Ilustração: Quadro de Adão Cruz
Que um dia eu possa cantar-te, ó canção, 
Sem que me sufoquem mordaças !
Sem que me esteja opresso o coração!
Sem que sobre mim pendam ameaças!
Sem que me vigie qualquer gorila!
Sem que às escondidas me escutem!
Sem recear nenhum cão de fila!
Sem que outros verdades verdadeiras me refutem!
Sem que entre os humanos haja hienas,
Nem abutres famintos de carniça,
Nem públicas roubalheiras obscenas,
Nem vermes de forma movediça,
Sem gananciosos que a tudo deitam a gadanha,
Sem tigres ferinos a que só move a cobiça.
Sem invisíveis teias onde, lívida, nos espera a aranha.
Sem macacos vis, despojados de coluna dorsal,
Sem escondidos crocodilos em calculista frieza,
Sem rasteiras víboras de mordida mortal.
Sem disforme jiboia aguardando a triste presa.
Sem toupeiras solapando a terra
Onde se afundará o incauto passante
Sem a ferina fauna que à Humanidade faz guerra,
Sem tubarões vorazes de goela hiante.
Que um dia, ó canção, eu possa cantar-te
Rodeado de gente-gente,
E não de vis imitações.
Que esta canção possa não ter arte
Mas tenha a sinceridade das convicções.
Que tenhas o condão de engasgar
Quem queira cantar-te sem te sentir.
Que só os sãos, os puros te possam entoar
Nesse mundo transparente que há de vir.
Amanhã, canção, não será o dia
Em que a plenos pulmões te entoarei!
Mas esse dia vai raiar,
