RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Em França não teria sequer tentado

Série Expatriados, 3/6.

 Marie-Morgane Le Moël (Sydney, correspondente Le Monde)

 

Aurelien Labonne  na esplanada  de  Bourke Street Bakery à Surry Hills, nos arredores de Sydney. 3 Juillet 2012.

Emigração - IV

Nos subúrbios orientais, bairros  chiques a leste de Sydney, Vaucluse é um lugar à parte. Neste subúrbio onde as casas, com colunas de mármore e piscinas interiores , atingem valores à escala dos milhões de  dólares,  basta descer uma rua para  nos encontramos  numa  das praias  mais exclusivas e deliciosas  de Sydney. Nos fins de semana, quando  o tempo está bom, é aí que Aurélien Labonne, que vive num bonito apartamento no bairro, vem  beber um copo  num bar virado para a praia . Este francês de 32 anos chegou  à Austrália em Janeiro de 2011.  Já não tem a intenção de partir , cativado que está fortemente  por este país, onde a vida  lhe parece mais simples.

Porque a acreditar na célebre expressão  – e irónica – de um  sociólogo australiano na década de 1960, a Austrália é o “país da sorte”, o país feliz. Parece que o apelido vale mais do que nunca. Com mais de 20 anos consecutivos de crescimento e uma taxa de desemprego de cerca de 5% que  faz empalidecer de inveja  a maioria dos outros países da OCDE,  a Austrália é um país à parte.  A tal ponto que os imigrantes para aí correm para saborear os frutos do crescimento económico: os asiáticos vindos da China e da Coreia do Sul, mas também muitos europeus, com muitos irlandeses e britânicos.

Quanto aos franceses, eles também são cada vez mais  numerosos  a tentar a sua sorte. Na Primavera, aquando as eleições presidenciais e parlamentares, havia aqui oito mesas de voto por todo o país para o expatriado francês contra 02  há dez anos.

Nas ruas de Sydney, abundam  os jovens europeus, vindos  em geral com um visto de “trabalho de férias”, que permite  trabalhar um ano no continente. Aurélien Labonne beneficiou também deste visto fácil de conseguir – no final dos seus estudos.

Depois de ter concluído um mestrado em administração de empresas em 2006 em Paris, trabalhou três anos  num um banco. “Mas  houve  um plano de saídas voluntárias, então resolvi retomar os meus estudos durante um ano, o tempo para que a crise passe.” O jovem parisiense  empenha-se  num mestrado em Multimédia , no final do qual ele faz  um estágio numa empresa. “Eu sabia que não haveria nenhuma oferta de emprego à  saída do meu estágio,  e foi por isso que eu decidi  vir  para o estrangeiro. Eu tinha muitas festas com  amigos que tiveram visto de trabalho de férias, que  tinham gostado muito da Austrália, diz-nos. Informei-me:   a Austrália foi o país onde havia menos desemprego.”

Quando aqui  chegou, o jovem começa a seguir os cursos de inglês antes de procurar  emprego na indústria. “Aqui, há uma falta de trabalhadores qualificados. Se existe uma profissão procurada não há então nenhum problema em encontrar um emprego. Enquanto que em França não teria encontrado facilmente, especialmente na região de Paris”, disse ele.

Demorou apenas um mês e uma meio a  Aurélien Labonne para ser contratado como responsável do site internet  de uma pequena empresa com,   à entrada, um visa  patrocinado, um sésamo para  ser capaz de permanecer na Austrália  mais de um ano. Porque se o país atrai, ainda é preciso conseguir ter o direito de nele permanecer. E imigrar para as antípodas, por vezes, faz lembrar o percurso do combatente para os candidatos.

Sem uma empresa disponível para tomar as medidas necessárias junto dos serviços de imigração, há poucas possibilidades para se ser  capaz de se poder instalar a longo  prazo. ” A obtenção de um visa foi uma experiência amarga. Percebi que as empresas não me chamavam  mesmo se o  meu perfil   estivesse completamente apropriado para a posição que pretendiam preencher . Assim, desde que  tirei do meu currículo  o  meu número de visa temporário, as empresas começaram a entrar em contacto comigo”, lembra Aurélien Labonne.

Uma vez o  seu precioso visa  obtido, o jovem parisiense decidiu então mudar de empresa. Ele está agora a trabalhar numa  start-up e não se arrepende de sua escolha. “Estou numa  empresa jovem, que  arrancou acerca de   apenas oito meses.  Eu França  eu não teria tentado sequer, interroguei-me mesmo se a empresa tinha os rins bens sólidos , se eu não iria ficar rapidamente no desemprego. Aliás, ter-me-iam dito  que eu era louco em  deixar um trabalho para  assumir  este tipo de risco. Aqui, não há esse  problema, eu sei que a empresa tem bastante actividade para sobreviver.”

Quanto ao seu  salário este dobrou com a passagem de Paris a Sydney. “Eu ganhava  39 000 euros por ano na loja onde eu trabalhava, enquanto actualmente ganho o equivalente a 67 mil euros e este valor  continua a ser o valor  de um nível do salário médio aqui.” Naturalmente, o custo de vida é alto na Austrália e Sydney, especialmente, tornou-se uma das cidades mais caras do mundo. Mas os rendimentos ganhos permitem fazer planos para o futuro.

Com um seu amigo, um expatriado francês que conheceu em Sydney, Aurélien Labonne começou a visitar as casas que estava para venda para investir no imobiliário. O resto do tempo, desfruta da vida à australiana, sol, praia e um quotidiano que ele considera ser mais suave do que na França. “Aqui, é a boa vida. O quadro de vida é excepcional. As pessoas são agradáveis e muito menos agressivas do que em Paris, e quanto às oportunidades de emprego, elas são muito mais numerosas. Em França, quando as pessoas têm um emprego, elas ficam presas ao emprego”, disse ele, convencido de ter feito a escolha certa.

“Quando eu falo com os meus amigos que ficaram em França, muitos deles desejam também  ir embora. Em Paris, o ambiente é sombrio e com as medidas de austeridade que estão a aumentar na Europa, sabemos que isso não vai ser fácil de viver, “diz ele. “Tudo isso me incita a nunca  mais voltar !”

 Marie-Morgane Le Moël (Sydney, correspondente), En France, je n’aurais pas osé, LE MONDE | 26.07.2012 .

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