BEM VINDOS AO SENTIMENTO DE REVOLTA CONTRA A TROIKA, BEM VINDOS CONTRA A MENTIRA HILARIANTE DE BRUXELAS – Por JÚLIO MARQUES MOTA

QUARTA PARTE
(CONCLUSÃO)

Disto tudo tem consciência Pacheco Pereira quando nos afirma:

“(…) e são eles que me perguntam, de uma forma cada vez menos eufemística, quando é que há uma revolução, nem mais nem menos. E mesmo eu, que entendo que toda a intransigência face ao governo e à governação é pouca, ainda fico surpreendido com a veemência da sua revolta, que já ultrapassou a hostilidade dos governantes, para estar já raiva por nada acontecer e no vitupério ao “povo” que aceita tudo e não faz nada. E se pensam que estou a exagerar, enganam-se. A coisa está negra por estes lados.”

E aqui relembro a minha crónica de Faro e com o título De Faro com amor e de Estoi com horror, onde um oficial das Forças Armadas se me confessava: “ainda gosto muito de mim. Quando isso deixar de ser assim, quando a minha estima baixar demasiado hei-de levar alguns bem à minha frente.” Foi mais ou menos assim.

Mas olhemos ainda para a seguinte afirmação de Olli Rehn:

 “Isto são boas notícias, embora nada por ser considerado um dado adquirido. Qualquer posição nossa de indulgência colocaria em risco a retoma económica. A nossa resposta à crise, que é baseada numa abordagem integrada feita pelos Estados-Membros e pelas Instituições Europeias, está a começar a dar os seus resultados. A Europa está a tornar-se menos vulnerável a choques externos, mais competitiva nos mercados globais e mais atraente para os investidores internacionais.”

Vamos pois concorrer nos mercados mundiais de modo mais competitivo, dizem-nos. Mas isto significa claramente que se trata de uma competitividade ganha à custa dos baixos salários e da eliminação dos direitos sociais longamente adquiridos e agora comidos na voragem desta corrida ao mercado mundial, numa Europa que se diz vai levar mais de uma década a sair desta crise. Também aqui a Europa do conhecimento a tornar-se por essa via a economia mais competitiva do mundo, termos que Bruxelas já abandonou, fica bem esquecida e mais, é substituída agora por um novo discurso, queremos ser mais competitivos por oferecermos as condições sociais mais baixos e portanto custos relativos menores. No quadro dos países emergentes a ficarem cada vez mais dominantes no mercado mundial, isto faz-me relembrar não apenas Salazar, homem bem indigno seguramente, mas digno quando comparado com estes bandos de gangs que andam ao assalto da Europa e a destrui-la, faz-me lembrar a nossa série de textos, a caminho da Europa dos anos 30, a caminho da Europa de Hitler. A concorrência pelos custos mais baixos, o cerne afinal de todas as políticas de austeridade, é uma luta perdida e doze anos de globalização intensa mostram isso mesmo. Com ela é uma outra Europa que está a ser construída, a Europa de Vitor Hugo, dos miseráveis e porque não dizê-lo abertamente uma Europa à Hitler, tecnicamente desmunida, desprotegida, face aos seus concorrentes mundiais. Ainda agora a ler uma recessão sobre um livro que proximamente vou ler, Le salaire de la destructionFormation et ruine de l’économie nazie, onde Adam Tooze passa ao crivo as engrenagens económicas do sistema nazi, desde a tomada do poder até à destruição total, pode-se ler:

Pioneiro na análise económica do terceiro Reich, Tooze desmonta os mitos saídos das posições de Albert Speer e, por vezes, divulgadas (incluindo o economista Galbraith, no final da guerra) afirmando que a Alemanha de Hitler era um milagre económico. Não, os comboios não chegavam a tempo durante o terceiro Reich (a degradação do material circulante era uma grave deficiência até ao fim da guerra), o regime nunca conheceu o pleno emprego e passada a euforia dos primeiros meses de governo, foi caminhando de crise em crise até 1938, antes que a crise Checa tenha levado o Chanceler a colocar o seu país sob perfusão, em sistema fechado, ao serviço das suas ambições guerreiras, a que tudo ia ser agora subordinado. A guerra como porta de saída face ao fracasso económico do nazismo, é uma posição original quando se sabe que a argumentação clássica dos defensores do regime é justamente a de aumentar a força económica do regime e sustentá-lo sobre o seu sucesso material.

De crise em crise andou Hitler antes de disparar para a guerra. Será esse o destino que estes gangs nos preparam? Esperemos que tenhamos todos nós, colectivamente, a força de os expulsar bem antes de concluírem a sua obra assassina.

Para terminar relembramos ainda Evans-Prichard:

Os apelos para acabar com a UEM estão a alargar-se e espalhar-se ao nível dos escalões superiores do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Francesa e no seu núcleo pró-europeu.

Um novo e surpreendente livro de François Heisbourg – La Fin du Rêve Européen (o fim do sonho europeu) – argumenta que o “cancro euro” deve ser extirpado para se salvar o resto do projecto da UE, antes que seja tarde demais.

“O sonho deu lugar ao pesadelo. Temos de enfrentar a realidade de que a própria UE está agora a ser ameaçada pelo euro. Os actuais esforços para salvar a moeda única estão a pô-la em risco e assim ele escreve:

Não há nada pior do que ter que enfrentar as manhãs sem sol (manhãs cinzentas, sem sol) de uma crise sem fim, mas não seremos capazes de o evitar, negando a realidade, e só Deus sabe desde há quanto tempo dura essa negação, por defeito, que é o modo de funcionamento dos responsáveis das instituições da UE.

(…)

O apelo para ” colocar o euro a dormir ” para o bem da própria Europa, é uma nova reviravolta. Ouvimos já um pouco disto a partir do partido anti-Euro da Alemanha mas estes têm uma outra bagagem. O livro de Heisbourg é um desafio frontal à doutrina de Merkel (largamente retórica, contraditada pelas acções da Alemanha) de que um colapso da UEM iria despertar e levantar todos os velhos demónios do século XX.

Sim, uma desintegração do euro pode, com efeito, levar a um tão calamitoso resultado se os acontecimentos levarem a situações em roda livre e ficarem, portanto, fora de controle depois de anos de uma crise que tudo apodrece – o atual trajecto – mas que tipo de argumento é este, de que tipo de argumento é que estamos a falar? Isso acontece apenas se deixarem que isso aconteça. Já é altura de que alguém de dentro das elites da União Europeia exponha que este sentimento é sem sentido assim como o é o abuso da história face ao que ela é.

(…)

Diferentes narrativas da crise estão a surgir entre credores e os Estados com défices, que ele compara à divisão em atitudes depois da primeira guerra mundial, quando ideias erradas alimentaram uma reacção ideológica. Traição e desonestidade são termos suspeitos. Os piores motivos são imputados, e lendas bem negras tornam-se dominantes. Ele compara-as à emergência da teoria Dolchstoß (stab-em-the-back) na Alemanha, [ou seja, a tese defendida pela extrema direita alemã de que a Alemanha perdeu a guerra devido à traição dos judeus, comunistas e até católicos, ideia esta que esteve na base do crescimento fulgurante do nacional-socialismo. E curiosamente não é desligável desta lenda e do seu peso a falta de visão do Marechal Hindeburg quando afirmou na Comissão “Parlamentar that the German army had been “dagger-stabbed from behind by the civilian populace”” ].

O caminho actual levará a “sérias crises a terminarem num nervoso disfuncionamento e numa desintegração descontrolada do euro com todas as suas consequências” – escreve – invocando um paralelo directo com o repentino desmoronar da União Soviética, um desfecho com o qual ele está intimamente associado e que apanhou quase todo mundo de surpresa.

A crença de que um novo ciclo da expansão económica irá colocar um fim nesta saga interminável que está atrás de nós é apenas a mais recente de tantas ilusões. O Prof Heisbourg tem razão. A demora já não serve nenhum propósito que seja útil para a Europa. Seria melhor que a certidão de óbito fosse passada rapidamente.”

conclui Evans-Prichard.

Antes que seja tarde, é isso.

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Para ler a Terceira Parte deste texto de Júlio Marques Mota, publicada ontem, dia 30, em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/10/30/bem-vindos-ao-sentimento-de-revolta-contra-a-troika-bem-vindos-contra-a-mentira-hilariante-de-bruxelas-por-julio-marques-mota-3/

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