FORTES DISCORDÂNCIAS SOBRE A POLÍTICA INDUSTRIAL EUROPEIA, de Arnaud Leparmentier
Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
Um texto bem curioso, o de Arnaud Parmentier, simplesmente não sabemos bem onde quer na verdade chegar. Crítico e muito de uma ausência de estratégia de desenvolvimento e de crescimento na Europa, crítico, parece-nos, da submissão da Europa à China, são atributos que lhes conferem, do nosso ponto de vista, uma grande qualidade. Porém, a seguir, aparece-nos depois defensor da directiva Bolkenstein, o que não entendemos e consequentemente aparece a defender uma saída para a Europa, a da Europa a duas ou mais velocidades, não reconhecendo ou não o querendo reconhecer que o problema europeu está exactamente no modelo neoliberal que ele quer atacar mas em que acaba por implicitamente estar a defender.
Já em tempos quando fizemos três séries de textos sobre a desindustrialização encontrámos a mesma ambiguidade num editorial do Le Monde de então e, por isso, decidimos nesta peça sobre a Europa com o texto de Parmentier de agora juntar o referido texto do Le Monde de então acompanhado do comentário feito nessa altura.
Os comentários críticos que acabámos de fazer não retiram porém qualquer importância ao texto aqui colocado. Este exige é de todos nós uma profunda reflexão, pois é por aqui que passa o crescimento, é por aqui que passa também a crise da dívida ou melhor, é por aqui que passa também a saída da crise da dívida pública.
Júlio Marques Mota
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Fortes discordâncias sobre a política industrial europeia
Arnaud Leparmentier (Europe)
Arnaud Montebourg faltou, sábado, 20 de Outubro, em Berlim. Equipado à marinheiro marca Lux sailor e ao pé de um aparelho marca Moulinex, e com um relógio supostamente de marca francesa, o produto “made in France” deve passar a sua linha Maginot e forçar o seu caminho até ao Reischstag. O ministro da recuperação produtiva teria assim sido confortado com as suas próprias certezas: não, a vantagem competitiva da Alemanha não é explicada apenas pela moderação salarial ou pela flexibilização do seu mercado de trabalho. O sucesso do “Standorf Deutschland”, o site da Alemanha da produção industrial, assenta sobretudo num estado de espírito, o do trabalho de construtivo.
O Fórum Europeu da Indústria, organizado pelo grupo parlamentar social-democrata (SPD), foi edificante. Nós não estaremos a trair as palavras proferidas na reunião que se realização à porta fechada mas o elenco dizia tudo o que haveria a dizer sobre as virtudes do consenso alemão. Ouvimos a declaração do director geral da Daimler-Benz, Dieter Zetsche, depois o chefe do Sindicato IG Metall, Berthold Huber. O candidato do SPD a Chanceler, Peer Steinbrück, apenas coordenou e animou uma mesa-redonda. Poder-se-à imaginar uma reunião do Grupo Socialista no Palais Bourbon, onde teria falado o secretário-geral da CGT, Bernard Thibault, o Director-Geral da Renault, Carlos Ghosn, com o Ministro alemão das Finanças, na qualidade de convidado de honra, enquanto que o candidato para a Presidência da República François Hollande teria participado apenas como moderador? Pierre Moscovici, convidado para a reunião de Berlim, surpreendeu toda a gente.
A reunião permitiu actualizar o nosso conhecimento sobre a globalização, graças à presença do Director-geral da OMC, Pascal Lamy. Concedemo-lo, às vezes nós ficamos impressionados com o voluntarismo do ministro Montebourg. Os seus sinais com os movimentos de cabeça lembram-nos a nossa adolescência, o ministro do comércio estrangeiros Edith Cresson a proibir os aparelhos gravadores de vídeo japoneses no centro aduaneiro de Poitiers, em 1982. O caso deve criar uma situação de estímulo à França para reconstruir uma indústria de material electrónico de grande luxo. Graças a uma fábrica da marca Akai situada na Normandia, hoje já extinta.
A economia é bem mais complexa do que uma reprodução do tipo da de Montebourg que foi colocada como capa do jornal Le Parisien .
