UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (69)

carta-do-porto

A ESCOLA REIS (Nº 85) DA FOZ DO DOURO

Escola Régia nº 85 Escola Reis
Escola Régia nº 85
Escola Reis

De uma maneira ou de outra, muito se tem falado sobre a Escola Primária nº 85. Ora porque está num estado de degradação enorme, ora porque, há cerca de dez anos, a Câmara fez obras de beneficiação do prédio pelo exterior, mantendo-se a degradação interior, ora porque a sede da Junta de Freguesia se iria mudar para lá, tendo chegado até a ser elaborado um projecto para esse efeito, encomendado pelo anterior executivo da Junta, ora porque era a Marinha que iria ocupar o espaço, saindo da rua Nova da Alfandega, ora como agora, se propõe que sirva como moeda de troca com o Lawn Tennis da Foz, para, libertando a muralha do Forte de São João Baptista, afastar os “courts” de ténis e as restantes instalações, algumas dezenas de metros.

No que ao Lawn Tennis da Foz diz respeito, nada me chocaria que fosse deslocalizado para outro local, para a Ervilha ou para o Parque da Cidade, onde poderiam construir, de raiz, os campos e todas as infraestruturas necessárias ao seu bom funcionamento, servindo, essa sim, como uma excelente moeda de troca para a libertação das muralhas do Forte de São João Baptista, que como se sabe, é um Monumento Nacional.

A escola está sem qualquer actividade relevante há cerca de vinte e cinco anos, altura em que, tanto a actividade escolar como as instalações da DREN encerraram, muito embora, em parte da cave do edifício esteja instalada, actualmente, a sede da Academia de Danças e Cantares de Portugal.

Sei que o actual executivo da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, tem trabalhado, até ver ingloriamente, com vista à utilização da antiga escola, para fins culturais.

Inclusivamente, foi apresentado à Câmara Municipal do Porto um projecto para lá ser criado e implantado o Centro de Tecnologias Audiovisuais, cujo objectivo estratégico seria o de promover a Foz, Nevogilde e Aldoar, e consequentemente a cidade do Porto. Nele seriam montados estúdios de gravação áudio e de imagem, e haveria uma sala de edição e uma pequena residência artística.
Tanto quanto julgo saber, a Câmara do Porto não terá dado seguimento aos anseios e projectos da União de Freguesias, no que respeita à Escola Régia nº 85, pelo que suponho que quererá reaver o edifício para um outro qualquer uso.

Escola-Régia-nº-85-1000x
Na carta que, como contribuição para a discussão pública sobre o “Plano de Estrutura para a Frente Marítima do Porto”, enviamos em conjunto (o dr Joaquim Pinto da Silva e eu), como elementos do Grupo Cultural “O PROGRESSO DA FOZ”, dizíamos sobre a Escola Primária nº 85.

Progresso Foz
A Escola 85
Nesta perspectiva, a “Escola Reis” (alcunha popular para a Escola Régia n° 85), dada a sua importância histórica e arquitetural, não deveria ser moeda de troca com o Lawn Tennis.
Antes deveria transformar-se no centro cultural e cívico que a Foz necessita: um centro cultural em sentido lato, uma biblioteca moderna e de acesso facilitado (parceria com a Municipal), talvez com café concessionado (café exclusivamente!), com internet livre, um percurso (de objectos e virtual) de História local e, acima de tudo, um ponto permanente de discussão cívico-política local, da cidade e do país.
Inovador sempre que possível, deveria também na sua gestão integrar o Município, a União de Freguesias, a Universidade, as associações e cidadãos (estes em voluntariado indicados pelas instituições e autopropostos).
Temos um nome: Centro Cultural e cívico Raul Brandão (valoroso escritor ainda sem apadrinhar uma instituição na terra que o viu nascer).

 

Acrescento, como aditamento à parte da carta que acima transcrevo, algumas ideias e considerações, nas quais poderíamos enquadrar facilmente as apresentadas pela União de Freguesias à Câmara Municipal do Porto.

Não mudaria de modo algum a planta do edifício, que é lindíssimo, tanto pelo exterior como pelo interior.
Neste Centro Cultural, haveria lugar, numa das antigas salas de aulas, para a criação de um espaço de reunião para activistas cívicos, uma sala de encontros, sem horários, dedicada a tertúlias de pensadores e artistas de quaisquer vertentes, para caminhar e educar pelas artes, e para pensar a cidade.
Haveria também lugar para uma biblioteca dedicada à cidade e à Foz do Douro em particular, onde coubessem todas as obras publicadas por escritores e artistas nascidos no Porto, e por todas as obras que, não sendo da autoria de naturais da cidade, sobre elas falassem ou as abordassem. É evidente que aqui estão contempladas todas as obras de natureza histórica, que transformariam este Centro Cultural, num local de estudo, consulta e permanência.
Uma fototeca, uma videoteca e uma galeria de arte, em constante crescimento, seriam uma mais valia, bem assim como uma loja de venda de artigos diversos, fotografias, livros etc., sempre e exclusivamente sobre a cidade do Porto,
No espaço, amplo, que em tempos foi o recreio interior da escola, pode, e deve, ser montado um auditório que conviveria com uma sala de exposições.
As várias salas, incluindo a da vertente cívica, seriam dedicadas à leitura, à escrita e à discussão.
Todo o edifício estaria preparado e montado para colocar o utente e o pontual visitante, numa viagem permanente pelo Porto, de uma forma geral, e, particularmente, pela Foz do Douro.

 

À atenção do sr. Presidente da Câmara Municipal do Porto, do sr. Presidente das Águas do Porto, e do sr. Presidente da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde.

4 Comments

  1. É, de facto, importante terminar de vez com a degradação desta escola, invulgar pela sua arquitetura e com uma vista soberba sobre o rio e a sua foz…embora nunca tenha nela lecionado, tive de me deslocar lá muitas vezes pois aí funcionou durante anos a 10ª Delegação Escolar do Porto. Aí mantive acesas conversas com o dedicadíssimo Delegado Profesor Marques…
    Mais tarde, depois de ter fechado chegou-me aos ouvidos que lá iria ser montado um tipo de museu sobre a Escola Primária…parece que também essa hipótese caiu por terra…(embora não inviabilizasse as outras).
    Ab

  2. Mais um prédio com História da Nossa Cidade, que urge preservar não só, para o presente, e essencialmente para os nossos vindouros

  3. Nos anos 80,levei a filha da chefe dos Correios da Foz,à Escola 85…Alguns anos depois,lembro-me de existir
    uma Biblioteca e um pequeno espaço do Grupo das Cruzadas de Bem-Fazer da Foz do Douro…A ideia de
    Centro Cultural e Cívico Raul Brandão é magnífica (um dos objectivos há muito reclamados pelos fozeiros)…
    Lutar por esse espaço ao serviço da “agora” União das Freguesias da Foz,Nevogilde e Aldoar é de sublime
    importância!

Leave a Reply