UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (243)

 

ASSIM!

Nós não éramos assim

Nós não somos assim

Assim, não vamos lá

Estamos a aceitar tudo o que nos colocam à disposição. Estamos, dia-a-dia a perder a nossa identidade, e os nossos valores estão tão esquecidos que parece que já não existem.

O lema dos dias de hoje é “respeitem e aprendam com os mais novos que eles são o futuro”, ao invés de “respeitem e aprendam com os mais velhos que eles são o conhecimento e a experiência”.

Nas gentes novas começa a ser difícil encontrar a solidariedade, a hospitalidade, o respeito pelos outros e por vezes por si mesmo, a humildade, e a educação (poucos, muito poucos, usam o por favor ou o obrigado). É cada um por si e eu à frente de qualquer outro. O simples facto de EU existir, faz de mim um expert no que eu entender.

Vem tudo isto a propósito do que vou vendo grassar por esta minha cidade.

Dias atrás fui até à baixa.

Tinha deixado o carro perto da Cordoaria. Fui descendo em direcção à Praça da Liberdade. Depois subi até Santa Catarina e mais tarde voltei a descer para São Bento, rua das Flores e acabei na Ribeira. Depois subi de novo até ao ponto inicial.

Em dia soalheiro, as ruas estavam pejadas de gente. Ouvi falar em variadas línguas, mas quase ninguém falava português. Que maravilha! O turismo e os turistas invadiram o Porto e transformaram-no numa cidade do Mundo. As casas comerciais tinham clientes, umas mais que outras, mas todas trabalhavam como não acontecia há alguns anos. Os sorrisos estampavam-se nos rostos dos passantes. O ruído (um “basqueiro” irritante) das rodinhas das malas era uma constante. Gente e mais gente em trânsito permanente. Altos, baixos, gordos, magros, feios, bonitos, todos a apreciar e a usufruir da minha cidade, e a minha cidade a lucrar com tudo isso.

Parei e entrei numa confeitaria, ou algo semelhante, na rua do Almada. Fui recebido com um “Hello” simpático e sorridente vindo do empregado (um “chavaleco” com cerca de vinte anos). Respondi-lhe em português, como é evidente. O sorriso desapareceu e indicou-me uma mesa. Atrás de mim vinha um casal que, vim a saber, era holandês. O mesmo sorriso com que me recebeu presenteou os clientes. De seguida levou-os até uma mesa, entregou-lhes uma ementa e retirou-se. Pouco tempo depois recolheu o pedido e regressou ao balcão. Voltou cinco minutos mais tarde com algumas das coisas que os estrangeiros tinham encomendado. Aí, eu fiz-lhe sinal e disse-lhe que eu sabia o que queria, e que queria pedir. Só um momento, disse, e regressou ao balcão. Regressou depois com o resto do pedido dos estrangeiros e veio ter comigo. Diga, atirou. Não disse, saí!

Tinha perdido a vontade fosse do que fosse. Estava extremamente irritado. O “puto” tirara-me a vontade de me sentir bem e a paciência para “aguentar”. Enfim!

Em conversa posterior com amigos que costumeiramente frequentam a baixa do Porto, fiquei a saber que este comportamento, essencialmente por parte dos empregados mais novos, e sem supervisão sénior e conhecedora, é frequente.

Com isto tudo já passava do meio-dia. O melhor era almoçar. Procurei uma esplanada. Havia muitas, com cartazes colocados no meio do passeio, cheios de fotografias de pratos já confeccionados, assim como que à moda das esplanadas do Algarve ou de zonas de turismo por atacado e sem sapato, quase invariavelmente escritas numa qualquer língua que não era o português. Sentei-me numa, sem saber qual nem o que iria escolher. Afinal havia ementa em português, mas foi preciso pedir, já que um “hello” semelhante ao outro me recebeu muito simpaticamente, acompanhado de um sorriso bonito, que, tal como o outro, desapareceu de imediato quando falei. Deveria ser o único nacional na esplanada, já que esperei mais de dez minutos para ser atendido, enquanto outros, que chegaram depois de mim, já comiam. Na ementa vi bitoques, praí meia dúzia deles, com uma fotografia de um prego em prato ao lado. Pensei ter sido tele-transportado para algum outro sítio. Acabei por escolher uma francesinha. Foi uma escolha deplorável. Talvez a pior francesinha que alguma vez comi. E a culpa foi tão somente do molho, fraco e sem qualidade. Fiquei a saber que turista come o que lhe poêm à frente, e não protesta, já que outros, estrangeiros, comiam a mesma coisa e abanavam a cabeça em sinal de aprovação. Coitados!

Também em conversa com os mesmos amigos, fiquei a saber que já tinham abandonado as escolhas de esplanadas do centro da cidade, por via da fraca qualidade da confecção da comida.

 

Continuei a minha volta, subi e desci as ruas lindas que o Porto tem, não entrei em mais café ou pastelaria, já que tenho a certeza, que me vem da experiência, que hoje ninguém sabe o que é uma torrada de pão de forma grossa e fofa (escrevi sobre isto na minha crónica nº 58), não conhecem a diferença entre uma mirita e uma torrada bijou, não fazem ideia do que é um mazagran, é uma vergonha pedir um cimbalino, ninguém conhece os sidónios e já por cá há pasteis de nata que se chamam de belém.

Para além disto, nas casas comerciais onde entrei, tive o cuidado de não falar, não fosse o caso de descobrirem que eu não era um turista estrangeiro.

Ainda vamos acabar por pagar com língua de palmo tanta displicência.

 

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About José Fernando Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

2 comments

  1. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (243) | joanvergall

  2. Adriano Silva

    Chocante! Fiquei chocado! E o pior é que os turistas vão enganados do Porto! Nem saberão o que é uma verdadeira francesinha!

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