Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Europa : Se os ingleses fossem os primeiros
AGNÈS CATHERINE POIRIER – MARIANNE
Parte II
(conclusão)
……
Denúncia nacional
Na cena internacional e sob a pressão americana, a reforma, várias vezes adiada, do Conselho de Segurança das Nações Unidas desfere um duro golpe na Little Britain. O seu lugar de membro permanente é entregue, de acordo com um sistema de rotatividade, ao Brasil e à Índia, antiga colónia da coroa britânica…
O gesto de alguns 1.500 funcionários britânicos que trabalham nas instituições europeias também espetou um golpe profundo para a imagem de Little Britain. Eles foram os únicos, com a notável excepção do alto representante da UE para os negócios estrangeiros, Lady Ashton, a ficar muito feliz por reencontrar as lojas de Knightsbridge, a pedirem em bloco asilo político à Bélgica. O argumento deles é imparável: correm o risco de perseguição se voltam para a sua ilha. O tablóide The Sun lançou uma campanha de denúncia nacional: “procurem os eurófilos que rondam o seu bairro.” Como em 2000, quando o jornal atacava os pedófilos.
Numa reviravolta surpreendente, a língua francesa passará a ser a língua usada nas instituições europeias. Afinal, porque razão continuar a falar inglês quando os únicos anglófonos de inglês já saíram da sala? Malta, Chipre e a Irlanda proibiram, imediatamente após o referendo, o inglês na sua lista de idiomas oficiais para mostrar o seu desacordo com Londres.
No final do seu mandato, em 2019, David Cameron render-se-á à evidência . Se a Inglaterra disse “adeus à Europa”, a Europa também disse igualmente ‘adeus’ à Inglaterra. Resta-lhe uma solução, pedir para integrar NAFTA, o acordo de livre comércio da América do Norte, com o Canadá e com o México e, em seguida, tentar tornar-se o 51º Estado dos Estados Unidos.
* Un livre sur ce sujet vient de paraître à Londres : Au revoir, Europe. What If Britain Left The EU ?, de David Charter, Biteback.
“GOODBYE !”
Por Jacques Julliard
Finalmente uma boa notícia para a Europa: o resultado do referendo programado por David Cameron para 2017, indica que há a possibilidade de que nossos amigos ingleses nos deixem definitivamente. Não digo isto por anglofobia. Tais sentimentos não têm lugar nas relações internacionais e de resto, nas circunstâncias terríveis, os ingleses são os nossos amigos. Digo isto por eurofilia.
Porque os ingleses são, depois da Inglaterra, os inimigos encarniçados e eficazes da construção europeia. À falta de a torpedearem do exterior, eles decidiram, em 1973, continuar a mesma política mas do interior. Além dos privilégios financeiros obtidos pela senhora Thatcher, além da sua recusa em participar no euro e na Europa de Schengen, eles procuraram sempre e de maneira engenhosa multiplicar os obstáculos e fazer da Europa uma torre de Babel como, por exemplo, forçando a que se acolhessem sem garantias prévias todos os países candidatos a entrarem na União Europeia .
Nada seria mais desastroso para os europeus do que aceitar a nova chantagem posta em prática pelo primeiro-ministro britânico: ou ‘transformam a Europa numa pura zona de comércio livre e renunciam a todo e qualquer projecto de construção política ou então nós saímos !’
Pois bem, meus caros amigos ingleses, é hora de vos dizer: se não querem uma vida em comum é então melhor que se vão embora. Voltem para as vossas quimeras permanentes: Commonwealth, o mundo à vossa frente, as relações privilegiadas com os Estados Unidos – mesmo que Barack Obama acabe de vos dizer educadamente que nessas relações não está interessado . É apenas adeus. Deixem-nos tentar construir alguma coisa de adaptado à difícil situação da Europa no mundo. Se isso tiver êxito, penso que são suficientemente realistas para regressarem aos vossos projectos anteriores. Adeus, Inglaterra. Ver-nos-emos mais tarde. Até depois, Inglaterra.
“Sejam bem-vindos !”
Par Jean-Dominique Merchet
Toda a gente sabe que não se escolhem os nossos vizinhos, todos os proprietários o sabem… As Ilhas Britânicas estão na Europa, tal como está a Península Ibérica, a Escandinávia ou as Balcãs. Querer unir o continente e começar por excluir as partes consideradas menos europeias que outras é uma ideia com alguma piada . Isto aplica-se a uma velha fantasia francesa, a da pequena “Europa dos seis” dominada pela França.
Quando foi criada pelo Tratado de Roma em 1957, esta Europa consistia em seis membros: a França, a Alemanha Ocidental, a Itália, a Bélgica, Países Baixos e o Luxemburgo. Era este, mais ou menos, o império de Carlos Magno. Este projecto carolíngio, será que ele tinha um futuro? Provavelmente não, uma vez que foi baseado numa situação necessariamente transitória: a existência de uma Alemanha dividida e enfraquecida. Imagina-se então esta Europa dos seis com a Alemanha tal como ela é hoje.
Desde 1972, o projecto geopolítico europeu mudou de natureza. A adesão do Reino Unido, da Irlanda e da Dinamarca – aprovada por referendo em França – lançou a dinâmica do alargamento. A partir daí, era impossível recusar a adesão de um país europeu desde que seja democrático. E, neste contexto, a Inglaterra nunca seria a última…
Será que se pode recusar e colocar fora da nossa casa comum um país que foi nosso primeiro e melhor aliado durante as duas guerras mundiais? As palavras ‘Ici Londres’ não foram elas, durante anos, sinónimas de esperança?
Certo, a Grã-Bretanha não é um parceiro fácil! Mas quem poderia jurar que a França sempre o terá sido, assim, com os seus vizinhos? Que ela não foi também, um pequeno complexo de superioridade, o complexo das velhas nações? Ingleses, escoceses, gauleses e irlandeses têm todos o seu lugar na Europa, sem dúvida. Porque, tal como os franceses, eles estão na sua casa. Simplesmente isso.
53 %
É a percentagem de britânicos que estão prontos a bater com a porta da União Europeia, de acordo com uma sondagem no The Times, 25 de Janeiro de 2013.

