Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Um grande empréstimo para financiar a recuperação económica e o crescimento de amanhã
DAVID CAYLA*
Texto enviado por Philippe Murer, Membro do bureau du Forum Démocratique, Président de l’association Manifeste pour un Débat sur le libre échange
A França é rica. O INSEE regularmente nos lembra que é assim, com a Alemanha é um dos dois campeões do mundo em poupança. Com uma taxa de poupança das famílias, estimada em cerca de 16%, esta é significativamente superior à média europeia (11%) e à dos Estados Unidos (cerca de 9%). A crise acentuou ainda mais a taxa de poupança dos franceses, a insegurança no emprego e sobre as reformas têm levado ao aumento da poupança até por motivo de precaução das poupança mais modestas. No entanto, num mundo financeirizado onde os capitais circulam livremente, essa poupança não tem motivos para permanecer em França. As empresas reduzem os seus investimentos, devido à falta de encomendas, e a crise económica reduz as possibilidades e a rentabilidade dos projectos de investimento. Os nossos bancos, que estão entre os mais poderosos do mundo, especializaram-se na reciclagem desta poupança. Ontem, eles andavam a comprar títulos subprime, hoje eles andam a especular sobre as matérias primas, as chamadas commodities. A poupança francesa, quando ela não vai aumentar os paraísos fiscais, perde-se nos meandros da finança internacional em vez de responder às necessidades da economia francesa. …
Essas necessidades, precisamente, são enormes. É a constatação que temos a partir de quando se elaborou o nosso “projecto de recuperação ecológica e social”. A necessidade de segurança económica para as classes modestas, a necessidade de despertar o consumo, a Justiça e a redistribuição do rendimento, as necessidades de investimentos públicos em transportes e energias renováveis, as necessidades de construir novas habitações e de criar as infra-estruturas necessárias para o desenvolvimento do carro eléctrico… Todas estas necessidades não podem esperar que nós alcancemos um hipotético equilíbrio orçamental. Nós ainda fazemos mesmo a aposta oposta: satisfazer as necessidades económicas da França é a condição de sua recuperação, é a condição para o equilíbrio orçamental, depois.
Porque a nossa situação é hoje muito difícil. Apesar de uma demografia ainda dinâmica (em contraste com outros países europeus) o crescimento económico francês está em ponto morto. O poder de compra das famílias diminuiu; o investimento e a rentabilidade das empresas francesas entraram em colapso. No quadro de uma paisagem como a nossa, é uma ilusão acreditar que a competitividade externa e mais geralmente as ‘reformas estruturais’ são suficientes para criarem as condições de uma retoma clara na nossa economia. Na melhor das hipóteses, os nossos ganhos em melhoria da balança comercial poderão compensar os esforços pedidos aos franceses. Na pior das hipóteses, eles terão de enfrentar a agressividade das políticas neo-mercantilistas praticadas noutros lugares na Europa e não irão produzirão nenhum emprego em França, ao mesmo tempo que degradam as condições e os rendimentos do trabalho.
Para sair deste impasse, recomendamos um choque de relançamento de 43 mil milhões de euros, dos quais 28 serão financiados pela despesa pública. Dizem-nos que não há mais dinheiro, que o Estado está falido. Nós respondemos que nunca na história, o dinheiro foi tão barato como em França pois esta levanta fundos hoje a menos de 2% em títulos a dez anos. Este é o paradoxo da situação actual: a poupança doméstica visa não ficar em França, mesmo a preços baixos e o nosso “orçamento muito sério” bate com a porta na cara.
O nosso plano de retoma económica não é nada mais do que uma tentativa de conciliar as necessidades dos nossos aforradores com as necessidades da nossa economia. Nós nos propomos lançar um grande empréstimo popular, pago à taxa do mercado, ou seja cerca de 2 por cento. Os aforradores encontraram assim uma aplicação segura, simples e útil para a nossa economia, um pouco melhor que paga o livret A (1,75%). Para garantir a liquidez desta poupança, o Estado comprometer-se-á a comprar estes títulos de crédito aos subscritores que o solicitarem. Este empréstimo terá, assim, uma dupla vantagem. De um lado ele vai dar uma perspectiva de verdadeira cidadania aos aforradores, muitos dos quais estão relutantes em colocar seu dinheiro em fundos cuja gestão é por vezes opaca; e, por outro lado, permitirá que o Estado poderá financiar-se nas suas despesas de investimentos portadores de futuro sem ter que dar contas aos mercados financeiros.
Os nossos concidadãos terão a garantia de que o dinheiro arrecadado será utilmente gasto, enquanto o Estado pode garantir-se com uma fonte de financiamento perene para desenvolver projectos de investimento bem precisos e portadores de crescimento económico.
*David Cayla, é docente na Universidade de Antuérpia. Participou na elaboração do plano « plan de relance écologique et social pour la France et pour l’Europe » apresentado na segunda-feira no Senado aos lados de eleitos socialistas Marie-Noëlle Lienemann, Emmanuel Maurel et Jérôme Guedj e do economista Daniel Vasseur.


