NOVA CRÓNICA DE FARO, Nº 3. Por JÚLIO MARQUES MOTA

PARTE II

Da Faro com amor, de Estoi com horror – uma crónica em duas partes

1. De Faro com amor

(continuação)

E entretanto era eu que não queria beber água espanhola!  A optimização dos proveitos da Nestlé não me diz respeito. Gosto de água, e de água portuguesa, de preferência. Aliás, este exemplo coloca a nu como é que o comércio internacional é dominado pelas multinacionais e a seu belo prazer, o que gera efeitos nefastos, como por exemplo, retira aos países a capacidade de controlo dos fluxos do comércio e mais, mostra ainda como é que os próprios valores  do comércio internacional podem estar sujeitos aos mecanismos de transferência de preços organizados por estas mesmas multinacionais. No quadro de uma feroz  e desleal concorrência internacional e com uma ausência quase que repleta de um organismo que se encarregue  pela sua regulação,  gostava que um qualquer aluno da Universidade Nova me dissesse  o que é que isto tem a ver com David Ricardo e com o princípio das vantagens comparadas. Continuarei a exigir que me sirvam água de origem nacional.

Falámos de muita coisa, falámos sobre a sua confusão, de que o culpado de tudo o que estávamos a conversar era Mário Soares, pois foi por intermédio dele que entramos no barco que na altura dava pelo nome de CEE. Aí a minha discordância foi frontal: O problema não estava aí, o problema estava em Maastricht, estava na criação apressada e defeituosa da zona euro, estava nos defeitos da arquitectura do modelo em que assenta a estrutura europeia, onde todo o poder deve ser entregue aos mercados e tanto mais quanto mais se conseguir tirar aos Estados. Vê-se a mesma realidade quanto ao comércio internacional, em que a União Europeia (EU) está agora muito mais desabrigada, muito mais, do que aquando do Tratado de Roma e numa altura  a atual concorrência é agora expressivamente mais intensa e agressiva do que outrora.   Mas sublinho aqui  a confusão do meu inesperado parceiro  de conversa, porque ela representa já  e é um profundo sinal de mal-estar relativamente à Europa  a exigir às forças políticas à esquerda um profundo trabalho de consciencialização política, pois a confusão instalada pode ser a porta aberta para muitos erros politicamente graves.

 E tudo isto me parece ser assim, como se pode ilustrar com o caso dos swaps. Inadmissível o que se está a passar. Demitem-se  gestores, mas a ministra mantem-se intata. Demitem-se gestores, porquê? Porque fizeram contratos que não deviam fazer. Mas nos contratos há no mínimo duas partes. E a outra parte, os grandes bancos, esses, ficam incólumes, quando os swaps terão clausulados especulativos que nada têm a ver com swaps, com a função para a satisfação  da qual se  considera  que estes contrato sejam admitidos nos mercados internacionais  e por isso se permite que sejam assinados. Quanto aos  grandes  bancos e  quanto a estes contratos nada se diz!  Não deveriam eles ser considerados nulos perante a lei portuguesa, ou o desconhecimento da lei portuguesa pode aqui ser invocado? Não deveriam ser eles considerados nulos face a Bruxelas? Não deveria Bruxelas proteger os Estados membros destas práticas de rapina, interditá-las e punir os seus infractores (os grandes bancos) e responsabilizar criminalmente os seus responsáveis, tanto dum lado como do outro, pelos prejuízos já havidos?  Contrariamente, a que se tem assistido? São os homens da banca que têm vindo para o poder, pela mão de Passos Coelho e de Aníbal Cavaco Silva, tanto quanto este governo pode ser entendido de iniciativa presidencial. Esses homens vêm de mansinho, vêm devagarinho, talvez para garantir que os bancos continuem a receber os prejuízos que estes contratos nos continuarão a oferecer.

