DIÁRIO DE BORDO de 12 de Setembro de 2012

Na sequência da história de rãs que ontem aqui contámos, vamos continuar hoje no campo das metáforas relacionadas com esses batráquios.  É a história conhecida dos três cientistas em redor de uma rã. O primeiro cientista grita: «Salta!». Assustada pelo grito, a rã dá um vigoroso salto para a frente. O segundo cientista, apanha o animal e com um bisturi corta-lhe uma das longas patas posteriores. Grita: «Salta!» A rã, sem perceber o que lhe está a acontecer, mas tentando fugir, dá um impulso com o membro impulsionador e salta. O terceiro sábio, colhe-a, corta-lhe a segunda pata traseira e grita-lhe «Salta!». O batráquio tenta, mas não consegue mover-se. Os cientistas escrevem no relatório a conclusão do teste: «Se amputaramos as patas posteriores a uma rã, ela fica surda».

É uma anedota cruel.

Cruel é também o genocídio silencioso o que este governo está a submeter uma grande parte do povo português. Como diz, com cáustica ironia, José Vítor Malheiros no seu artigo «O sonho de Pedro Passos Coelho», publicado no jornal Público de ontem e que esperamos poder transcrever, o alvo da eliminação que, cirurgicamente, como os sábios fizeram à rã, está a ser levada a cabo, são «os  analfabetos, os desempregados de longa duração, os doentes crónicos, os pensionistas pobres (não vamos meter os velhos todos porque nós não somos animais e temos os nossos pais e os nossos avós), os sem-abrigo, os pedintes e os ciganos, claro. E os deficientes. Não são todos. Mas se não tiverem uma família que possa suportar o custo da assistência não se pode atirar esse fardo para cima da sociedade. Não era justo. E temos de promover a justiça social»

Com o seu ar de alucinado, Vítor Gaspar, o discípulo de Milton Friedman (o amigo de Pinochet), um dia destes aparece a declarar que, quando se promove a justiça social, os portugueses manifestam uma inusitada tendência para se suicidar, morrer de fome, ou mesmo para ficar raivosos. É que, quando cortam as patas posteriores à rã, ela fica surda.

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