LEONOR E O SENHOR ANTONINO
(Os nomes dos personagens são fictícios, os lugares e as situações não!)
Leonor, trinta e oito anos, mas a parecer ter muito menos, não teve uma vida fácil. Passou privações, inclusivamente fome, muita falta de dinheiro e carência de afectos. Na maior parte das vezes, vê-se transparente, já que ninguém repara nela ou no que faz, desde que faça tudo como é de costume. O emprego, mal pago para as atribuições e as competências que tem, não lhe dá satisfação alguma, e do que ganha, tudo é sorvido pelas ajudas que dá a familiares e para as despesas correntes. Muito pouco ou nada sobra para os seus “alfinetes”.
Naquele dia, num Sábado de tarde, cansada da vida e das dificuldades, resolveu ir até à zona dos Clérigos dar-se um mimo e esquecer os problemas que quotidianamente a afligem.
A zona dos Clérigos, agora muito bem arranjada é, nesta altura, um dos locais mais badalados da cidade que, arrebatada e impetuosa, corre descomedida para uma evolução que poderá raiar a descaracterização do que sempre foi a sua essência, e lhe trouxe o reconhecimento externo.
Leonor passeou, olhou montras, viu gente às centenas, percorreu as bancas do mercado que nesses dias funciona na rua Cândido dos Reis, foi interpelada variadíssimas vezes pelos vendedores, quase sempre em Inglês (já poucos se dão ao trabalho de assumir que os visitantes possam ser Portugueses), comprou umas bugigangas e dirigiu-se para o café Costa, no passeio dos Clérigos. É um sítio caro para os rendimentos dela, mas Leonor merecia dar-se aquele presente. Comprou um cacau e um “muffin” e foi sentar-se numa mesa. Virou-se para o lado de fora do café. Assim, poderia ver as pessoas.

Antonino, cinquenta e oito anos, mas por causa das maleitas de uma vida, a parecer ter já muito perto de setenta, também não teve uma vida fácil, especialmente desde que a mulher lhe morreu de uma doença prolongada, o filho se ausentou para parte incerta e ele adoeceu e perdeu o emprego e mais tarde a casa onde vivia. Agora vive num quarto exíguo de um quinto andar sem elevador, na Rua das Taipas, com serventia da casa de banho e direito a um banho completo por semana. A senhoria, uma boa alma, aluga-lhe o quarto por setenta e cinco euros, uma pechincha que já há alguns meses ele se vê impossibilitado de pagar, e dá-lhe diariamente uma malga de café com leite e um pão. Antonino recebia o rendimento mínimo, que desaparecia quase por completo na farmácia. O que lhe sobejava servia para ajudar dois sem abrigo que dormem ali perto e para comprar alguma comida. Mas tudo isso acabou já há algum tempo, demasiado tempo. Roupa, é a que lhe dão, e limpeza é a que se vê. Comida, só de vez em quando se acrescenta ao pão matinal da senhora Miquinhas, e da sopa que consegue arranjar numa das instituições da cidade.
Passa os dias com relativa fome. O que consegue arranjar para comer não chega para uma alimentação razoável. Por isso, nos dias mais complicados, vai até aos Clérigos, pedir alguma coisita. Não pede dinheiro, pede comida. Naquele Sábado, um dia ainda mais complicado do que de costume (não tinha conseguido ir comer a sopita na instituição), com o estômago a dar voltas e a roncar, foi até lá.

Torre dos Clérigos
Leonor olhava sem ver, mergulhada nos seus pensamentos, quando reparou num velho que abordava as pessoas e pedia. Após algum tempo, reparou que pedia comida. Reparou também que as pessoas fugiam, afastavam-se, fingiam não o ver, olhavam-no até, com alguma repugnância. O olhar do velho, magro e com ar de doente, era triste. Nele não se via revolta, só resignação. A certa altura, dirigiu-se a uma mesa, desocupada mas ainda com os restos de comida que alguém ali deixara, e quase com sofreguidão começou a comer o que lá estava. O segurança do espaço acercou-se dele e mandou-o embora.
Foi a gota de água para Leonor. Levantou-se, foi ao balcão, comprou um cacau e alguns bolos e levou-os para o exterior do café. Chamou o velho e sentou-o numa mesa pondo-lhe a comida à frente. O olhar do velho era só ternura e agradecimento.
– Ele está a incomodá-la, menina? – ouviu-se, dito pela voz forte do segurança.
– O que está aí a fazer? – voltou a dizer, dirigindo-se ao velho
– Fui eu quem o chamou, está a comer. Não pode? A comida está paga! – disse Leonor já com voz irritada.
O segurança, que por certo estaria a cumprir ordens, afastou-se, mas não muito, ficando a poucos metros a olhar para a cena.
Leonor, disse ao velho para sossegar, que ninguém o tiraria dali sem que acabasse de comer, e afastou-se, não deixando de, por algum tempo, estar nas imediações, não fosse alguém incomodar o velhote. Talvez pela sua presença continuada, tal não chegou a acontecer.

O Porto de antigamente não era assim. Claro que sempre houve quem ignorasse a mendicidade, quem desse esmola para apagar remorsos, ou quem resolvesse esconder os pobres, “que são feios”. Mas nunca como agora.
Nas últimas dezenas de anos, vimos crescer num galopar desenfreado, o egoísmo, o egocentrismo, e muitos outros defeitos das sociedades chamadas modernas.
As pessoas tornaram-se insensíveis ao sofrimento alheio, olhando só para o respectivo umbigo. A solidariedade já não faz parte do modus vivendi do actual animal citadino. Com honrosas embora poucas excepções (no Porto, há várias instituições que se dedicam a ajudar quem mais precisa), só a vemos entre as classes mais desfavorecidas economicamente, e entre as pessoas mais velhas. Os outros, em especial as gerações com idades inferiores aos cinquenta anos, são educados para passarem por cima de quem lhes estiver à frente, a ignorarem o sofrimento alheio e a esconderem os sentimentos que ainda, porventura, possam ter.
Dizem que faz parte da evolução. Eu digo que faz parte do retrocesso.
NOTÍCIAS DA SEMANA


Excelente crónica – muito realista e colocando uma situação que infelizmente acontece na nossa cidade.
No entanto, também assustador são “os novos pobres” (nos anos 90 do séc. passado),eram “os novos
ricos”…Parabéns!
Interessante este deambular pela cidade -Leonor dá-nos a visão de como a cidade do Porto conhece a diferença de um Porto dos novos tempos já sem aquela beleza genuina -Maria
Excelente crónica José!
O Porto está com preços para turistas, uma triste realidade para os Portugueses.