AS RAZÕES DA CRISE NA EUROPA. ANÁLISE DO CONTEXTO GLOBAL E DAS RESPOSTAS POSSÍVEIS À DRAMÁTICA SITUAÇÃO ACTUAL – CONFERÊNCIA “EURO: SOBREVIVER OU PERECER?” – ANEXO I – PLANO MARSHALL – EUROPA, por JOSÉ DE ALMEIDA SERRA – VIII

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Selecção de Júlio Marques Mota

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EURO: SOBREVIVER OU PERECER

Por José de Almeida Serra

Documento preparado inicialmente para a Conferência de Coimbra “Um outro euro, para a reconfiguração económica e social da Europa”, realizada na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra em 12 de Março de 2014 e revisto em Setembro de 2014.

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(CONTINUAÇÃO)  

ANEXO 1  – Plano Marshall – Europa

 

Depois da 2ª Guerra mundial – com a Europa em risco de colapso social e financeiro, dado o estado de desmantelamento europeu -, não restou aos Estados Unidos alternativa senão apoiar o Continente, garantindo desde logo apoio militar, que nunca chegaria a ser interrompido após a guerra. A grande pressão dos soviéticos e de partidos comunistas nacionais em países ocidentais, determinaria que a Grécia e a Turquia tivessem de ser apoiadas militarmente, logo desde finais da guerra. Na Grécia houve que fazer face a uma guerrilha comunista que conduziu à guerra civil, sendo uma das facções (a pró-ocidental) apoiada inicialmente pelo Reino Unido e depois pelos Estados Unidos (o Reino Unido solicitou, em Fevereiro de 1947, que os EUA o substituíssem, por considerar não estar  em condições de poder continuar a dar o apoio que vinha concedendo).

Para além do apoio militar, os EUA foram recorrendo a vários outros tipos de apoios a diferentes países, tendo concedido ajudas no montante de  14 mil milhões de USD até ao fim de 1947 (o Reino Unido recebeu um empréstimo de emergência de 3,75 mil milhões de USD).

Contudo, o contínuo agravamento dos problemas levou à conclusão que algo de radicalmente diferente tinha de ser feito para evitar o colapso da Europa ocidental e a instauração de regimes comunistas nessa área e conduziu ao que ficou conhecido por Plano Marshall (European Recovery Program), que foi objecto de ampla discussão no Congresso americano.

O Plano Marshall seria lançado com um discurso do Secretário de Estado, general que daria o nome ao Plano, feito em 5 de Junho de 1947 na Universidade de Harvard (Cambridge, USA).

Em 12 de Julho de 1947 ocorreu um encontro em Paris dos interessados, ou seja da generalidade dos países da Europa ocidental e Estados Unidos. Os países da Europa Central e União Soviética, embora convidados, não estiveram presentes, não obstante durante um certo tempo a Checoslováquia e a Polónia terem mostrado alguma apetência pela solução que se desenhava. Contudo, viriam a afastar-se por oposição à ideia por parte da União Soviética.

O golpe de Praga, de Fevereiro de 1948, com a definitiva e total integração do País na esfera soviética, veio chamar a atenção para a necessidade de se avançar muito rapidamente e pôr o Plano em funcionamento. Do lado dos EUA foi criada, em 1948, uma entidade coordenadora, ECA – Economic Cooperation Administration, que geria os diferentes aspectos relativos ao Plano (que ficaria operacional em Julho de 1948).

Decidiu-se que seriam os países europeus a organizar os apoios internos, o que obrigou à criação de organismos de gestão a nível global europeu – Organization for European Economic Cooperation – OEEC – e a nível interno dos diferentes países. Em Portugal foi criado o Fundo de Fomento Nacional, que administrou os fundos do Plano Marshall e mais tarde seria transformado em banco (Banco de Fomento Nacional); na RFA  foi criada uma entidade – KfW – Kreditanstalt für Wiederaufbau (Instituto de Crédito para a Reconstrução) – banco ainda hoje existente e que tem canalizado fundos para projectos de investimento, tanto dentro da Alemanha como em outros países (dos quais Portugal beneficiou significativamente, sobretudo a seguir a 25 de Abril de 1974).

Em 1961 seria extinta a OEEC que evoluiu para a OECD e passaria a integrar vários estados não europeus desenvolvidos, funcionando hoje como um “Clube de países ricos”.

O Plano Marshall canalizaria para a Europa uma multiplicidade de apoios até se terminar em 1951 (16 nações receberiam cerca de 13 mil milhões de USD em ajuda a preços da época, cerca de 100 mil milhões actuais – alimentação, matérias primas, equipamentos, fuel).

Os principais beneficiados do Plano Marshall foram, por esta ordem: Reino Unido, França, Itália e Alemanha (esta receberia um pouco mais de 10% do total facultado).

Paralelamente desenvolveram os EUA outras formas de apoio à Europa, designadamente a nível de organização, gestão e transferência de tecnologias, sendo de destacar o papel desempenhado pelo BLS – Bureau of Labor and Statistics que para o efeito implementou um Technical Assistance Program.

No ambiente de confusão e tensão que se seguiu à guerra, e no quadro de interesses muito divergentes entre os diferentes estados, não é de surpreender que se mantivessem políticas conflituantes e até contraditórias, que só a pouco e pouco foram conseguindo a coerência global necessária. Neste aspecto refere-se que o chanceler alemão (Konrad Adenauer) chamou a atenção, já em 1949, para a manifesta incongruência decorrente de se continuar a proceder ao desmantelamento da indústria alemã (na RFA) na ocorrência do desenvolvimento de um quadro como o do Plano Marshall que visava exactamente recriar e consolidar a indústria e economia alemãs.

(continua)

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