ANÁLISES SOBRE A CRISE, OLHARES SOBRE A EUROPA, OLHARES SOBRE O CRIME QUE CONTRA ESTA OS SEUS DIRIGENTES ESTÃO A COMETER

E agora é sobre a Alemanha que falamos , não sobre a Grécia, Espanha, Itália, Irlanda ou Portugal! Por Satyajit Das – II

(continuação)

Presos na armadilha…

A maior vulnerabilidade da Alemanha é a sua exposição financeira resultante da crise actual. A exposição da Alemanha à Europa, especialmente às economias problemáticas periféricas, é já muito grande.

Os bancos alemães apresentam exposições em cerca de EUA 500 mil milhões às emissões de dívida das nações periféricas. Embora os níveis tenham sido reduzidos, esta continua a ser substancial, especialmente quanto à exposição directa aos bancos nesses países e às exposições indirectas quando é considerado o sistema financeiro global.

A redução do risco realizada pelos  bancos privados foi compensada pelo aumento da exposição do estado alemão que assumiu parte dessa exposição. Isso foi feito directa ou indirectamente, através do apoio indirecto de diversas instituições oficiais, tais como a União Europeia (“UE”), o Banco Central Europeu (“BCE”), o Fundo Monetário Internacional (“FMI”) e os fundos especiais  de resgate.

Por exemplo, a exposição do BCE à Grécia, a Portugal, à Irlanda, à Espanha e à Itália é  já de 918 mil milhões em Abril de 2012. Esta exposição também está ela a crescer rapidamente, especialmente impulsionada pela fuga de capitais para fora desses países. O Financial Times informou em 21 de Maio de 2012, que o BCE tinha fornecido ao Banco Central grego 100 mil milhões para ajudar os bancos gregos na base do programa de assistência de emergência de liquidez (ELA).

As garantias da Alemanha no seu apoio ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (“FEEF”) são de 211 mil milhões de euros. Como a Espanha não poderá muito possivelmente actuar como um garante do FEEF, uma vez que está a pedir um apoio financeiro, sobre o qual diz o ministro espanhol da economia que não é um resgate total, a responsabilidade da Alemanha irá aumentar ainda mais, ou seja  de 29% para 33%. A parte da França também aumenta de 22% para 25%. Talvez o mais interessante, é a responsabilidade da Itália, que está em má forma para assumir em muito má forma para assegurar qualquer encargo financeiro externo adicional, e esta sobe de 19% para 22%.

O Mecanismo Europeu de Estabilidade, a substituição do FEEF, que está prevista para começar em Julho de 2012, exigirá um aporte de capital da Alemanha, que vai forçar o seu défice orçamental a passar de 26 mil milhões para 35 mil milhões de euros. Se o MEE utiliza o valor total das suas disponibilidades que é de 500 mil milhões e os que os recebem em resgate entram em incumprimento, as responsabilidades da Alemanha poderia passar a serem de 280 mil milhões.

Desde 2010, a zona euro  já colocou  386  mil milhões  nos  pacotes de resgate para a Grécia, Irlanda e Portugal. Em Junho e Julho de 2012, a Espanha deverá pedir pelo menos 100  mil milhões de euros para a recapitalização do sistema bancário,  colocando os valores utilizados já muito perto dos  500 mil milhões.

Mas a maior exposição directa da Alemanha e sozinha está no Bundesbank e em cerca de 700 mil milhões de exposição actual sob o TARGET2 (“Trans-European Automated Real-time Gross Settlement Express Transfer System “) para com outros bancos centrais da zona-euro.

Projectado como um sistema de pagamentos e de compensações entre países, os países superavitários, como a Alemanha, têm sido forçados a usar TARGET2 para financiar os países deficitários. Antes de 2008, os défices  eram financiados pelos  bancos e pelos investidores. Desde que a crise começou, o TARGET2 tem sido usado para satisfazer as necessidades de financiamento dos países periféricos, sem acesso aos mercados de dinheiro para financiar os défices  comerciais assim como a  fuga de capitais para fora dos  seus países.

A Alemanha é de longe o maior credor no TARGET2. Na situação presente a Holanda, Finlândia e  o Luxemburgo são os outros credores face a todos os  outros países da zona euro, que são  devedores líquidos dentro do sistema.

A Alemanha está agora presa numa  armadilha. Independentemente da resolução da crise da dívida, a Alemanha vai sofrer perdas significativas dada a sua  exposição – poderá ser  o maior perdedor. Como Elvis Presley cantou em Suspicious Minds: ” We’re caught in a trap I can’t walk out because I love you EU too much baby [1]“.   “.

