outubro de 2010 obtendo que a automatização seja excluída da mesma maneira que a nova negociação das obrigações de Estado subscritas antes de Junho de 2013. Mas o compromisso foi mal explicado , os mercados entraram de novo em pânico . Na data do Conselho Europeu dos chefes de Estado e de governo que se seguiu, Jean-Claude Trichet suplicou aos Europeus que não pronunciassem  a palavra “reestruturação”, em vão. O compromisso de Deauville foi assim adoptado pelos Vinte e sete. Os mercados não se calmaram, como o tinha predito  Trichet, o  que provocou de seguida a queda da Irlanda  e depois, na passada , a queda de Portugal, dois países frágeis eles também doravante colocados sob o  guarda-chuva europeu.

Em resumo, relançar regularmente o debate da implicação do sector privado é suicida, como se explica  em Paris. “É a mudança constante de doutrina que preocupa os mercados: não se pode dizer um dia, não haverá reestruturação, seguidamente não haverá  reestruturação antes de Junho de 2013, seguidamente,  reestruturam-se todas as dívidas ”, explica um responsável francês. É  necessário seja  reestruturar imediatamente ou alternativamente nunca querer  reestruturar. “ Está-se exactamente na situação de  Lehman Brothers”, o banco de negócios cuja falência, a 15 de Setembro de 2008, provocou uma crise financeira e económica mundial. “Lehman não era um banco sistémico. O que bloqueou o sistema, é o facto de a administração Bush ter primeiro  salvo a AIG e Bear Stearns o que persuadiu o sector financeiro que os grandes estabelecimentos seriam  ajudados. Mas deixando abruptamente cair Lehman, mais ninguém emprestou dinheiro, porque se tinham  dúvidas sobre o estado de saúde real de cada um dos bancos  e cada um interrogava-se qual  seria o próximo ter o mesmo destino”… Didier Reynders retomou por  sua conta, na segunda-feira, o espectro novamente  de um Lehman Brothers europeu: “Se tivéssemos que deixar  partir um país para uma situação de incumprimento , sabe-se muito  bem que o contágio seria da mesma amplitude, e não somente como se crê  em alguns países: nestes incluindo o meu país, o Benelux, a França, a Alemanha, ver-se-iam  as consequências como se viram há já   três anos “.

Em suma, se aceitarmos  que a Grécia falte sobre a totalidade ou em  parte da sua dívida, apesar do compromisso político da zona euro de a apoiar, os investidores arriscam retirarem-se não só  da Irlanda e de  Portugal, mas também dos mercados julgados frágeis, da Espanha, da Itália, da Bélgica, etc., precipitando assim a sua queda. Além disso, uma situação de incumprimento ultrapassaria  também os bancos deste país e obrigaria  sem dúvida a uma recapitalização dos bancos e dos estabelecimentos expostos às dívidas dos Estados em falta  uma vez que  o mercado da dívida é muito integrado na zona euro (o que permite na passagem beneficiarem  de taxas baixas). Sem estar a levar em conta  a activação dos CDS, estes seguros contra as situações de incumprimento de um devedor   de que ninguém  pode predizer os seus efeitos  sobre a esfera financeira… Todo o sistema ficaria, por conseguinte, completamente desestabilizado e  uma recessão mundial não seria então de excluir como o acaba de reconhecer  Alan Greenspan, o antigo presidente da Reserva federal americana.

É verdadeiro que cada vez, o governo alemão volta para a fila  e participa no salvamento da zona euro. Assim, Berlim renunciou na segunda-feira  no  Luxemburgo a que o futuro Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) dotado de 500 mil milhões de euros e que se sucederá ao FEEF em 2013 tenha as categorias de credores seniores e juniores no caso de uma situação de incumprimento  de um Estado afim de aí  também querer agora  tranquilizar os investidores privados que serão colocados ao mesmo nível  que os estados subscritores de MEE… Os Alemães também tinham aceite, em Março passado, que o MEE   pudesse adquirir  directamente empréstimos de Estado junto dos países em dificuldade, o que seria um primeiro passo para as obrigações europeias (recusando ao mesmo tempo o resgate no mercado secundário…). Mas o preço a pagar é cada vez mais elevado.

Na mesma proporção que Berlim, em vez de negociar secretamente com os seus parceiros  Timothy Geithner, secretário do tesouro dos Estados Unidos  multiplica-se em  declarações públicas bastante ruidosas e ainda há pouco  chamou os Europeus à razão: “ penso que seria muito útil que a Europa fala de só uma voz, e com uma voz clara, sobre só uma estratégia. É muito difícil  para as pessoas  que investem na Europa compreenderem  qual é a estratégia quando se  tem   tantas vozes diferentes”. Não é seguro  que a chanceler  alemã  esteja em condições de ouvir e compreender  esta mensagem como o tem  estado a demonstrar  desde  há dezoito meses.

Hoje, “os Alemães definitivamente compreenderam  que não se podia deixar cair a Grécia, porque isso  ameaçaria o euro e admitiram que tinham necessidade da moeda única”, suspira-se  em Paris. Mas é necessário agora  ir mais  longe  e sair da política de mais remendos, sendo bem claro que esta  política  de remendos nada  tem regulado (muitíssimo pouco e sempre demasiado tarde): “basicamente, a questão  é ou o federalismo ou então a  falência”, resume um responsável europeu. Mas aqui está, “ não sei o que  os Alemães escolherão, e prefiro não lhes fazer a pergunta”…

Uma coisa está certa: se Helmut Kohl tivesse manobrado  assim, aterrorizado pela sua opinião pública, nunca o euro teria visto a luz do  dia.

Angela Merkel na verdade tornou-se  uma das verdadeiras incógnitas da equação europeia.

Jean Quatremer, Coulisses de Bruxelles, UE, Angela Merkel, « l’homme malade » de l’euro, Liberation, Paris,21 de Junho de 2011.

Leave a Reply