A CHACINA SOBRE CHARLIE HEBDO NO CONTEXTO DA CRISE EUROPEIA – 12. 11 JANEIRO de 2015. O CANTO DO CISNE DA ESQUERDA FRANCESA, por MICHEL LHOMME.

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Selecção, tradução e nota final por Júlio Marques Mota

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11 JANEIRO de 2015

 O canto do cisne da esquerda francesa

Michel Lhomme, 11 JANVIER 2015 – Le chant du cygne de la gauche française? 

Revista Metamag,  16 de Janeiro de 2015 

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Cerca de 200… Tal é o número, largamente subestimado, no dizer do próprio Ministério da Educação,   dos incidentes “incidentes”, identificados em escolas desde os ataques da semana passada. Os incidentes são extremamente graves e estão claramente relacionados com a apologia do terrorismo. Eles não são punidos. Não há Conselho de Disciplina, não há  exclusão imediata. É a pedagogia da bondade, da educação cívica,  do “não à amálgama”.

Nas turmas, os professores estão muito excitados. Eles encontraram as grandes causas sem entender um instante que seja  que elas os levam, gradualmente, a caminho da guerra e  de uma guerra que eles vão perder. Para qualquer estratega, seja ele  chinês, árabe, russo, americano ou francês, não sendo capaz de designar  o seu inimigo, é já, com  efeito, ter perdido a guerra.  Poucos são capazes de controlar as suas emoções, de ganharem efeito de distância para com o evento. Pensaremos nós,  há já  tanto tempo que eles deixaram de ler , mas simplesmente contentam-se de que está no ar. .

E contudo, como é que se pode não sentir a atmosfera, o cheiro fétido do grande embuste: os media em uníssono, os ministros nas declarações, os intelectuais tentando pensar e até mesmo algumas padres – um espanto! – a recomendarem  a compra de Charlie Hebdo. Mas o que  é que tem sido  feito? Tem-se feito isto: uma mulher policia  de 37 anos, em serviço no Palácio do Eliseu, foi intencionalmente  atropelada por um carro na noite de quarta-feira para quinta-feira. O ‘incidente’, como dizem, é obra  de um desequilibrado. Não fazer nenhuma amálgama.

Na frente dos exércitos, François Hollande  não ousa falar nem em guerra nem de Islão. No entanto, terça-feira, na  Assembleia nacional, Manuel Valls confessava: “Estamos em guerra contra o terrorismo, o djihadismo   e o islamismo radical”. Ora e muito curiosamente em frente dos  militares, aquando da apresentação  de cumprimentos e de votos de Bom Ano, François Hollande não monta no cavalo de batalha do seu Primeiro ministro e não ousa sequer  falar de guerra, nem de  Islão. Era quarta-feira à tarde. Teria ele medo de que por um canal ou outro aparecesse  o verdadeiro comanditário? Sabe-se alguma coisa?

Desde há  uma semana, a França em todo caso está  histérica. François Hollande que era o presidente mais desacreditado, mais impopular da Vª. República aparece de repente aos olhos da grande massa como o pai da nação, o novo Clemenceau, o novo De Gaulle. É claro os atentados mas sobretudo a união nacional – e é a  característica de todas as  uniões nacionais – dão proveitos ao poder executivo. Ora pela sua política de imigração-invasão e a sua política internacional, os políticos que se sucederam  em vários governos carregam em França uma responsabilidade esmagadora nos trágicos acontecimentos da semana última. Porquê? Todos aderiram a  uma política criminosa que consistiu  em  incentivar a vinda e a instalação de milhões de imigrantes não europeus, pela maior parte de cultura e de religião muçulmana, e além disso comprometeram-se e efectuaram uma política do Médio Oriente  abertamente antimuçulmana, uma política que consistia precisamente em incitar  os Muçulmanos contra a França, participando em guerras  no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, na Síria, no Mali, na República Centro Africana continuando ao mesmo tempo no plano interno a ostracizar os muçulmanos proibindo o véu  em nome do arcaísmo da laicidade.

Ora, quando se escolhe deliberadamente fazer entrar sobre o seu solo milhares de muçulmanos, pode-se permitir ter uma política laica mas sobretudo pró-israelita no  Médio Oriente enquanto que nada nos obrigaria a isso ? O governo francês sabe perfeitamente que a França é o país da Europa que conta ao mesmo tempo a comunidade judaica e a comunidade árabe-muçulmana mais numerosa da Europa. Além disso, sabe-se também que as sociedades multiculturais, multiétnicas e multiconfessionais são sempre sociedades potencialmente conflituosas (Líbano, Kosovo, países africanos, Índia). Não se pode por conseguinte quando se tem uma  forte população muçulmana sobre o seu solo ter uma qualquer política internacional. É uma  questão de  responsabilidade e de sentidos do interesse geral.

