QUARTA PARTE
(CONCLUSÃO)
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Disto tudo tem consciência Pacheco Pereira quando nos afirma:
“(…) e são eles que me perguntam, de uma forma cada vez menos eufemística, quando é que há uma revolução, nem mais nem menos. E mesmo eu, que entendo que toda a intransigência face ao governo e à governação é pouca, ainda fico surpreendido com a veemência da sua revolta, que já ultrapassou a hostilidade dos governantes, para estar já raiva por nada acontecer e no vitupério ao “povo” que aceita tudo e não faz nada. E se pensam que estou a exagerar, enganam-se. A coisa está negra por estes lados.”
E aqui relembro a minha crónica de Faro e com o título De Faro com amor e de Estoi com horror, onde um oficial das Forças Armadas se me confessava: “ainda gosto muito de mim. Quando isso deixar de ser assim, quando a minha estima baixar demasiado hei-de levar alguns bem à minha frente.” Foi mais ou menos assim.
Mas olhemos ainda para a seguinte afirmação de Olli Rehn:
“Isto são boas notícias, embora nada por ser considerado um dado adquirido. Qualquer posição nossa de indulgência colocaria em risco a retoma económica. A nossa resposta à crise, que é baseada numa abordagem integrada feita pelos Estados-Membros e pelas Instituições Europeias, está a começar a dar os seus resultados. A Europa está a tornar-se menos vulnerável a choques externos, mais competitiva nos mercados globais e mais atraente para os investidores internacionais.”
Vamos pois concorrer nos mercados mundiais de modo mais competitivo, dizem-nos. Mas isto significa claramente que se trata de uma competitividade ganha à custa dos baixos salários e da eliminação dos direitos sociais longamente adquiridos e agora comidos na voragem desta corrida ao mercado mundial, numa Europa que se diz vai levar mais de uma década a sair desta crise. Também aqui a Europa do conhecimento a tornar-se por essa via a economia mais competitiva do mundo, termos que Bruxelas já abandonou, fica bem esquecida e mais, é substituída agora por um novo discurso, queremos ser mais competitivos por oferecermos as condições sociais mais baixos e portanto custos relativos menores. No quadro dos países emergentes a ficarem cada vez mais dominantes no mercado mundial, isto faz-me relembrar não apenas Salazar, homem bem indigno seguramente, mas digno quando comparado com estes bandos de gangs que andam ao assalto da Europa e a destrui-la, faz-me lembrar a nossa série de textos, a caminho da Europa dos anos 30, a caminho da Europa de Hitler. A concorrência pelos custos mais baixos, o cerne afinal de todas as políticas de austeridade, é uma luta perdida e doze anos de globalização intensa mostram isso mesmo. Com ela é uma outra Europa que está a ser construída, a Europa de Vitor Hugo, dos miseráveis e porque não dizê-lo abertamente uma Europa à Hitler, tecnicamente desmunida, desprotegida, face aos seus concorrentes mundiais. Ainda agora a ler uma recessão sobre um livro que proximamente vou ler, Le salaire de la destruction – Formation et ruine de l’économie nazie, onde Adam Tooze passa ao crivo as engrenagens económicas do sistema nazi, desde a tomada do poder até à destruição total, pode-se ler:
Pioneiro na análise económica do terceiro Reich, Tooze desmonta os mitos saídos das posições de Albert Speer e, por vezes, divulgadas (incluindo o economista Galbraith, no final da guerra) afirmando que a Alemanha de Hitler era um milagre económico. Não, os comboios não chegavam a tempo durante o terceiro Reich (a degradação do material circulante era uma grave deficiência até ao fim da guerra), o regime nunca conheceu o pleno emprego e passada a euforia dos primeiros meses de governo, foi caminhando de crise em crise até 1938, antes que a crise Checa tenha levado o Chanceler a colocar o seu país sob perfusão, em sistema fechado, ao serviço das suas ambições guerreiras, a que tudo ia ser agora subordinado. A guerra como porta de saída face ao fracasso económico do nazismo, é uma posição original quando se sabe que a argumentação clássica dos defensores do regime é justamente a de aumentar a força económica do regime e sustentá-lo sobre o seu sucesso material.
