UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (58)

CARTA DO PORTO

PINGO, MEIA DE LEITE, GALÃO, E TORRADAS, BIJOU OU DE FORMA

Na minha juventude frequentava diariamente os cafés da minha cidade. O Diu, o Fonte da Moura, o Ceuta, o Piolho, o Moreira, a confeitaria Porto Santo, a confeitaria Império, o Velasquez, o Astronauta e mais uns quantos, conforme o local da cidade onde me encontrasse. Destes, pelo menos dois já não existem. Perdi esse hábito ao mesmo tempo que se foi perdendo a vontade de socializar à volta de uma mesa, normalmente pequena, onde se discutiam grandes coisas.

Os cafés eram locais de encontro, spots como agora se diz, de discussões mais ou menos intelectuais, de conspirações, de estudo ou de simples partida para outros locais, e hoje em dia, só se vão vendo grupos desses em poucos, e escolhidos, estabelecimentos desse género.

Chávena de meia de leite
Chávena de meia de leite
Copo de Galão, com a armação tradicional
Copo de Galão, com a armação tradicional

Nos cafés mais emblemáticos da cidade, ainda vamos vendo grupos de pessoas mais velhas, em amenas cavaqueiras, à hora do lanche, à volta de uns pingos ou de umas meias de leite, ou mesmo de galões (são mais as senhoras que os bebem), e de umas quantas torradas, sejam elas bijou ou de forma. Nos cafés do centro da cidade, ainda vemos às horas mais matutinas, as vendedeiras do Bolhão (por exemplo) ou as empregadas das múltiplas casas de venda a retalho da zona, a tomarem o seu pequeno almoço, ainda e muitas das vezes composto por meias de leite ou galões, e torradas.

Já há alguns anos que me não lembrava de ir a um desses cafés mais conhecidos do centro da cidade para lanchar e pedir uma torrada de pão de forma. Fui até um deles na passada terça-feira.

O cheiro a pão, a leite com café e ainda a cevada, rodeou-me de imediato, acompanhado das mais diversas recordações. Salivei, enquanto o empregado, por certo já na idade de estar reformado, demorava a vir ter comigo.

Sonhei com uma torrada de pão de forma, fofa e mole, partida nos paralelipípedos mágicos, os do meio a vergarem na sua fofura quando lhes pegasse, enquanto que as tiras dos lados de fora deixavam que a cabeça (sim as torradas tinham cabeça) tombasse na direcção exacta da minha boca expectante. Tudo com bastante manteiga, como eu gosto, esquecendo o mal que me iria fazer com o bem que, estava certo, me iria saber. Como acompanhamento, um pingo chegava, escuro como aprecio, quase um café pingado.

Por fim, já todo eu era saliva e sofreguidão, o empregado chegou.

-Diga!

Perdoei-lhe a má disposição e os maus modos.

– Por favor, quero um pingo escuro e uma torrada com muita manteiga.

Virou-me as costas sem mais palavras ou sequer um ligeiro sorriso. Não me importei.

Deu dois passos, chegou-se até perto do balcão (o balcão era mesmo ali à beira), carregou em meia dúzia de botões da máquina registadora que ali estava, e gritou, ao mesmo tempo que atirava o “tiket” para cima do balcão, na direcção de ninguém (já que ninguém ali estava):

– Uma torrada com muita (esperou dois ou três segundos e acrescentou) acompanha com um pingo escuro!

O tempo que tive de esperar, foi um enorme suplício. Os segundos passavam e demoravam minutos que pareciam horas. Por fim lá veio o “serviço” pousado na bandeja metálica. O empregado acercou-se da mesa, e com um ligeiro voltear de braço, pousou a torrada e logo a seguir o pingo. Pegou num pacote de açucar e atirou-o para cima da mesa. Sem uma palavra, sem um sorriso, virou costas e voltou para junto de balcão, onde se encostou, não sem antes ter pousado a bandeja, com algum ruído à mistura. Nessa altura, já eu nada via a não ser a minha torrada.

Mas…. pensei, aquilo não poderia ser a minha torrada. Aquilo era uma tosta, fina, dura, e de formato perfeitamente rectangular.

-Desculpe, disse, faz favor. Os senhores não têm pão de forma fofinho?

Olhou-me com espanto.

-As nossas torradas são assim, já há muitos anos.

Não duvidei!. Levantei-me sem tocar em nada, paguei e fui-me embora, jurando não tornar a entrar ali. Por certo haverá ainda quem saiba o que é uma torrada à moda do Porto, grossa, fofa, molzinha, saborosa, a escorrer manteiga. Não irei desistir de procurar, mas, mesmo que as não encontre, sei que as há-de haver, ai há-de, há-de!

Torrada de pão de forma, como ela deve ser
Torrada de pão de forma, como ela deve ser

 

O OUTONO JÁ CÁ ESTÁ, E O PORTO ACOLHE-O EM FESTA

Com ele chegam-nos as castanhas, as cores quentes, as neblinas, o prazer de se estar dentro de portas, as primeiras lareiras (mesmo que o frio ainda por cá não esteja), a folhas no chão, as ventanias, a vontade de desenterrar os agasalhos, os queijos e os vinhos saboreados num ambiente acolhedor e já quase quentinho, um livro lido ao sol da sobretarde, os pôr do sol magníficos, as conversas ao redor de uma meia de leite e de uma torrada, saborosas e reconfortantes.

Também podemos ir comer uma francesinha, no Festival que se prolonga até dia 12, ou ir comer um prego ao Venham Mais Cinco (apaixonei-me por este espaço que realmente tem dos melhores pregos em pão que já comi), ou ir ao cinema, ou ao teatro, ou simplesmente beber um copo com amigos, mas acima de tudo, aproveitemos a enorme festa que esta nossa cidade tem para nos dar.

Aproveitemos o maravilhoso Outono  da cidade do Porto.

Aproveitemos a nossa maravilhosa cidade, NÓS merecemos!

Aproveitemo-nos, aproveitando o PORTO.   

 

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