RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

A “trajetória argentina ” da Grécia

Norbert Gaillard, Le Monde

A descida ao inferno da Grécia lembra estranhamente o colapso da Argentina em 1999-2001. As perspectivas para a resolução da crise da dívida grega não poderão ser, então, mais perturbadoras.

A dez anos de distância, a mesma tragédia parece estar agora a desenrolar-se  diante dos nossos olhos. Em Dezembro de 2001, a incapacidade do governo argentino em pagar a sua dívida desencadeou a situação de incumprimento público mais grave desde a Segunda Guerra Mundial. Hoje, a União Europeia, o FMI e os credores privados discutem os termos da reestruturação da dívida grega. Analisemos como é que os dois países têm atingido um tal impasse e tiremos as conclusões para a economia grega.

É de facto possível estabelecer pelo menos quatro paralelos entre a Argentina entre 1991-2001 e a Grécia de 2001-2011.

1 / A insustentabilidade da taxa de câmbio

Em 1991, a Argentina decidiu “dolarizar ” a sua economia ligando a um valor fixo a sua moeda, o peso, face ao dólar (um regime cambial a que se dá o nome de “currency peg “). Esta medida, tomada para combater a hiperinflação que arrasava então o país, atingiu rapidamente o seu objectivo, uma vez que a inflação estava já contida em grande parte abaixo dos 10% desde 1993. No entanto, o “currency peg “, manteve-se por muito tempo, tendo assim levado a que se afundasse toda a economia da Argentina. Entre Janeiro de 1995 e Janeiro de 2001, a paridade peso/dólar permanece quase inalterada enquanto a moeda chilena e a brasileira se depreciaram respectivamente de 30% e de 57% em relação à moeda americana durante o mesmo período.

A Grécia, ela, entra na zona euro em 2001. Até então, o país tem tido um crescimento elevado, em grande parte graças aos fundos estruturais europeus e a uma depreciação constante do dracma (-34% contra o dólar entre Janeiro de 1995 e Janeiro de 2001) que lhe permitiu tornar relativamente competitiva a indústria do turismo e a agricultura. Mas a sua entrada na zona euro mudou a economia do país: entre Janeiro de 2001 e Janeiro de 2010, o euro sobe 53% contra o dólar. Ao mesmo tempo, as moedas dos egípcios e a dos turcos depreciam-se cerca de 29% e 55% respectivamente.

2/ O laxismo orçamental

A fraqueza comum entre a Argentina e a Grécia era e é  também a sua incapacidade para reduzir a dívida pública em tempos de forte crescimento (1991-94 e 1996-98 para a Argentina e de 2001-07 para a Grécia). No decorrer de cada década de referência, a dívida pública dos dois Estados aumenta a uma taxa igual ou superior à do PIB…

3/ A crónica incapacidade de cumprir os seus compromissos e a reformar

Entre 1992 e 1999, a Argentina assinou seis acordos com o FMI, mas não preenche uma única vez todos os seus compromissos na íntegra. Por exemplo, as metas de excedente primário não são cumpridas. Pelo seu lado a Grécia maquilha as suas contas públicas em duas ocasiões durante os anos 2000, subestimando as proporções quer da dívida relativamente ao PIB quer do défice orçamental relativamente ao PIB. Por outro lado , os dois países não atacam nem o problema dos efectivos públicos pletóricos nem o seu sistema fiscal ineficaz e de efeitos muito desiguais sobre a população.

4/ A desconfiança dos mercados

A falta de credibilidade das políticas orçamentais acaba inexoravelmente por minar a confiança dos investidores, ao ponto que estes reagem negativamente a qualquer anúncio para restabelecer o equilíbrio das contas públicas. Em Julho de 2001, os prémios de risco da Argentina aumentam após a votação da lei do ‘défice zero’. A reacção dos mercados financeiros na Grécia é do mesmo género nos dias seguintes à da votação no final de Junho de 2011 do plano de austeridade aprovado pelo Parlamento grego.

É conhecido o resultado da crise argentina: a situação declarada de incumprimento em Dezembro de 2001, o abandono do “currency board” na sua sequência, o colapso do peso, a explosão do desemprego e da pobreza, a árdua reestruturação da dívida pública que termina com um “corte ” de 70% sobre o seu valor.

A história grega está ela agora ainda a ser escrita. Quais são as lições que se podem extrair da derrocada brutal da Argentina? Eu acho que é necessário colocar a questão levantada por Anne Krueger, directora-geral do FMI na época da reestruturação da dívida Argentina: ‘ até que ponto devemos apoiar uma política à qual as autoridades estão profundamente ligadas, mas em que os investidores e nós-mesmos duvidamos quanto á possibilidade desta  ter sucesso ?'[1]

Deve evitar-se que a Grécia continue a seguir o mesmo caminho que a Argentina. Em primeiro lugar, é necessário organizar rapidamente a reestruturação da dívida grega. Colocá-la sob a tutela do país é ilusório: ela levantaria a opinião pública grega (e, mais amplamente, muitos cidadãos da UE) contra a construção europeia e não resolveria o problema de insolvência da Grécia. O “corte aplicado ao montante do seu valor” seria obviamente bem acima de 21% anunciada há algumas semanas. Uma análise actual do preço no mercado dos títulos da dívida grega de longo prazo mostra que seria superior a 50%. No entanto, as discussões nos últimos meses com credores privados podem implicar que a reestruturação seria muito mais rápida do que no caso argentino.

Em seguida, é necessário que o povo grego determine ele-próprio se o país deve permanecer ou não na UEM. Ao contrário dos outros membros da zona euro, a Grécia não deveria ter adoptado a moeda única. O problema é que o regresso ao dracma seria extremamente custoso porque ainda aumentaria as perdas impostas aos investidores e minava a credibilidade do Estado grego por muito tempo. A organização de um referendo iria cortar o nó górdio.

Finalmente, a Grécia deve continuar as reformas que ela iniciou há pouco mais de um ano pela racionalização das suas políticas públicas, pela reorganizando da sua política fiscal e privatizando. Só essas medidas vão incentivar um retorno aos mercados em condições satisfatórias.

NORBERT GAILLARD

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