A globalização do terceiro milénio não é a da década de 1980. Na época, tratava-se de bloquear o acesso a novos operadores, do Japão e de outros mais países, que tinham partido à conquista dos mercados ocidentais. Os europeus resistiram com a introdução de quotas sobre os automóveis. Hoje, é impossível. As empresas fragmentaram a sua cadeia de produção por todo o mundo. Pascal Lamy cita constantemente o iPhone, “concebido pela Apple na Califórnia, montado na China”. O valor acrescentado chinês no nosso aparelho fetiche é quatro vezes menor do que o valor acrescentado dos americanos.
Em vinte anos, a parte das importações nos produtos exportados praticamente dobrou para atingir agora os 40%. Querer bloquear as importações, é estar a penalizar à partida as nossas exportações. O economista Patrick Artus tentou explicar a Arnaud Montebourg, que não quis perceber nada do eu estava a ser dito.
A única maneira eficaz de lutar contra a China, é a de localizar na Europa o valor acrescentado , recuperar uma grande parte do processo produtivo cortado às fatias e repartido por todo o lado, ou seja recolocalizar grande parte da cadeia global de produção na Europa . A missão não é impossível, apesar de já se ter perdido na Europa três milhões de postos de trabalho industriais na Europa desde o início da crise. A concentrarmo-nos sobre as desgraças da França, seremos levados a esquecer o sucesso da Europa Central, do norte da Itália incluído. O excedente comercial, com excepção da energia da zona euro duplicou em dez anos, para atingir 320 mil milhões de dólares .
Durante o período, as exportações alemãs e holandesas aumentaram em cerca de 50% , enquanto as exportações francesas estagnaram. As exportações do Reino Unido diminuíram de 10%, mas poupemo-nos dos lugares comuns sobre Margaret Thatcher, que teria morto a indústria britânica. A França é menos industrial do que o Reino Unido: a indústria transformadora representa 10% do PIB em França contra os 11% para o Reino Unido e 22% para a Alemanha, segundo a Comissão Europeia. Reagir! A instituição Europeia está interessada em aumentar a participação da indústria e da construção de 15,6% para 20% do PIB até 2020. Isto seria uma revolução.
Desde há vinte anos, os europeus são incapazes de adoptar uma estratégia firme comparável à dos Estados Unidos e da China. Eles preferem fazer a guerra entre eles, enquanto a Comissão passa o seu tempo a gastar as suas energias na luta contra os acordos e contra as ajudas estatais. O mercado interno e o euro acentuam ainda mais esta discórdia. O continente acabou finalmente por se especializar : a finança para o reino Unido, o sector automóvel para a Alemanha, os produtos de luxo para a França e Itália, os serviços de Internet para o Luxemburgo e para a Irlanda.
Resultado, toda a gente está pronta para defender os seus interesses sectoriais vitais. A City quer continuar liberal para não vir a ser ultrapassada por Wall Street; a Alemanha não quer chocar a China para poder continuar as suas máquinas-ferramentas e a França junta-se a ela desde que que os Airbus estejam em questão ; os irlandeses estão a defender uma irrisória tributação das empresas. Em suma, a fortaleza Europa à Montebourg é inútil, os seus inimigos estão cá dentro.
A segunda desvantagem é a ausência de um mercado europeu de serviços. Em 2005, nacionalistas, Philippe de Villiers e Jean-Luc Mélenchon expulsaram o canalizador polaco e a directiva Bolkestein sobre a liberalização dos serviços. Pagamos duas vezes a factura. Os polacos trabalham a baixo custo além do Reno, onde o salário mínimo não existe e ajudam a Alemanha a ultrapassar, tal como a Holanda, as exportações agro-alimentares francesas. Acima de tudo, persistem na Europa 27 mercados de seguros, de rádio e televisão, de banca, …, tantos serviços pouco competitivos, indispensáveis para acompanhar uma indústria de alto valor acrescentado.
E, por fim, a Europa sofre de uma política energética feita já em farrapos o que aumenta os custos para a indústria. Um grande muito obrigado ao Partido de Os verdes, que forçaram a subvencionar duas vezes a electricidade: a primeira vez construir a fileira da energia de base eólica, a segunda para criar as centrais a gaz, que compensam a ausência de vento. Durante esse tempo, a indústria química relocalizou-se para os Estados Unidos: graças ao gás de xisto, ela tem a energia seis vezes mais barata do que na Europa. Provavelmente será que já não precisamos de química?
Arnaud Leparmentier (Europe), Zizanie sur la politique industrielle européenne
LE MONDE | 24.10.2012.

