OS MAUS ALUNOS DA AUSTERIDADE – A GRÉCIA, A ESPANHA, PORTUGAL JÁ NÃO QUEREM JOGAR O JOGO DA AUSTERIDADE. – de JÉRÔME LEROY

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Os maus alunos da austeridade -A Grécia, a Espanha, Portugal já não querem jogar o jogo da austeridade.

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Jérôme Leroy, Les mauvais élèves de l’austérité – Grèce, Espagne, Portugal ne veulent plus jouer le jeu

Revista Causeur.fr, 28 de Maio de 2015

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Sente-se efectivamente, mesmo assim, que há ainda sinais de vida na Europa. A Grécia com Syriza, a Espanha com Podemos, amanhã,  sem dúvida, Portugal. Sem estar a contar, na Irlanda, os progressos eleitorais constantes do Sinn Fein. A partir daqui, falar de uma primavera da esquerda radical, é apenas um passo. Uma andorinha progressista em Atenas ou Barcelona não faz a primavera. Mas, mesmo assim: o capitalismo e a sociedade de mercado em que este se traduz não parecem universalmente estar a convencer toda gente, todos os países, todos os povos de que a saída é trabalhar mais e ganhar menos: mais tempo de trabalho  à escala de uma vida enquanto que os ganhos de produtividade nunca foram tão grandes e também nunca foram  tão mal redistribuídos, não seria sob forma de tempo livre como o recomendava já Paul Lafargue no seu Direito ao preguiça, e este texto tem mais de … cem anos.

O mais notável, sem dúvida, no que diz respeito à Grécia, à Espanha e a Portugal, é também este desejo escapar ao tacão de ferro sem, no entanto, confiar o seu destino a partidos populistas de extrema-direita, que se enganam mais ou menos conscientemente de inimigos,  atribuindo todas as desgraças à uma imigração largamente favorecida pela própria mundialização. É que cada um destes três países tem ainda uma data recente na  memória. Portugal teve que esperar pelo 25 de Abril de 1974 até que  os capitães de Abril com cravos vermelhos nos cano das suas espingardas e nos seus carros de assalto pusessem um fim à mais velha ditadura da Europa ocidental. Para a Espanha, a transição democrática pôde na verdade começar apenas a 20 de Novembro de 1975 com a morte de Franco, que tinha instalado o seu reino em 1939, depois de uma guerra civil que construiu a nova Espanha massacrando dezenas de milhares de combatentes republicanos.

Quanto aos Gregos, depois de uma efémera tentação pelos neonazis de Aurora Dourada, lá também a memória voltou a dar-lhes significado e muito rapidamente dado que entre 1967 e 1974, a ditadura dos Coronéis, com o apoio activo da CIA, tinha colocado no poder uma junta também ela tão incompetente quanto feroz, mas profundamente anticomunista, o que justificava mais ou menos tudo o que ela fizesse, incluindo a chacina da Escola Politécnica, aos olhos do amigo americano. Sim, decididamente, quando se teve conhecimento dessa chacina e que se quis virar a situação, deve-se pensar duas vezes antes de confiar este objectivo à extrema direita, mesmo que engalanada de um discurso anti-sistema.

Mas para além desta memória histórica, pode-se também pensar que estes países são os primeiros a sentir as contradições próprias ao sistema capitalista, incluindo na sua última mudança, a da financeirização. A Grécia, a Espanha e Portugal e até mesmo a Irlanda provaram na sua carne a contradição kafquiana consistindo em viver sob um regime sempre e sempre cada vez mais austeritário que quer restaurar uma economia sã contraindo a procura, e por conseguinte, quera retoma eliminando qualquer possibilidade dessa mesma  retoma da economia. Dois relatórios recentes vêm confortar esta intuição. O primeiro emana da OCDE que não é francamente uma centro de divulgação das teses comunistas: este organismo confirma o crescimento depois de 30 anos das desigualdades “chegadas a um ponto crítico” nos 34 países que compõem esta organização. Os rendimentos dos 10 % mais ricos é hoje 9,6 vezes mais elevado que o dos 10 % mais pobres. Nos anos 1980, este multiplicador era de 7. A OCDE é composta sobretudo pelos países mais desenvolvidos e defende a aplicação unicamente de políticas unicamente neoliberais. Os seus líderes explicam no entanto que as desigualdades seriam más para o crescimento. Isto não impede de modo algum os governos dos países-membros da OCDE de praticarem políticas que aumentam estas desigualdades. Marx, no seu tempo, chamava a isto as contradições do capitalismo. O segundo relatório emana da OIT (Organização Internacional do Trabalho). Esta acaba de publicar as suas estatísticas sobre o emprego, que se revelam bastante edificantes: indicam que mais de 60% dos trabalhadores no mundo não têm um emprego fixo, e que esta proporção tem vindo de forma constante a aumentar. Sabe-se que Laurence Parisot, que no entanto aparece como quase social em relação ao seu sucessor à cabeça do Medef, teve no entanto esta frase imortal: “A vida, a saúde, o amor são precários, porque é que o trabalho havia de escapar a esta lei? ” Esta questão poderia fazer um muito bom assunto para os exames de filosofia que aí vêm.

Em todo caso, os eleitores gregos e espanhóis já entregaram a sua dissertação sobre o tema. E manifestamente, a Europa de Bruxelas não tem realmente nenhuma vontade de lhes dar a cotação média. Mas então poderá muito bem vir a acontecer que estes países não tenham mais grande coisa a fazer com estes examinadores esquizofrénicos o que é, mesmo assim,  uma boa notícia.

Jérôme Leroy, Redacção da Revista Causeur,  Les mauvais élèves de l’austérité Grèce, Espagne, Portugal ne veulent plus jouer le jeu. Texto disponível em : http://www.causeur.fr/gauche-grece-espagne-portugal-irlande-europe-33032.html

*Photo : Wikimédia commons

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