Mais ainda, à volta de temas do mesmo fórum falámos os dois ainda do que se passou em Itália, onde a assinatura de swaps terá dado bónus em tal medida que famílias inteiras foram com os seus filhos até Atalanta, porque um membro da família, gestor de uma grande empresa, pública eventualmente, terá feito com um ou outro grande banco, um swap! Não, diz-me bem alto o meu companheiro de há breves minutos. Bruxelas é um antro ao serviço de gangs de luva branca. Diga-me  um sinal de que Durão Barroso, um sinal de  que o senhor asno que se diz Presidente do Eurogrupo, um sinal de que Mário Draghi, presidente do BCE,   tenha alguma vez intervindo contra os mercados de capitais e a favor dos Estados-membros? Diga-me então, se alguma vez viu isso? Diga-me por exemplo como foi o vergonhoso contrato entre a Grécia e o Goldman Sachs, ou o não menos vergonhoso contrato entre JPMorgan e a Itália no tempo de Prodi! Calei-me, senti que estava face a alguém que sabia bem do que dizia, para lá de uma outra confusão de ordem emocional, como a sua ideia da origem dos males de que estava a sofrer Portugal.

De repente lembrei-me e contei-lhe uma história, que talvez tenha a ver com tudo isto e mesmo até com o que se está a passar em Portugal,  à volta dos swaps. Ei-la:

O padre Lucchetti era o director da Congregação das Filhas de Maria, uma importante congregação  de apoio a gente muito pobre, em Itália e no estrangeiro. Esta era  financiada basicamente por donativos e legados. Por volta de 2001 era detentora de uma conta pomposa num banco tradicional. O padre Luchetti pensou que era altura  de pensar  em investir o dinheiro disponível. Consultou  um monge, que antes de pertencer a uma ordem religiosa tinha trabalhado no Goldman Sachs e este ter-lhe-á dito: talvez seja tempo  de a Congregação pensar em transferir esse montante e investi-lo em produtos sofisticados de Wall Street.   O padre Lucchetti contratou um brooker de Piaza Navona. Foi recebido por Sanaz Zaimi do Deutsche Bank que lhe propôs um produto estruturado numa tranche de CDO’s  e um investimento num portfólio de hedge funds. Um ano mais tarde, o padre Lucchetti ficou alarmado quando a Congregação recebeu a informação de que os produtos estruturados com a assinatura do Deutsche Bank estavam em queda.  E o mesmo aconteceu com o banco regional em Umbria, que tinha aplicado muitos milhões num produto estruturado Deutsche Bank de nome Repon, um produto condenado a falir, na opinião da SEC em 2010.  A preocupação do padre aumentou  significativamentye  quando soube que o banqueiro de Umbria se tinha deslocado a Roma, a Piazza Novona, e que do escritório do broker que a ambos tinha vendido  os produtos sofisticados de Wall Street nem uma placa sequer restava. Nenhum traço da sua existência. Desaparecera.  Entretanto a firma  suiça responsável pela gestão do portofólio dos Hedge funds analogamente tinha também ela desaparecido. Aqui o padre Lucchetti  coçou a cabeça. Sabia muito bom por ofício de profissão que não lhe bastariam as orações. Contratou imediatamente um advogado que escreveu ao Deutsche Bank a exigir mais informações. Nenhuma explicação apareceu, e os banksters que criaram estes produtos  ficam rigorosamente calados quando lhes perguntam como é que é possível alguma vez terem vendido produtos destes.

Pessoas próximas de Zaimi, hoje no Bank of América, dizem que ele era demasiado jovem e talvez  ignorante  em matérias desta complexidade índole para perceber o que estava a ser vendido  e reenviam assim a questão para os especialistas do Deutsche Bank.  Uma das explicações apresentadas  por Czekalowski, um associado destes peritos,  era a de que tais clientes não falavam inglês e de que  ele  não falava italiano, passando assim a batata quente para Zaimi, que falava fluentemente italiano. Um outro agente importante nestes produtos, Rajeev Mistra, hoje no UBS,  e na altura chefe da direcção de produtos  derivados no Deutsche Bank, argumentava que estes clientes eram demasiado pequenos para que aparecessem nos seus écrans, os de Chefe, e os banqueiros demasiado jovens  para que alguma vez discutissem com ele esses mesmos produtos. Ou seja,por uma razão ou por outra não há responsáveis!

(continua)

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Ver a Parte I desta crónica de Faro, publicada ontem, em:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/08/11/nova-cronica-de-faro-no-3-por-julio-marques-mota/

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