A PROPÓSITO DE GENTE SEM NADA NOS BOLSOS E POUCO NA VIDA, DE GENTE TALVEZ SEM FUTURO – por JÚLIO MARQUES MOTA – III

júlio marques mota

A propósito de gente sem nada nos bolsos e pouco na vida, de gente talvez sem futuro

Júlio Marques Mota

(CONCLUSÃO)

Vem tudo isto a propósito de um detalhe banal que me aconteceu ontem, aqui, em Coimbra. Final da noite, vou por o lixo, separado. Perto da meia-noite. Estava vento, estava frio. Senti necessidade de colocar um blusão. Num dos sacos levo plásticos e garrafas. Separo as garrafas. Nos outros lixo orgânico e papel. De repente, ouço uma voz de mulher: por favor, quero ir para a Lousã.  Não tenho gasolina, não tenho dinheiro. Por favor, ajude-me.  Olho, vejo uma mulher tensa como tudo, com as palavras como que a enrolarem-se na boca, a não quererem sair, a saírem às golfadas como  se fossem quase soluços. E a saírem de forma convulsa, quase como quem as  estivesse a dizer e a chorar. Na escuridão da noite, nem a cara lhe vi. Deixei cair um dos sacos do lixo e desse saco saltou uma tampa de telemóvel. Ela viu-a, apanhou-a. Olhe, perdeu a tampa do telemóvel, disse-me, ao entregar-se a tampa.

Procuro nos bolsos se tenho dinheiro. Não tenho. Volto a não fixá-la mas quase sem luz e como vejo mal também não a veria bem. Não tenho dinheiro nos bolsos dos meus jeans. Venha comigo, moro aqui perto. Não tenha medo, é o  que lhe digo.

O carro ficou no sítio onde estava, um carro velho, um Fiat 124 talvez, do tempo dos avós dela, possivelmente.  O frio apertava. De dia esteve muito calor, vestia à Verão e deparava-se com um frio de Outono rijo. Queixou-se do frio. Fica à porta de minha casa enquanto subo, acrescentei, sempre fica abrigada do vento. Chegado ao prédio, convido-a a ficar no hall de entrada. Sempre fica aqui melhor. digo. Subo e peço dinheiro à minha mulher. Terão volta, perguntou-me. Deixei-me rir[1].

Saio de casa com uma nota de 10 euros na mão. Para se comprar gasolina até à Lousã. À saída do elevador, vejo o casal meu vizinho, do andar direito. Levo os dez euros na mão. Olham para mim e devem estar mais espantados que eu. Vêem-me com uma nota de 10 euros na mão.  Metros atrás, uma  rapariga  no hall de entrada do nosso prédio que nunca viram. E  eu com uma nota na mão! Que pensarão? Nada a não ser que não entendem. O meu vizinho, médico psiquiatra de longa experiência.  deve ter já passado por situações bem mais estranhas que esta. Aí vejo a rapariga que me pediu ajuda. Bem vestida, de roupa simples, bem arranjada, elegante e decentemente exposta, diz-me que trabalha no Fórum e  na empresa y. Trabalhou e fechou o estabelecimento às onze e ia no caminho para a Lousã  quando descobre que não tem gasolina  e não tem dinheiro sequer para a comprar. Nos bolsos, nada. Na vida, seguramente muito pouco, com um trabalho precário, no máximo, ganhará o salário mínimo. Sintomático, o estar sem dinheiro, é gente que se habituou a isso, porque não pode gastar o que não tem. À luz do hall do meu prédio vejo-a agora bem. Uma cara  muito bonita, uma jovem de cerca de 18-22 anos, sobriamente maquilhada. Sobriamente vestida. Vejo-lhe na cara o medo que pressenti na voz. Uma cara muito bonita, uns olhos grandes e escuros, abertos, muito abertos quando cheguei ao pé dela, a mirarem-me bem, uns olhos arregalados que agora viam muito pouco, para além da situação crítica em que se encontrava.

