ANÁLISES SOBRE A CRISE, OLHARES SOBRE A EUROPA, OLHARES SOBRE O CRIME QUE CONTRA ESTA OS SEUS DIRIGENTES ESTÃO A COMETER

 

É hora de deixar  de andar a mascar  pastilha elástica enquanto se anda de rede de capoeira  como protecção contra a crise  em  Espanha – VIII

Por Edward Hugh

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

As regiões de Espanha

(continuação)

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Cansaço e austeridade em Espanha?

Eu acho que a austeridade e até as razões porque ela é necessária em Espanha são muito mal compreendidas neste país. Ninguém gosta de estar em sofrimento e é sempre bom considerar que há uma saída para toda esta situação de crise e que ela é relativamente indolor. O facto de que a insistência na austeridade vem da Alemanha contribui ainda mais para o problema, uma vez que serve apenas para realçar a existência de uma linha de falha e de caracter quase que religioso que desde há muito tempo divide a Europa.

Na próxima terça-feira será o primeiro aniversário da fundação do movimento 15 Maio (conhecidos igualmente como os “indignados”), e os jovens (e os não tão jovens) estão-se a manifestar durante este fim-de-semana em todas as cidades e por toda a Espanha.  Não há contentores de lixo em chamas para a imprensa internacional fotografar e as manifestações são em grande parte pacíficas e sinceras nas suas expectativas.  Tenho a ideia de  que na sua composição  são muito similares às dos  apoiantes do movimento grego Syriza  que teve tão bons resultados eleitorais  nas últimas eleições naquele país. E com o escândalo Bankia como ricochete sobre toda a vida pública espanhola e em que o governo não consegue  identificar ninguém, que se já especialmente responsável pelo caos financeiro atingido, a raiva e a indignação crescem ainda entre os  próprios apoiantes do partido no Governo, muitos dos quais foram induzidos a comprar acções Bankia[1].

Parte do problema é que com esta situação tudo tem estado  a tornar-se tão complexo que é difícil para as pessoas entenderem a situação que se está a viver. É o euro, é a dívida das economias desenvolvidas, é a ascensão dos mercados emergentes, é a China e, para confundir ainda mais as coisas, são os preços das casas que estão em queda livre. Há muito poucas oportunidades de emprego, e os jovens estão a ser forçados a deixar o país e em números crescentes andam a procurar trabalho no estrangeiro. Para coroar tudo isso, os espanhóis estão agora a ter de conduzir ao longo das suas auto-estradas à noite, no escuro. “Quem apagou as luzes” é a pergunta que eles estão cada vez mais a fazer.

Naturalmente os argumentos e os contra-argumentos  abundam – e podem, por exemplo, os Eurobonds ajudar? Alguns dizem que sim, enquanto outros são totalmente contra. A linha divisória entre opinião política e conhecimento técnico tornou-se totalmente desfocada. A maioria das pessoas sente-se incapaz de tomar a mínima decisão sobre muitas das questões apresentadas. O que sabemos, porém, é que o sentimento popular acabará por se cansar de fazer tantos sacrifícios e de não ver nenhum progresso. Este é o principal factor que me faz temer saídas puramente demagógicas.

A situação nos Estados Unidos é frequentemente comparada com a da Europa, mas está longe de ser evidente que a economia dos EUA tenha realmente recuperado. Este é um ano de eleições e os défices de duplos dígitos ainda são permitidos, mas o que irá acontecer no próximo ano? De alguma forma, eu duvido que mesmo os Estados Unidos sejam capazes de evitar a sua própria parcela de austeridade.

A recente greve geral era compreensível pois, por um lado, as pessoas estão a  sentir-se  frustradas e a sentir  também  que a austeridade por si só não vai funcionar, não é a saída mas, por outro lado,  a ideia de  que a resposta passa  mais gastos do governo também não é muito convincente. O Japão tem tido uma política fiscal expansionista desde há mais de uma década. Temos visto muito pouco no caminho da recuperação económica sustentável, mas temos visto uma enorme explosão da dívida pública. Será então uma ideia aconselhável defender a sua redução? Será o  Japão estável no longo prazo? Há muitas perguntas que aparecem aqui e ali  a tentarem agarrar as soluções simplistas, uma vez  que que se abandonam  os argumentos anti-austeridade por se considerar que estes  são baseados numa idealização  das experiências americanas e japonesas.

Então onde estão as soluções de longo prazo?

