A ILEGALIDADE É A NOVA REFERÊNCIA, A NOVA NORMA. Por PAUL CRAIG ROBERTS

Tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

 

Um texto de Paul Craig Roberts é sempre um texto bem-vindo e seguramente é sempre um texto que levanta questões ao leitor. Este não escapa à regra-

No meu caso pessoal, questiono se será assim tão linear os efeitos pretendidos com os  novos acordos comerciais a desenvolver com a União Europeia  e com a Ásia. Pessoalmente pensamos que os dirigentes políticos desta União Europeia têm tudo menos espinha vertebral mas daí a pensar que se trata de sujeitar a economia europeia e asiática aos ditames dos interesses americanos poderá ir uma grande distância. Pessoalmente penso que será uma forma de os Estados Unidos cortarem ou procurarem cortar a dependência com que a Europa e a Ásia  se estão  a colocar  debaixo da pata da China, com particular realce para a cobardia política de Bruxelas. Mas esta é apenas a minha leitura.  

Júlio Marques Mota

Paul Craig Roberts 

A ILEGALIDADE É A NOVA REFERÊNCIA, A NOVA NORMA

Em numerosos artigos e no meu último livro, “The Failure of Laissez Faire Capitalism and the Economic Dissolution of the West” mostrei que a crise da dívida soberana europeia está a ser utilizada para pôr um fim à soberania dos países que são membros da UE. Não há dúvida que isto seja verdade, até porque a soberania dos Estados-membros da UE é apenas nominal. Se bem que haja nações individuais que mantêm sempre uma certa “soberania” face ao governo da União Europeia, no entanto, estão todos sob o domínio de Washington, como o demonstrou mais uma vez a recente acção ilegal e hostil tomada pela França, pela Itália, pela Espanha, por Portugal e pela Áustria, por ordem de Washington contra o avião que transportava o presidente boliviano Evo Morales.

Regressando de Moscou para voltar para a Bolívia, ao avião que transportava Morales foi-lhe negado o sobrevoo do seu território e a autorização de se reabastecer de combustível pelas mariontes de Washington que são países como a França, a Itália, a Espanha e a Portugal e teve que aterrar na Áustria, onde o avião presidencial foi submetido a uma investigação sobre a presença ou não de Edward Snowden. Esta é uma demonstração de força de Washington para raptar Snowden do avião presidencial da Bolívia, em desafio frontal e total ao direito internacional, a fim de ensinar a todos esses pequeninos como Morales e outros que a independência face a Washington continua a não ser  autorizada .

Os governos fantoches europeus vergaram-se a esta brutal violação da lei internacional e diplomática, apesar do facto de que cada um destes países se mostre  irritado pelo facto de que Washington espionar impunemente os seus governos, os seus diplomatas e os seus cidadãos. A sua forma de “agradecer” a Snowden, cujas revelações lhes permitiam saber que Washington vigiava cada um das suas telecomunicações, foi a de ajudar a Washington a capturar Snowden.

Isto mostra- nos o que resta ainda de moralidade, de honra e de integridade na civilização ocidental: Zero

Snowden informou os países do mundo de que as suas comunicações não tinham nenhuma independência nem nenhum caracter privado para os olhos e para os ouvidos de Washington. O orgulho e a arrogância de Washington são chocantes. Nenhum país se levantou ainda contra Washington e oferecer asilo político a Snowden (NDT: o texto foi escrito antes dos anúncios da Nicarágua e a Venezuela a disponibilizarem-se). O presidente equatoriano Correa foi intimidado e Washington fez-lhe sinal para que Correa retirasse a sua proposta de asilo para Snowden. Para a China e para a Rússia, os alvos favoritos de Washington sobre a diabolização dos direitos humanos, dar asilo a Snowden teria sido um triunfo de propaganda, mas nenhum desses dois países procurou enfrentar os confrontos inevitáveis que as represálias de Washington teriam causado

Em suma, os governos dos países do mundo preferem bem mais o dinheiro de Washington e as suas boas graças do que a verdade, a integridade ou mesmo a independência.

As intervenções sórdidas de Washington contra Snowden e Morales dão ao mundo uma outra oportunidade para pedirem contas a Washington antes que a sua auto-importância e a sua arrogância não forcem o mundo a escolher entre aceitar a hegemonia americana ou a 3ª Guerra Mundial. Os países, divididos entre eles e agarrando-se ao dinheiro e aos favores não fazem nada mais, de fato, do que permitir que estabeleça Washington o que quer que seja, tudo isso é sempre legítimo. A ilegalidade de Washington está em vias de se instalar como sendo a nova norma, a nova referência.

É pouco provável que os governos da América do Sul se unam contra a afronta de Washington (NDT: este artigo é escrito  antes da reunião de l’UNASUR). Alguns destes países são liderados pelos reformadores que representam o povo em vez das elites ricas  e grandes aliadas de Washington, mas a maioria deles preferem relações calmas com Washington e com as elites locais. Os sul-americanos acreditam que Washington conseguiria derrubar os reformadores tal como isso já foi feito no passado.

Na imprensa da Europa as grandes caixas dos jornais são do estilo: “a vigilância da NSA ameaça os acordos de comércio livre da União Europeia” e “Merkel pediu uma explicação”. Os protestos são uma gesticulação necessária para o público por parte das marionetes e serão entendidos como tal por Washington. O governo francês disse que as negociações de comércio devem ser temporariamente suspensas “por algumas semanas para evitar a controvérsia”. Por outro lado, o governo alemão disse: “queremos estes acordos de livre-troca e queremos negocia-los agora”. Por outras palavras, o que Merkel descreve como “uma atitude de guerra fria inaceitável” é aceitável, desde que a Alemanha tenha os seus acordos de livre-troca .

A ganância pelo dinheiro de Washington cega a Europa sobre as consequências reais destes acordos de livre-troca. O que estes acordos farão é com que a economia europeia caia sob a hegemonia da economia de Washington. O acordo destina-se a afastar a Europa de fazer comércio com a Rússia, assim como o Tratado de parceria Transpacífica é projectado para afastar os países asiáticos de negociar com a China e sujeitá-los a relações estruturadas com os Estados Unidos . Estes acordos têm muito pouco a ver com a livre-troca e tudo a ver com a hegemonia americana.

Estes acordos de “livre comércio” obrigarão os “parceiros” europeus e asiáticos ” a apoiar o dólar. Com efeito, é possível que o dólar venha a superar o euro e as moedas asiáticas e se torne a unidade monetária dos ‘parceiros’. Desta forma, Washington pode institucionalizar o dólar e proteger-se contra os efeitos negativos da impressão massiva de papel-moeda que tem sido feita para reforçar a solvabilidade dos bancos “grandes demais para falir” e para financiar os défices sem fim do orçamento federal- Nota de tradução : a  política monetária dita quantitative easing .

Tradução Júlio Marques Mota

 

About Dr. Paul Craig Roberts (Sobre o Doutor Paul Craig Roberts)

Paul Craig Roberts was Assistant Secretary of the Treasury for Economic Policy and associate editor of the Wall Street Journal. He was columnist for Business Week, Scripps Howard News Service, and Creators Syndicate. He has had many university appointments. His internet columns have attracted a worldwide following. His latest book, The Failure of Laissez Faire Capitalism and Economic Dissolution of the West is now available.

Fonte: http://www.paulcraigroberts.org/2013/07/05/lawlessness-is-the-new-normal-paul-craig-roberts/

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