A ALEMANHA, O PAÍS PREDADOR DA ZONA EURO, por Philippe Murer

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

Texto notável assinado pelo Presidente  da Associação  Manifeste pour un Débat sur le libre échange, e membro do  Bureau du Forum Démocratique, Philippe Murer. Trata-se de um texto que aponta a dedo as razões de ser do drama que se abate por esta Europa e que corre o risco de a destruir por muitos anos, vítima que esta é não apenas da incompetência de alguns políticos, mas também vítima da ignorância de outros e da maldade ou ganância de muitos deles, o que é bem manifesto nas políticas suicidas de austeridade que de Bruxelas e de Berlim estão a ser impostas a todo o continente e em particular aos países mais fragilizados, como Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha e Itália. Mas à espera do país que se segue nesta marcha infernal para o suicídio colectivo que nos quer impor. O problema é certo reside nos governos nacionais sempre prontos a acatar as ordens de Bruxelas e daí que o problema central esteja então em Bruxelas e não só, está igualmente em Berlim, onde se fixam os objectivos do modelo neoliberal que esta minuciosamente a ser aplicado e onde se desenham as ambições imperiais modernas, a de uma Europa subjugada ao poder imperial alemão. Um texto a não perder, um texto a ler, um texto a exigir uma outra leitura sobre a traição dos nossos políticos, um texto claramente a apontar que as saídas são possíveis, saibamos nós exigi-las.

Júlio Marques Mota

A Alemanha, o país predador da zona euro

Philippe Murer

A Itália fez enormes esforços em termos de políticas de austeridade e de rigor  e tem  um excedente orçamental se ignorarmos os juros da dívida pública. Se a sua taxa de empréstimo fosse igual à da Alemanha, ou seja de 1%, a Itália estaria com um excedente orçamental. Com uma taxa agora em 7% que terá que suportar para os seus empréstimos por causa dos problemas da zona do euro, a Itália está com um défice de 4% do PIB e a população tem estado já a sofrer e irá sofrer muito mais  com os orçamentos públicos cada vez mais restritivos que têm estado  e continuarão de forma ainda mais dura a ser aplicados.

Excepto a Alemanha, os grandes países europeus desejam que se faça baixar as taxas de empréstimo da Itália e da Espanha, incluindo mesmo o uso gratuito da moeda emitida pelo Banco Central Europeu para reduzir as taxas de empréstimo que estão a ser exigidas. Os Estados Unidos praticam esta política desde 2009 e 80% da dívida pública nos Estados Unidos é actualmente subscrita pelo Banco Central americano mas à taxa  que hoje está vizinha de 1%. Se a Itália tivesse o seu Banco Central, ela poderia fazer o mesmo e iria acabar por ficar numa situação de excedente orçamental. Mas a Alemanha, sob o pretexto de regras que ela própria impôs (e imprudentemente todos nós aceitámos) aquando da criação do euro, recusa essa possibilidade à Itália e à Espanha. Por outro lado, em consequência dos problemas dos seus vizinhos, a Alemanha serve de país de acolhimento para o dinheiro europeu, em especial dos países em dificuldade,  que anda a fugir e à procura de porto de abrigo refúgio e, por esta via, a Alemanha levanta dinheiro nos mercados de capitais a taxas muito baixas, a cerca de 1%.

A hipocrisia Alemã

Estas regras evitam, pois, que agora países como a Itália e a Espanha possam sair da situação de crise económica. Estas regras devem ser alteradas pois no caso contrário significaria que a Alemanha não deseja de modo nenhum ajudar os seus parceiros a saírem dos seus problemas. Que significado tem estar a partilhar uma moeda entre os países, se não há nenhuma vontade de estes se entre-ajudarem? Não há também nenhuma transferência fiscal entre os países em situação de prosperidade e os países que estão em dificuldades (refira-se que os empréstimos do FEEF existem e são constituídos exactamente para substituir os empréstimos bancários, com os bancos a não quererem conceder mais empréstimos aos países do Sul: estes empréstimos praticamente não são dinheiro “fresco”, não são nova emissão do BCE).

