A SENILIDADE DO CAPITALISMO – 2 – Entrevista a Samir Amin por Pedro Oliveira

(Continuação)

Agora tudo acontece pela Internet. As grandes empresas que surgem com novos produtos lançam-se diretamente no mercado mundial pela Internet. Há a consciência de uma guerra de negócios. Assim, sabe-se que a tarefa do capital e da burguesia transnacionais, agora, é administrar colectivamente esse Mercado Mundial, o que não os impede de se destruírem entre si. Mas é a regra do capitalismo, seja no mercado nacional ou em qualquer outro mercado. Essa é a novidade. Vivemos sob esse imperialismo coletivo .

A senilidade do capitalismo e a nova direita

 

O que chamamos de uma nova direita compreende os social-democratas e os socialistas que se formaram com o neoliberalismo e a actual “globalização”. Defino essa nova direita como a adesão coletiva ao Mercado Mundial, regida por dois princípios: o neoliberalismo e o imperialismo.

Como se pode gerir coletivamente esse Mercado Mundial? Nessa questão surgem dois aspectos: o caráter senil do capitalismo e a necessidade de gerir o Mercado Mundial com uma violência inédita e cada vez maior – devido à característica senil do imperialismo coletivo.

Primeiramente, analisemos esse sistema, senilizado. Em torno disso surgiram estudos, há uns 30 anos, a respeito do capitalismo que apresentava características novas, e tardias. Foram feitas boas análises, por exemplo, a respeito da crítica à globalização actual, ou a leitura crítica da actual revolução científica e tecnológica.

Há também um discurso dominante, do poder, a respeito da revolução tecnológica, que se proporia a resolver todos os problemas da humanidade, etc. Essa revolução tecnológica decompõe de forma actual a organização do trabalho. Ela não aboliu as classes, mas decompôs as formas internas da organização das classes e as recompõe. Estamos num período impreciso, de onde decorre a fraqueza, porque as classes decompostas ainda não foram recompostas. Portanto, é um momento favorável a uma ofensiva do capital. Houve o financiamento (etc) com várias nuances. Acrescento as características de senilidade, principalmente em dois níveis mais importantes. Um relaciona-se a essa revolução científica e tecnológica, pois todas as revoluções científicas e tecnológicas internas, desde a primeira Revolução Industrial e Têxtil, a construção de estradas de ferro, o petróleo, o automóvel, o avião, a eletricidade, tudo deslocava o trabalho direto e indireto da produção e da média da produção, o que significa que tudo reduzia o emprego a uma posição relativa à produção final, mas exigia maior relação informativa e do emprego no setor forte, o que dava ao capital um meio de tomar consciência da realidade.

O capital é a propriedade do capital , e a propriedade dos meios de produção segue cada etapa da Revolução Industrial e têxtil. O controle tornava-se cada vez mais forte e definido pelos pedidos desse sistema de produção. A actual revolução tecnológica e científica tem uma natureza nova, por se apoiar em dois ramos novos: a informática e a genética. As duas permitem um aumento gigantesco da produtividade. Deve-se examinar essa revolução com todos os perigos que comporta, pois suscita uma questão: produzir o quê? para fazer o quê? Não podemos comemorar essa característica nova, que levou a uma fase com um grau de conhecimento científico, que permitiria estabelecer outras relações sociais, desenvolver valores e riquezas, que permitiria pelo menos resolver todos os problemas materiais da humanidade de uma forma bastante conveniente. Não é o caso, porque permanecemos nas relações da produção capitalista, o que, em princípio, leva a perguntar quem é o dono desses meios. Mas o capital vale menos. Aquele que controla para ter o controle de tudo significa pouca coisa, pois pode ser um novo software, o que significa que entramos na seriedade e na duração da crise.

O desemprego está se alastrando. O trabalho direto não é deslocado para um trabalho indireto, mas para o desemprego. Ou seja, o capitalismo, como um sistema em expansão – da exploração, é claro – se expande de forma que seja aí que a capacidade de produção se desenvolva. É o primeiro ponto da senilidade. Eles trabalham como se toda a revolução industrial tivesse ocorrido num mundo ideal, sem classes. O mundo poderia trabalhar como num manual, mas não é o que acontece.

A segunda característica da senilidade : em todos os Estados considerados inferiores os imperialistas eram agressivos, numa posição de conquistadores, e o capital arrebanhado era exportado para fazer coisas que não fazia nos países de origem: lançava as estruturas do centro para a periferia. etc. Vieram construir estradas de ferro no Brasil, portos marítimos etc. Exportar para lançar a estrutura material da exploração do capitalismo-imperialismo. Se observarmos como funciona o sistema imperialista de hoje, verificaremos que é uma caricatura. O centro de tudo – os EUA – não exporta capitais, só importa. É o único país do mundo que vive muito acima de suas capacidades – o que leva à definição de parasita, de um indivíduo senil –, que vive graças à pensão que recebe do trabalho dos outros. Perante tamanha exploração ninguém reclama. É a segunda marca da senilidade . Como há um imperialismo coletivo , os outros parceiros o alimentam – caso dos europeus e dos japoneses. Com essa sistemática, cada país paga para manter esse cadáver ambulante.

(Continua)

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