Sem saída  …

Os defensores da unidade europeia acreditam que uma  maior integração monetária e orçamental  é a solução. Argumentam que a conta corrente da zona-euro está  quase em equilíbrio, que a balança comercial  tem um pequeno excedente, que o défice orçamental  global é modesto e que o nível agregado da dívida  é gerível .

A integração exige  mutualização da dívida através da emissão de títulos da zona-euro garantidos  em conjunto ou em separado  por todos os Estados membros. No final de maio de 2012, o presidente francês, François Hollande, forneceu um argumento curioso em apoio da zona do euro-obrigações: “É aceitável que alguns países tenham que pedir emprestado a 6% enquanto outros o possam fazer a taxa zero na mesma união monetária? ” Enquanto isto é música para os ouvidos dos dirigentes espanhóis e italianos, a Alemanha está compreensivelmente relutante em aceitar a mutualização da dívida soberana europeia. Como a maior nação, a de maior credibilidade na zona euro, a Alemanha iria suportar o maior fardo financeiro. A sua exposição aumentaria através da sua assumida responsabilidade na emissão dos euros bonds da zona euro.

O gestor de fundos John Hussman resumiu primorosamente a ideia dos euro-bonds da zona euro (http://www.hussmanfunds.com/wmc/wmc120528.htm): “Isto é como se 9 tipos completamente tesos fossem ter com Warren Buffett a propor-lhe que todos eles se juntassem para que cada um deles pudesse emitir “Warrenbonds.” Cerca de 90% das pessoas do grupo concordariam com a sensatez desta ideia e Warren seria criticado como um “reduto” a opor-se ao sucesso do plano “.

A exposição da Alemanha no euro-sistema  TARGET2 também vai continuar a aumentar, a uma taxa de Euro 80-160 mil milhões  por ano para financiar os défices  comerciais esperados no resto da Europa. O aumento na exposição pode ser mesmo bem mais elevado  se for necessário  financiar os défices orçamentais dos países membros   mais fracos da zona Euro  e o seu fraco sector bancário. A exposição da Alemanha no sistema TARGET2 aumentou em cerca de 237.000 milhões de euros ou seja de cerca de 34%  somente  nos últimos 8 meses.

A vontade política para mais está a faltar.  A Alemanha está relutante em tornar-se o garante último da zona-euro. O presidente do Bundesbank,  Jens Weidmann,  exprimiu colocar a posição alemã quanto aos bonds na zona-euro sem quaisquer rodeios: “Não se  pode dar a alguém o nosso  cartão de crédito sem termos  os meios para controlar os seus gastos.” Ele também parecia indicar alguma preocupação com o maior activismo do BCE: “O Banco Central Europeu . atingiu o limite de seu mandato, especialmente no uso de suas medidas não convencionais ” De modo mais importante, Weidman  claramente afirmou ao Le Monde : ” No final, estas [medidas] são riscos para os contribuintes, principalmente na França e na Alemanha “.

Como resultado, a Europa pode ser forçada a confiar na sua actual política de soluções parciais – austeridade e politica monetária do BCE. À medida que as economias problemáticas mostram que não é possível voltarem ao acesso ao financiamento nos mercados num futuro próximo, a dívida dos países periféricos deslocar-se-á para as instituições oficiais através de resgates, acordos de financiamento e o sistema TARGET2. As responsabilidades financeiras da Alemanha irão aumentar neste caso.

Nas economias periféricas, a retirada contínua de depósitos dos bancos nacionais (uma escolha racional, dado o risco de perda de valor da sua própria moeda ou até da sua própria confiscação) pode levar a uma Europa com um sistema de amplas garantias  dos depósitos  ou então a um maior  financiamento dos bancos.

Os valores envolvidos são substanciais. O total de depósitos bancários no total da Zona Euro em euros é de 7.6 milhões de milhões de euros, incluindo 5,9 milhões de milhões das famílias. Os países periféricos da zona do euro, que são mais susceptíveis à fuga de capitais, têm 1,8 milhão de milhões em depósitos das famílias. Somente nos primeiros 3 meses de 2012, foram 97 mil milhões de euros que  foram retirados dos depósitos nos bancos espanhóis.

(continua)

[1] Nós caímos numa armadilha/E não posso sair dela/Porque te amo muito

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