Contrariamente  aquilo com  que nos seringam os ouvidos,  também não se trata de  combate pela  liberdade da imprensa (os mesmos  pediam, há um mês, a censura de Zemmour, há um ano a detençáo de Dieudonné e aplaudiam  a detenção de Kemi Seba)  mas de uma  guerra no âmbito de uma política internacional claramente definida, reflectida e escolhida. Do mesmo modo que em  economia, há outras escolhas que não a da poupança negativa, a da austeridade ou do euro, havia também para a França  outras escolhas possíveis em política internacional. Uma outra política árabe da França era e   permanece  possível. Nicolas Sarkozy e Laurent Fabius são os verdadeiros responsáveis dos atentados de 8 de Janeiro.

Quem ganha com o crime?

Depois de tudo isto, depois de  um acontecimento deste tipo, é a questão que se deve levantar aos peritos na matéria.  A  quem ou a  quê,  pode servir o crime? No caso presente, certamente que não aos muçulmanos. Então, a quem? Tentem responder mas tendo a  precaução de sublinhar que frequentemente neste tipo de acontecimentos, o que tira as castanhas do fogo não é necessariamente o instigador ou o comanditário do acontecimento.

Primeiramente, na conjuntura económica francesa mas também na europeia com um eventual rompimento próximo da Eurolândia se a Grécia sair do euro, o primeiro vencedor é naturalmente o chefe do Estado francês François Hollande cuja quota de popularidade, pelo menos “no povo de esquerda”, deverá  subir em flecha.  É , de resto,  exactamente o que se acaba de  passar. O chefe do Estado aparece por conseguinte e durante algum  tempo como o salvador do país, o que soube unir os Franceses — da República à Nação — pelo menos o tempo de uma grande “missa” vespertina que permitiu voltar a soldar , antes dos prazos eleitorais, um povo de esquerda siderado pela política económica dos socialistas? François Hollande  teria tomado de repente uma enorme estatura face aos  “cinquenta chefes de Estado e de governo”. Notemos mesmo assim que  o secretário de Estado John Kerry estava  ausente. Esta ausência deve ser sublinhada.  Se há efectivamente um serviço que deve saber algo sobre os comanditários dos atentados de Paris, são com efeito os serviços americanos. Pareceria que tenha havido  aqui alguma  divergências de abordagem o que é perigoso  para o poder socialista em exercício porque inevitavelmente haverá fugas deixadas  por Washington, o Pentágono ou o NSA. Sem a presença americana, Paris não foi verdadeiramente  “a capital do mundo” neste Domingo.

Lancemos  um olhar  sobre o calendário e simplesmente sobre a  data de 7 de Janeiro de 2015. Os Palestinianos  tornaram-se oficialmente membros do Tribunal penal internacional (CPI) na quarta-feira 7 de Janeiro, apesar das objecções dos Estados Unidos. O facto é de importância porque permitirá a Palestina colocar   Israel sob  acusação  face a  este órgão jurisdicional competente para julgar os crimes de guerra. O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, aceitou na quarta-feira 7 de Janeiro o pedido palestino de adesão ao Tribunal penal internacional (CPI)  apresentado  na  sexta-feira,  2 de Janeiro. A adesão da Palestina enquanto que Estado deveria  intervir no dia  1º de Abril. Antes deste pedido de adesão, o presidente palestino Mahmoud Abbas tinha feito uma declaração prévia que reconhece a competência do Tribunal para os crimes de guerra cometidos por Israel, aquando da ofensiva militar de Julho de 2014. Autorizando a Autoridade palestina a aderir ao CPI, reconhece-se o seu estatuto de Estado, porque só um Estado pode a este Tribunal aderir.  A Palestina tem agora a obrigação de colocar  em conformidade  o seu direito nacional com o do estatuto de Roma e deve ratificar o acordo sobre “os privilégios e imunidades” que permitirá  aos membros CPI trabalhar sobre o território palestino em toda a  liberdade. Benjamin Netanyahu arrisca-se a  ser procurado por  crimes  de guerra. Ora,  nunca Israel aceitaria que um dos seus soldados fique sob a alçada do  CPI. A batalha situa-se agora sobre o terreno político. Assim, a Palestina desejaria  que os países europeus, em nome da União europeia, façam  uma declaração em que  se felicitariam  pela adesão deste Estado ao estatuto de Roma, como é o caso cada vez que um Estado adere ao CPI. Esperava-se esta declaração em breve. Os atentados de Paris tornam-na   impossível. Bombardear-se-á   de novo Gaza.

