A GOVERNANÇA ECONÓMICA EUROPEIA E AS SUAS ANÁLISES TENDENCIOSAS E ERRADAS – por RONALD JANSSEN – III

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Selecção, tradução, introdução e notas por Júlio Marques Mota 

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A Governança Económica Europeia  e as suas análises tendenciosas e erradas

Ronald Janssen, European Economic Governance And Flawed Analysis – Getting Stupid Capital Flows Off The Hook

Social Europe, 16 de Março de 2015

(CONTINUAÇÃO)

E  afinal era mesmo  necessário criar um enorme espaço europeu que fosse a cópia da parte mais pobre da China, onde a falta de direitos e os salários ao nível da fome eram uma necessidade para a sobrevivência do próprio espaço  se poder defender exactamente dos produtos baratos vindos da China e assim  fazer convergir a oferta, a produção, com a procura de produtos de baixo preço para compensar a baixa dos salários reais! Vejamos o que nos dizem os quatro Pinóquios:

“Contra este pano de fundo, durante a primeira década da existência do euro, o custo do trabalho (medido em custos laborais unitários) cresceu significativamente num dado  número de países da área do euro, tornando os seus produtos mais caros, desse modo reduzindo a sua competitividade e levando a um saldo negativo na balança de  pagamentos vis-à-vis de  outros países da zona euro que tinham mantido a custo da unidade de trabalho estável ou os tinham  mesmo reduzidos.

Isto levou a que se tenham verificado  taxas mais elevadas de  desemprego durante a crise (ver gráfico 4). Além disso, as condições de financiamento relativamente favoráveis nos primeiros anos do euro levaram a uma má alocação de fontes de financiamento para formas menos produtivas de investimento, tais como a construção de imóveis e a um maior risco e endividamento de muitos actores públicos e privados. Quando a crise atingiu a zona euro e os mercados reavaliaram  o risco e o potencial de crescimento de cada um dos países, a perda de competitividade tornou-se visível e levou a saídas dos capitais, as fontes de financiamento, que eram fortemente necessários  para o investimento, intensificando, assim, ainda mais o impacto da crise nestes países. Enquanto várias partes interessadas a nível europeu tivessem  avisado sobre tais desenvolvimentos, a estrutura de governança da altura não forneceu nenhuma sistemática  detecção e correcção dos desequilíbrios e, portanto, não pode impedir que estes se acumulassem [perigosamente].”

Há muito desemprego? Baixem-se os salários. Eis de novo as razões da Troika acima  bem expressas. E comparem-se os custos salariais unitários alemães com os dos restantes países, mesmo que não haja nenhuma concorrência  de produtos entre estes países  e os alemães. Mas isto já não interessa. O que interessa é a mensagem que se pode tirar da evolução ao longo dessas ditas curvas, é o que  nos dizem! Desmantelar os mercados de trabalho, eis poisa palavra de ordem dos nossos quatro Pinóquios  e é o  que tem procurado a Troika em Portugal, é o que querem fazer a França com a lei Macron e a Itália com a lei Jobs Act!

Mas agora tudo bem, ou tudo irá bem, os capitais calculam bem o risco país. Vamos na boa rota e viva a liberdade de movimentos capitais. Intocável em toda a análise da crise feita pelos nossos 4 Pinóquios:

“Por último, mas não menos importante, a crise também pode ser considerada como  uma crise dos mercados em termos de sua capacidade de estabelecer correctamente  o risco-país. Enquanto o Tratado de Maastricht estava baseado no pressuposto de que a disciplina de mercado seria um elemento chave na  prevenção de um desenvolvimento divergente das economias da zona  euro e das suas posições orçamentais, com o aumento das taxas de juros sobre os títulos da dívida pública  a terem o efeito  de sinalização, isto não era a realidade da zona  euro a partir de 1999 até  2008. Em vez disso, os investidores trataram a  zona euro como um todo,  sem levarem em conta a diferença quer quanto à evolução das economias quer quanto aos diferença nos riscos financeiros por país. A crise fez com que estas divergências ficassem transparentes; a reavaliação dos riscos que se seguiu levou,  então,  a que  as taxas de juros para certos países da zona euro fossem  bem superiores às  de alguns países em desenvolvimento“

Ainda eu na semana passada pensava que os maiores mentirosos sobre a tragédia  europeia  eram os socialistas franceses, Enganei-me portanto na carta supostamente dirigida ao nosso Primeiro-ministro. Os maiores mentirosos começam por ser os quatro Presidentes das Instituições Europeias. A prova está apresentada. Desse engano, peço publicamente desculpa.

Sobre tudo isto, um artigo notável de Ronald Janssen, é o texto que se segue.

(continua amanhã, com a continuação do texto de Ronald Janssen, já iniciado na parte I deste trabalho. Ver em http://aviagemdosargonautas.net/2015/03/26/a-governanca-economica-europeia-e-as-suas-analises-tendenciosas-e-erradas-por-ronald-janssen-i/)

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Ver o original em:

http://www.socialeurope.eu/2015/03/european-economic-governance-and-flawed-analysis/

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Para ler a parte II deste trabalho de Ronald Janssen (introdução de Júlio Marques Mota), publicada anteontem, 26 de Março, em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A GOVERNANÇA ECONÓMICA EUROPEIA E AS SUAS ANÁLISES TENDENCIOSAS E ERRADAS – por RONALD JANSSEN – II

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