REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

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O euro, stop ou então? Entrevista com Philippe Murer

Sexta-feira, 21 de Setembro de 2012,

Parte I

murerentrevista - I

Para terminar esta série sobre o euro, a que se seguirão outras, eu conto com uma entrevista exclusiva com Philippe Murer, realizada a 30 de agosto. Esta discussão foi para mim a ocasião para aprofundar determinados assuntos mencionados no artigo anterior: divergência de competitividade devido ao euro, desindustrialização do Sul da Europa, competição sobre os salários como a única opção possível. Philippe Murer também retoma a política alemã, durante algum tempo, criticando por um lado o famoso “modelo alemão” desenvolvido e posto em marcha por Schroder, em 2000 e, por outro lado, a posição intransigente de Merkel desde 2010 a favor do rigor e da austeridade, levando a zona euro para uma recessão. Isso permite-nos  fazer a ligação com a actualidade do momento: a aceitação por François Hollande do TSCG que vai gravar a austeridade em mármore e a recente reviravolta  do BCE que diz agora estar pronto para comprar dívida pública em troca da aplicação rigorosa destes planos rigorosos. Para concluir, Murer explica porque é que o caminho do federalismo e das transferências orçamentais não lhe parece nem realista nem desejável e defende uma libertação, uma saída coordenada da UEM, com a criação de uma moeda comum, com uma política de relançamento da indústria e com um moeda comum e o proteccionismo Europeu. Ele continua muito pessimista sobre a viabilidade de uma tal saída concertada dada a situação dramática e as tensões cada vez mais fortes entre os países.

Dividi a entrevista em três partes para facilitar a sua leitura e vou resumir os temas que aqui são abordados em cada uma das partes adicionando alguns detalhes complementares

 Parte 1 : Os desequilíbrios criados pela introdução do euro, o modelo alemão e o federalismo

– Diferenças de competitividade devidas ao euro

Philippe Murer esclarece alguns pontos abordados na sua análise do período 2000-2008 : a perda de competitividade relativa dos países do Sul, devido principalmente a uma alta da inflação e de custos salariais, a desindustrialização e os défices comerciais daí resultantes assim como a impossibilidade para os países atingidos de reduzir essas diferenças pelas desvalorizações.

– Modelo alemão

murerentrevista - II

Ele, retoma então, a política da Alemanha desde a introdução do euro em 2000, sob a liderança do social-democrata Gerhard Schröder: blocagem da evolução dos salários, desenvolvimento dos mini-jobs, redução dos subsídios de desemprego … Esta política de flexibilização do mercado de trabalho e de compressão dos custos salariais criou uma diferença de competitividade na ordem dos 10% na França em 10 anos e de 70% na Grécia. Ela também gerou uma explosão de pobreza e de desigualdades. A Alemanha tem-se comportado, de acordo com Murer, como o passageiro clandestino do euro, aproveitando-se da incapacidade dos seus vizinhos poderem desvalorizar a sua moeda e do seu consumo para gerar excedentes comerciais espectaculares durante estes dez 10 anos. Além disso, o famoso “modelo alemão” não pode ser reproduzido em todos os países da região, em primeiro lugar porque ninguém estaria em condições de consumir todos os produtos fabricados e, por outro lado, porque os outros países europeus não têm nem as marcas nem a máquina industrial alemã que foi construída ao longo do tempo e desde há muito tempo.

Murer estima , por fim, que os alemães praticaram esta política em grande parte para resolverem o seu problema de baixa da população , que os obriga a depender das exportações e não do consumo interno, tendencialmente em baixa , para ter crescimento.

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Gostaria de acrescentar que este modelo alemão, que tem uma enorme responsabilidade na crise da zona euro e que atirou milhões de alemães na pobreza,  continua até agora a ser um verdadeiro exemplo a seguir para muitas das nossas elites na França, seja à direita, seja à esquerda assim como para a maioria dos meios de comunicação social. Cito apenas esse exemplo muito recente do editorial de Erik Izraelewicz, director do Le Monde num artigo intitulado : “Não é Schroeder quem o quer”, em que o jornalista se queixa de que Hollande, que acaba de anunciar uma nova viragem para as políticas de austeridade com cortes de 30 mil milhões,  de não ter tido a coragem de ir mais longe inspirando-se no seu antecessor democrata-alemão para aplicar as famosas reformas estruturais neoliberais. Um excerto que dispensa comentários. “com este plano de política a seguir , François Hollande inspira-se muito explicitamente no Chanceler social-democrata Gerhard Schröder. ” No início dos anos 2000, o líder alemão lançou a sua famosa “Agenda 2010, um programa de reformas radicais do mercado de trabalho e da protecção social, com o objectivo de uma melhoria da competitividade do país.” Com a diminuição de desemprego e um crescimento que resiste melhor que em qualquer outro país , a Alemanha obtém hoje os benefícios desta estratégia. (..) Corajoso sobre o plano de orçamento – a austeridade anunciada é assumida- o Presidente é porém menos corajoso quanto à aplicação destas reformas. Schröder tinha imposto ao seu país medidas impopulares. Ele tinha decidido, pessoalmente. Ele pagou o preço político. François Hollande tem pelo seu lado cinco anos e todos os poderes, ou quase. A recuperação da competitividade francesa pela aplicação de amplas reformas. Ele delineou-as. Cabe-lhe agora clarifica-las e implementá-las. Firmemente. Não é Schroeder quem o quer”.

(continua)

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