A  7 de Janeiro de 2015, ou seja cerca de algumas horas apenas antes do atentado contra Charlie Hebdo, uma curta manhã,  aparelhava-se  discretamente para as costas do  Levante  um dos nossos submersíveis nucleares de ataque. Com efeito, a 6 de Janeiro, “Mer et Marine” anunciou a partida iminente em missão operacional do  porta-aviões Charles de Gaulle com  a sua flotilha de acompanhamento para as águas do Golfo, ao com a Síria ao alcance dos seus tiros.  O Estado islâmico é o alvo claramente designado. Notar-se-á  aqui a notável concordância dos acontecimentos. Ora, o envio dos nossos melhores elementos de combate para uma zona de operação potencial não se improvisa. Levantemos então a questão  seguinte: haverá  uma relação  qualquer entre a chacina parisiense, o electrochoque nacional e ocidental que esta desencadeou e os  preparativos de ofensiva em Iraque e Levante tendo como objectivo real a destituição do poder em damasco? Explicámos aqui e largamente argumentámos  sobre a questão  que a  instrumentalização de Daesh visava apenas uma inversão táctica contra Damasco. A decisão de terminar com Damasco no início do ano não teria sido ela já  tomada?

Ora, se a hipótese da iminência de um conflito aberto com a Síria, oficialmente contra Daech, mas com sólidas perspectivas de se vir a expandir para as costas mediterrânicas sob controlo do governo sírio, os Franceses que, aos milhões, acabam de plebiscitar  com a sua  charlotterie uma presidência ainda ontem em completa falência,  arriscam-se muito a reencontrarem-se com  uma guerra bem real mas aquela precisamente contra a qual já se manifestaram: uma guerra de civilizações.

Na verdade,  estamos já em guerra mas os Franceses não o sabem porque ignoram a política estrangeira da França ou pior acreditam que aqueles  que  descodificam de um ponto de vista crítico esta política estrangeira da França são defensores dos complots, novo mito incapacitante que é  forjado para paralisar a inteligência e a vontade dos intelectuais e dos  investigadores ocidentais a escavar para  encontrar a verdade.

Por último coloquemos uma última pergunta mas esta é  evidente: não haveria para além do laureado François Hollande outro laureado ou laureada do jogo do terror? Um correspondente remoto totalmente obcecado pelo perigo de Frente Nacional  vem supor  no seu delírio que a  mão de Marine Le Pen está por detrás os atentados. Estúpido mas muito curioso  e pela primeira vez, o New York Times, verdadeiro barómetro dos mundialistas, dos ocidentalistas,   atribui no acontecimento os seus favores à Marine Le Pen dando-lhe a precedência sobre François Hollande ou sobre qualquer outro homem político francês. Sob um título muito hábil “In Cold Political Terms, Far Right and French President Both Gain” traduzível  por  “em termos friamente políticos, a extrema direita e o presidente francês são  ambos vencedores”.

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O New York Times toma na realidade  posição não no texto mas na maneira de colocar as suas duas fotografias  como  ilustração. A escolha da montagem é claramente, os favores vão para a  senhora. A fotografia de François Hollande, escolhida como estando mais bendito  que nunca, é apresentada em segundo lugar.  Além do mais,  a imagem de François Hollande foi reduzida voluntariamente, o  que é sempre a regra na imprensa para  uma fotografia “menor”. Esta escolha editorial diz  muito  quando se sabe  que o New York Times é  órgão de referência e mesmo  “a voz” quase oficial do poder mundial. As elites mundializadas  já teriam escolhido Marine Le Pen como futuro chefe de Estado francês? Mas então, se for esse o caso, a França de Esquerda será como  nós efectivamente a apresentámos no início do ano,   morta e enterrada em 2015.

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O que está a  acontecer   é pura e simplesmente o seu canto do cisne.

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Nota do Tradutor: Como escreve o New York Times:

«Marine Le Pen foi excluída da grande Manifestação de Paris, contudo, muitos analistas consideram esta exclusão como um erro político cometido pelo Partido socialista de François Hollande,  o partido que organizou o evento.

Marine  Le Pen, cujo apoio em várias sondagens para as eleições presidenciais de  2017 está já perto dos 30 por cento, gritou alto e bom tom contra esta exclusão.  Esta é, na sua opinião,  uma verdadeira paródia face ao  conceito da unidade nacional, disse, e é em si mesmo uma violação da “liberdade de expressão,” que a grande manifestação  tinha como objectivo reafirmar. Acusou a elite política “de uma cobardia surpreendente” para isolar “o único movimento político que não tem, nem ele nem igualmente os  seus milhões de eleitores, nenhuma responsabilidade na situação actual.”

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