De crise em crise andou Hitler antes de disparar para a guerra. Será esse o destino que estes gangs nos preparam? Esperemos que tenhamos todos nós, colectivamente, a força de os expulsar bem antes de concluírem a sua obra assassina.
Para terminar relembramos ainda Evans-Prichard:
Os apelos para acabar com a UEM estão a alargar-se e espalhar-se ao nível dos escalões superiores do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Francesa e no seu núcleo pró-europeu.
Um novo e surpreendente livro de François Heisbourg – La Fin du Rêve Européen (o fim do sonho europeu) – argumenta que o “cancro euro” deve ser extirpado para se salvar o resto do projecto da UE, antes que seja tarde demais.
“O sonho deu lugar ao pesadelo. Temos de enfrentar a realidade de que a própria UE está agora a ser ameaçada pelo euro. Os actuais esforços para salvar a moeda única estão a pô-la em risco e assim ele escreve:
Não há nada pior do que ter que enfrentar as manhãs sem sol (manhãs cinzentas, sem sol) de uma crise sem fim, mas não seremos capazes de o evitar, negando a realidade, e só Deus sabe desde há quanto tempo dura essa negação, por defeito, que é o modo de funcionamento dos responsáveis das instituições da UE.
(…)
O apelo para ” colocar o euro a dormir ” para o bem da própria Europa, é uma nova reviravolta. Ouvimos já um pouco disto a partir do partido anti-Euro da Alemanha mas estes têm uma outra bagagem. O livro de Heisbourg é um desafio frontal à doutrina de Merkel (largamente retórica, contraditada pelas acções da Alemanha) de que um colapso da UEM iria despertar e levantar todos os velhos demónios do século XX.
Sim, uma desintegração do euro pode, com efeito, levar a um tão calamitoso resultado se os acontecimentos levarem a situações em roda livre e ficarem, portanto, fora de controle depois de anos de uma crise que tudo apodrece – o atual trajecto – mas que tipo de argumento é este, de que tipo de argumento é que estamos a falar? Isso acontece apenas se deixarem que isso aconteça. Já é altura de que alguém de dentro das elites da União Europeia exponha que este sentimento é sem sentido assim como o é o abuso da história face ao que ela é.
(…)
Diferentes narrativas da crise estão a surgir entre credores e os Estados com défices, que ele compara à divisão em atitudes depois da primeira guerra mundial, quando ideias erradas alimentaram uma reacção ideológica. Traição e desonestidade são termos suspeitos. Os piores motivos são imputados, e lendas bem negras tornam-se dominantes. Ele compara-as à emergência da teoria Dolchstoß (stab-em-the-back) na Alemanha, [ou seja, a tese defendida pela extrema direita alemã de que a Alemanha perdeu a guerra devido à traição dos judeus, comunistas e até católicos, ideia esta que esteve na base do crescimento fulgurante do nacional-socialismo. E curiosamente não é desligável desta lenda e do seu peso a falta de visão do Marechal Hindeburg quando afirmou na Comissão “Parlamentar that the German army had been “dagger-stabbed from behind by the civilian populace”” ].
O caminho actual levará a “sérias crises a terminarem num nervoso disfuncionamento e numa desintegração descontrolada do euro com todas as suas consequências” – escreve – invocando um paralelo directo com o repentino desmoronar da União Soviética, um desfecho com o qual ele está intimamente associado e que apanhou quase todo mundo de surpresa.
A crença de que um novo ciclo da expansão económica irá colocar um fim nesta saga interminável que está atrás de nós é apenas a mais recente de tantas ilusões. O Prof Heisbourg tem razão. A demora já não serve nenhum propósito que seja útil para a Europa. Seria melhor que a certidão de óbito fosse passada rapidamente.”
conclui Evans-Prichard.
Antes que seja tarde, é isso.
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Para ler a Terceira Parte deste texto de Júlio Marques Mota, publicada ontem, dia 30, em A Viagem dos Argonautas, vá a:
