UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (9)

JARDINS DE POESIA

Que é que o Porto tem, que o transformou em poucos anos num destino privilegiado para milhares de pessoas? Já não tem só o vinho do Porto, o Património da Humanidade, um encanto decadente, e a sua maneira peculiar de falar. Hoje redescobrem, alguns Portuenses e quase todos os que nos visitam,  a cada passo dado, as maravilhas da sua arquitectura, a antiga e a moderna, a sua movida, a sua gastronomia e a sua beleza paisagística.

Os jardins, lugares românticos, aprazíveis, de névoas poéticas e sombras protectoras, estão hoje, na sua maioria votados ao esquecimento dos Portuenses. Para além do Parque da Cidade, poucos jardins são frequentados com assiduidade.

O Porto já foi a cidade dos jardins, das flores e das camélias. As japoneiras abundavam, havia-as em cada canto ou esquina. Dos jardins, havia-os em cada metro quadrado de terreno disponível.

Frequentar os jardins era um hábito que os Tripeiros tinham e que entretanto perderam, que lhes dava prazer e divertimento.

Para mim, um dos mais belos e poéticos é o Jardim de S. Lázaro, na zona centro-oriental da cidade, mandado construir pelo Senhor D. Pedro IV, logo após o fim do Cerco do Porto, tendo-o dedicado às senhoras da cidade, como “lenitivo às agruras e sacrifícios que passaram” durante o tempo que durou o Cerco que opôs o Exército Liberal, comandado por D. Pedro, às tropas do regime absolutista, comandadas pelo seu irmão D. Miguel.

.

O Jardim de S. Lázaro

Jardim de S. Lázaro

Jardim de S. Lázaro

S. Lázaro é o perfeito protótipo do jardim romântico, com um lago circular, ao centro, rodeado por caminhos e ladeado por um coreto, tílias e doze imponentes magnólias, cedros e uma palmeira, camélias e canteiros com flores rasteiras e diversas (o jardim possui algumas das árvores mais antigas da cidade), e uma belíssima fonte de mármore que veio da Sacristia do Convento de S. Domingos que hoje já não existe, e um conjunto de estátuas de que destaco o busto de bronze de António Carvalho da Silva, mais conhecido por Silva Porto (Porto, 11 de Novembro de 1850 – Lisboa 1893), tudo encerrado num gradeamento de ferro e fechado nos quatro cantos por portões (único do género na cidade), hoje abertos a qualquer hora.

A ladear o jardim, a nascente, encontramos a Biblioteca Municipal, a sul, o Colégio de N. Sª da Esperança e a Igreja dos Lázaros que lhe está associada, a norte, o largo do Ramadinho (que foi em tempos um local castiço da cidade) e a Praça dos Poveiros, a poente.

Junto ao jardim, viveu Camilo Castelo Branco e na casa ao lado habitou o poeta e tribuno Guilherme Braga (Porto , 22 de Março de 1845 – Porto, 26 de Julho de 1874).

Este lindíssimo jardim, teve uma época áurea, logo após a sua construção. Inaugurado parcialmente em 1834, no aniversário de D. Maria II, só será concluído em 1841 (na altura, tal como hoje, a falta de verbas era recorrente), provocou, com o seu aparecimento, a transferência da atracção domingueira dos Portuenses, das alamedas das Virtudes e das Fontaínhas, para este novo local. Acabaria por perder esse poder de atracção sobre a melhor Sociedade Portuense aquando do aparecimentos dos jardins da Cordoaria e do Palácio de Cristal.

Todos os Domingos o Coreto do jardim de S. Lázaro recebia as Bandas dos Regimentos que tocavam para os inúmeros assistentes.

Mas o jardim não era para todos, muito embora fosse Municipal. O acesso ao recinto estava condicionado a horários e era proibida a entrada de cães, mendigos de ambos os sexos, homens com carretos às costas, crianças sem acompanhamento e com menos de 10 anos e a todas as pessoas que não tivessem um traje decente.

Durante a semana, os Brasileiros (ricos comerciantes com negócios no Brasil), passavam as tardes no jardim, fazendo contas aos ganhos, fazendo negociatas e politiquices, e, aproveitando para catrapiscar as jovens do Recolhimento das Órfãs (hoje Colégio de N. Sª da Esperança).

Nesse período, muitos casamentos nasceram.

Era vê-los, e a elas (muito arranjadas e compostas), passeando-se ou sentados pelos bancos, que os havia em abundância, aos pares, deleitando a vista no “repuxo” do lago, ou no colo delas (factos superiormente descritos por Camilo nos “Anos de Prosa” e por Magalhães Bastos em “O Porto do Romantismo”).

Enfim, o jardim foi, em tempo idos dos séculos XIX e XX, um campo de batalhas de amor.

É MESMO AQUI QUE ME DÓI, SABE?

É MESMO AQUI QUE ME DÓI, SABE?

Hoje, é maioritariamente paradeiro de velhos de olhares perdidos e vazios, sítio de namoros tardios, e local de jogos vespertinos de sueca ou de transacções ilícitas ao cair da noite, muito embora a proximidade das Belas Artes (FBAUP) e da Biblioteca Municipal, lhe traga algum movimento acrescido durante os fins das manhãs e os meios das tardes, o que lhe permite ser, ainda hoje, um local movimentado, e um dos jardins mais frequentados da cidade.

O Coreto, esse, exceptuando uma ou outra vez num qualquer fim de semana estival, já quase não recebe ninguém!

Provavelmente ninguém o sabe, mas este jardim não se chama de S. Lázaro. Na realidade chama-se de Marques de Oliveira. Na placa toponímica que se encontra junto a um dos portões, diz que foi um pintor e que teria nascido em 1835 e falecido em 1909. Acontece que o pintor João Marques de Oliveira (Porto, 23 de Agosto de 1853 – Porto, 9 de Outubro de 1927), foi contemporâneo, amigo e uma autêntica alma-gêmea do pintor Silva Porto, ambos paisagistas e naturalistas, muito embora Silva Porto tenha acabado por ser nomeado Professor da Academia de Belas Artes de Lisboa, e Marques de Oliveira acabasse por assumir a cátedra na Academia Portuense de Belas Artes.

Assim, muito provavelmente, será este, e não o outro, que não descortino quem possa ser,  o dono do nome do jardim que todos conhecemos como de S. Lázaro.

À atenção da Câmara Municipal do Porto, a devida correcção.

Jardim de S. Lázaro

Jardim de S. Lázaro

 

.

.

O QUE VAI HAVENDO POR CÁ

.

No Porto também se prova GIN

No dia 2 de Novembro é na Casa de Serralves

No evento, poderão encontrar mais de 50 marcas de gin em prova, as tónicas de referência, os embaixadores das principais marcas, as novas tendências, master classes e workshops com especialistas ou atuações de DJ’s.

.

O Pink Market Volta ao Hard Club

PINK MARKETO mercado rosa volta ao Hard Club no próximo fim de semana.

Haverá exposição e venda de arte, produtos vintage, antiguidades e sabores, e ainda aulas de ioga, workshops de croché e música ao vivo.

.

.

Mercado de Rua na Rua de Cedofeita

O projeto que dá vida a Cedofeita é promovido pelo Iscet – Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo, com o apoio da ACECE e da Câmara Municipal do Porto.

Para dinamizar a rua de Cedofeita tem-se realizado um mercado de rua onde podem encontrar artesanato urbano, petiscos, objetos usados/velharias, e ainda divertir-se com jogos tradicionais.
Em todas as edições há uma temática diferente.

No próximo dia 2 de novembro o mercado terá o tema “Bruxas & Castanhas”.

Tão perto do dia de S. Martinho, vai haver castanhas, enquanto bruxas e feiticeiros vão animar a rua.

Haverá música com gaiteiros e os Tons do Povo, um workshop de abóboras e histórias enquadradas no tema, contadas para crianças por Augusta Santos, Rita Cirne e Vânia Abreu.

.

.

Mais Inaugurações simultâneas em Miguel Bombarda

bombarda

About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

7 comments

  1. maria celeste ramos

    Por el jardin florescido ella reía y llorava – cojiendo flores y flores en el jardin de madrugada – já não leio há tantos anos Lorca que nem sei encontrar este belo poema que sabia de cor e já não sei e claro nem sequer escrever – Garcia Lorca há quantos anos não leio – e o índice é impossível de consultar – lamento ter deixado de ler poesia diariamente longos anos – mas foi assim – talvez, quem sabe, retome o vício que era tão bom

    Gostar

  2. Para mim, vir lê-lo é aprender…e sempre saio mais rica! Obrigada por isso.
    Maria Mamede

    Gostar

  3. Maria Amélia Ribeiro Vieira

    Adoro este jardim que me devolve à infância, às manhãs de domingo a ouvir a banda no coreto, ao lado do avô Vieira. No Outono era frequente irmos até lá comer castanhas assadas, envoltas em papel de jornal, descascadas por ele com toda a ternura. “Quentes e boas!” Se eram…
    No Verão era o tempo das corridas e de beber água da fonte de mármore. na Primavera a descoberta dos ninhos, a recolha de alguns pequenos pardalitos que procurávamos salvar. Quantas recordações deste jardim, de todas as estações e épocas da vida. Grata por o ter recuperado.
    Maria Amélia Vieira

    Gostar

  4. Antonio Manuel M.F.Maia

    Sempre muito aprazível esta “viagem” pelas emoções de outrora num desafio revivalista. Só esta consciência militante poderá “acordar” tão belas memórias e revelar a paixão que o burgo exala.

    Gostar

  5. Teresa Tavares

    Muito obrigada por me dar a conhecer a história do jardim da minha infância, onde brinquei com os meus primos, sob a atenção vigilante do meu avô. Fazíamos coroas com as folhas secas caídas das árvores, unindo-as com a ajuda dos fósforos usados que se iam encontrando pelo chão. Depois, colocávamo-las a emoldurar as nossas cabeças e corríamos. Adorávamos subir e descer os degraus da estátua de Marques de Oliveira, da autoria de Soares dos Reis (cf. informação em https://corpopublico.wordpress.com/edicao-2008_09/turma-iii/mapa-gulliver/elementos-de-expressao-artistica/esculturas/ ) e também gostávamos de olhar o lago, à procura de ver os peixes vermelhos que por lá nadavam. E, nos dias mais quentes, encarrapitávamo-nos na fonte de mármore, muito alta para nós, para conseguirmos beber das bicas a sua água refrescante.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s