Análises sobre a crise, olhares sobre a Europa, olhares sobre o crime que contra esta os seus dirigentes estão a cometer

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

A Alemanha é o passageiro de primeira classe do Titanic que é a  zona Euro – II

Edward Harrison

(continuação)

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O beco político sem saída

Pode a Europa pensar em mudar de rumo ? Podem eles, de facto ? E se o fossem fazer, como é que eles o fariam ?

Na minha opinião: A Europa deve mudar de rumo, mas não vai fazê-lo. O risco de uma Grande Depressão global é muito grande para se continuar no caminho actual. Eu entendo o argumento apresentado por  Hugh Hendry  acerca da  deflação da dívida, mas eu acredito que há soluções políticas para o problema da deflação da dívida: depreciação dos créditos, perdas para os accionistas, e cortes sobre os títulos de crédito subordinados, a recapitalização bancária, sem metas fiscais, no mínimo. Na Europa, para deter a deflação da dívida, também teríamos também que  ver os mecanismos de protecção do BCE a serem aplicados na defesa dos Estados soberanos.

 

 

O problema é que a Europa não está a fazer nada disto. E assim seria obrigada  a mudar de rumo completamente. Eu não vejo isto como um cenário provável, porque mudando somente as respostas políticas isto, pura e simplesmente, não é credível. Em Maio passado num post intitulado “Coerência” eu tentei perceber e explicar  porque é que os  líderes políticos podem continuar  presos no interior da sua própria retórica. A base da minha argumentação era a seguinte:

a maioria das pessoas – depois de terem tomado uma decisão, um compromisso público de o levarem à prática tomam medidas que ainda reforçam mais esse mesmo compromisso-  defendem e defenderão esta decisão venha ela do inferno ou de águas a ferver, independentemente de saber se é vantajoso ou não fazê-la.

Eu olho para as recentes declarações de que Angela Merkel é acusada de ter proferido sobre  os  Eurobonds e em que estes que só poderiam acontecer por cima do seu “cadáver”  como sendo declarações emblemáticas  deste tipo de compromisso com anteriores declarações políticas públicas. Então no quadro desta lógica é que a Europa vai andar de resgate em resgate financeiro, de plano de austeridade em plano de austeridade, caminho este feito país a país, comprando  mais alguns títulos soberanos e a tentar forçar a que se façam  reduções dos défices orçamentais,  mas sem ser capaz de mudar a abordagem de base que tem vindo  a aplicar.

Como temos testemunhado, os resgates financeiros e a austeridade conduzem à contracção económica, ao não cumprimento dos objectivos,  ao  contágio e à renovação sucessiva da crise. E a cada uma nova crise, a Europa tem sido forçada a medidas políticas cada vez mais extremas e a resgates financeiros cada vez maiores sem fazer qualquer alteração ao básico resgate para continuar a não mudar a abordagem pela via da austeridade como a sua resposta para a crise. Depois da crise italiana, pessoalmente pensei que “a Europa consegue desta vez”, que os dirigentes políticos europeus finalmente entendem que a abordagem agitada e confusa até aqui seguida iria falhar e, eventualmente, poderia deitar abaixo o euro e a economia global com ele. Mas eu estava errado. A Europa não conseguiu mudar de orientação e agora acredito que nunca  vai conseguir mudar. A deflação da dívida na Europa poderá ser de tal forma rápida que não dê tempo para que os políticos, os decisores políticos europeus, como Angela Merkel tenham qualquer possibilidade de mudar de rumo.

(continua)

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