O argumento da Alemanha para não mudar as regras é  a ideia  de que  a  utilização  de dinheiro gratuito, dinheiro  emitido pelo BCE,  para reduzir o endividamento espanhol e italiano leva à criação de inflação. No entanto, a Alemanha concordou que o BCE emprestasse 1000 milhares de milhões de euros para ajudar os bancos a uma taxa de 1%. Neste caso a Alemanha não teve nem tem esse tipo de preocupação relativamente à inflação, no caso de empréstimos aos bancos com esse dinheiro gratuito, moeda do BCE, a esta taxa assim cedido aos bancos. Por outro lado, a política de empréstimo do Banco Central americano, ao que parece, não criou nenhuma inflação desde 2009.

Mario Draghi, Presidente do Banco Central Europeu, sob pressão alemã, elaborou um compromisso falhado: o BCE aceitaria fazer descer as taxas de empréstimo para a Itália e para a Espanha, se e só se estes países se colocassem sob a influência da Comissão Europeia e se solicitassem a intervenção do FEEF. Pretende-se assim que estas democracias, depois de lhes ter pedido em nome do Euro que suportem terapêuticas cavalares que não funcionam, que engulam outras terapêuticas ainda  piores sob a direcção de tecnocratas não eleitos! As privatizações dos serviços públicos, o empobrecimento da população, a destruição do sector industrial por ausência de procura estarão assim na ordem do dia, estarão assim para ser a consequência da aplicação desta  política.

Igualdade, fraternidade

Na verdade, pode-se suspeitar da Alemanha pelo espartilho de regras que impõe aos outros países da zona Euro, esteja a querer  reforçar o seu poder na Europa através da imposição de sua política económica liberal e do enfraquecimento de outros países. Um certo sonho da grande Alemanha dominando a Europa paira por detrás desta política de bloqueio de todas as soluções realistas para os problemas da zona euro. (Uma política de retoma económica com dinheiro emitido pelo BCE também seria possível, mas é bem claro qu e  esta  seria impedida pelas famosas regras alemãs).

O nosso país não tem interesse em ser cúmplice passivo da Alemanha nesta política que mata pouco a pouco a economia da Espanha e da Itália, depois de ter feito já o mesmo à mata pouco a pouco a economia da Espanha e da Itália, depois de ter acabado de arruinar  a Grécia e Portugal. Um quarto da população está no desemprego na Espanha e na Grécia, 50% dos jovens estão no desemprego, nestes 2 países: isto é escandaloso e absolutamente injustificável. Isso significa que a teoria e a prática económica da Europa, sob a liderança da Alemanha é uma catástrofe para as populações .

A França não tem de participar em tais políticas de repressão económica e de humilhação dos povos. François Hollande deve tirar as suas conclusões. Manter o euro nessas condições é então fazer com que as populações sofram de forma absolutamente inútil. A França deve iniciar um braço de ferro contra a Alemanha e ameaçar sair do Euro em conjunto com a Itália e a Espanha, se as regras não forem alteradas. Na verdade, a Alemanha tem tudo a perder com uma explosão do euro, porque esta iria sofrer imediatamente uma queda do PIB de 7%: o marco alemão subiria 25% em relação ao franco e de 40 a 50% relativamente à lira e à peseta e a BMW, a Mercedes e outros produtos alemães ir-se-iam vender muitíssimo menos do que os seus preços subissem entre 25% e 50%.

Igualdade e fraternidade seriam palavras vãs da nossa divisa? Ou o euro e a Europa merecem todas as negações e todas as infâmias dos nossos representantes face aos valores da República ?

PHILIPPE MURER, L’Allemagne prédateur de la zone euro, disponível em Marianne 2 no website:

http://www.marianne2.fr/L-Allemagne-predateur-de-la-zone-euro_a221340.html

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