Bem, a minha opinião  sobre as soluções na linha da frente  não mudaram muito nas últimas semanas. O texto que apresentei na minha candidatura ao prémio Wolfson mantém a minha expectativa inicial. Eu acho que não há soluções perfeitas, estamos no meio de uma transição demográfica enorme o que agrava a crise da dívida, devido ao seu impacto sobre as pirâmides populacionais, sobre as taxas de crescimento e sobre o que é sustentável e estável no longo prazo em termos de despesa pública. O Euro não é a raiz do problema – que afecta todas as economias de mercado desenvolvidas numa maior ou menor profundidade – mas é certamente um elemento agravante. Ou seja, os países da periferia da Europa poderiam ser muito mais eficazes  confrontando os  problemas com que se debatem se eles não estivessem na zona euro  mas eles estão, e é certo que precisamos de  viver neste mundo que é o nosso, não num qualquer mundo  imaginário que poderia ser  muito mais agradável. Abandonando a zona euro poderia ser  uma opção se esta pudesse ser consensualmente acordada e feita com a partilha colectiva  dos prejuízos mas isso não poderá  acontecer, uma vez que o núcleo central da zona  euro  não vai concordar.

Por outro lado, as medidas de austeridade estão a dividir a Europa ao meio, e os fundamentos democráticos do continente estão a ser, por isso,  fortemente abalados. A Hungria é um exemplo ainda mais claro do que a Grécia. O Euro é uma espécie de Máquina do Juízo Final que não é nem estável em si mesma, nem pode ser desmantelada. Como eu já o disse muitas vezes, quem os deuses pretendem destruir são aqueles que em  primeiro lugar eles fazem enlouquecer. Talvez seja engraçada esta afirmação se nos apercebermos que ela tem origem  na literatura grega.

Tendo dito tudo isto, devemos acrescentar que nós, aqui na Europa, poderíamos estar a fazer muito melhor do que o realmente temos feito. A existência de um Chanceler do Tesouro  e de um orçamento consolidado da Zona Euro assim como os Eurobonds por si sós  não são inteiramente a solução  para   as dificuldades que países como a Espanha atravessam – devido à existência do problema de competitividade e de crescimento -, mas ambas as coisas certamente que ajudariam bastante. Uma outra alternativa seria uma mudança estrutural na Zona Euro – dividindo a zona em duas, por exemplo. Mas, qualquer que seja a maneira como olhamos para o problema  as perdas precisam de ser   cristalizadas e partilhadas mas o  núcleo duro da zona Europa não está pronto ou não está disposto a falar sobre isso sequer. E assim nós estamo-nos a dirigir para o desastre.

Embora a atitude para com os  Eurobonds possa  mudar na sequência  das eleições  em  França e na Alemanha este ano e no próximo, não somos optimistas quanto às mudanças que se poderem realizar rapidamente e na profundidade necessária para trazer os benefícios  de que tanto se precisa e sinceramente que tão necessários são. E entretanto, a hora da verdade,  the “High Noon”, está- se aproximar  rapidamente na Grécia.

A democracia está sob ameaça ao longo da periferia europeia tanto quanto as pessoas se sentem cada vez mais frustradas e tanto quanto são assim levadas a procurarem alternativas políticas “não ortodoxas” que lhes podem oferecer uma cura milagrosa. Como Paul Krugman o referiu num seu post no  New York Times muito  recentemente, “A questão é então a de se saber se essa acção efectivamente  corajosa (a LTRO do BCE) será  o início de uma ampla reflexão, é a de se saber se os dirigentes  europeus poderão  aproveitar e utilizar o espaço de abertura que o BCE assim criou  para repensar, em primeiro lugar,  as políticas que poderão estar na base do agravamento da situação presente. Mas eles não fizeram nada disso. Em vez disso, eles reforçaram ainda mais, muito mais mesmo, as suas ideias e as suas políticas já fracassadas. E está a ficar cada vez mais difícil acreditar que haverá qualquer coisa que seja capaz de mudar o rumo que tem estado a ser seguido “.

(continua)

[1] N. de Tradução. Como assinala o Financial  Times, o Bankia conseguiu  no ano passado aquilo  que   quase nenhuma outra empresa na Europa pode fazer –  vendeu  acções  aquando na sua entrada em bolsa, no valor de 3 mil milhões  de euros no meio de uma enorme crise da dívida na Europa.

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