Dou-lhe o dinheiro. Diz-me, fique com o meu número de telemóvel. Se amanhã for até ao centro comercial dou-lhe lá o dinheiro. Se assim não for, passo por aqui à mesma hora, telefono e combino consigo. Telefone-me, que tenho o telefone no carro. Diz-me o número. Di-lo com segurança. Telefonei para o número indicado, fixámos então os números. Saiu.

Terei o dinheiro volta, relembro a pergunta da minha mulher. Vê-lo-ei, tenho a certeza, foi o meu sentimento. Vê-lo-ei amanhã, depois de amanhã ou um outro dia, pensei. Disso estou certo[2]. E de repente, recuo no tempo,  aos anos 80. Estou na estação de Coimbra B. Vejo uma cabo-verdiana aflita, procura por tudo o que é sitio na sua carteira. E nada. Olho-a e sinto o seu olhar perder-se. Estou com dois colegas da Universidade, vamos a Lisboa em serviço. Face àquela aflição estampada na cara, visível na tremura das mãos, fotografável nos olhos, pergunto-lhe se lhe aconteceu alguma coisa. Enganei-me, este comboio é mais caro do que eu pensava. Telefonei para cá a saber o preço. Tenho o dinheiro do comboio mais barato e preciso de estar em Lisboa à hora de chegada. Marido e filhos esperam-me e daqui sabem que já sai para a estação. Estamos no início dos anos 80 e face à capacidade de comunicações de hoje estávamos a uma eternidade de distância. Ofereci-me, empresto-lhe a diferença. E no tempo ainda era dinheiro. Eu pago-lhe, disse-me, juro que lhe pago. Dou-lhe a minha morada. Quer-me dar a dela. Não preciso,  disse-lhe. Confio em si, acrescentei. E a mulher no Alfa seguiu.

Fui gozado pelos meus colegas e de tanso para cima, no mínimo dos mínimos, um cabrito imberbe que foi esfolado na estação  de Coimbra B. Era este adjectivo dado pelo XB.  Esqueci o assunto e cerca de um mês depois, uma carta, um vale de correio, o dinheiro emprestado a uma cabo-verdiana  cujo nome nem sequer sabia, era assim recebido. E acompanhado de um texto muito simples, Obrigado, senhor Júlio. A moral desta história é simples: os pobres não gostam de dever e, como pobres, logo que possam pagam. É assim com as pessoas é assim com os países, foi  assim  com aquela senhora cabo-verdiana, será  assim com esta menina do centro comercial Forum. Seguramente assim. E se assim  não for, o que sinceramente não acredito, perdi apenas 10 euros e garantidamente não perdi a disponibilidade de emprestar outros dez euros, se uma outra situação qualquer do mesmo género se verificar. Mesmo se assim for, temos que admitir que os factos são independentes enquanto tais.  Os pobres gostam de ajudar, os pobres gostam de pagar logo que possam enquanto  os ricos gostam de dilatar os seus prazos de  pagamentos,  é o que a vida me ensinou.

E à escala das nações seria o mesmo com a Grécia, seria o mesmo com a Espanha, seria o mesmo com Portugal. Dêem-lhes condições que estes países pagarão. Não  façam como estão agora a  fazer,  em que  lhes retiram os meios de criarem riqueza ao mesmo tempo que aumentam os meios de pressão para serem pagos. Absurdo,  desumano, é o que nos diz  o Guardian. A roda da História é o que é. Estou certo de que gente como a rapariga de agora sentirão colectivamente que têm direito a mais, serão gente que ganhará força para mudar o mundo, será  gente que irá precisar de que todos nós estejamos no lugar certo, na  hora certa, para os apoiar face à sua revolta contra  o que nós consentimos, para os apoiar face  às suas dúvidas, às suas incertezas e em face também da necessidade de  se evitarem caminhos já percorridos e já falhados. No fundo, para os ajudar a criarem o seu próprio futuro.

Coimbra, 31 de Maio de 2015.

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[1] O raciocínio muito rápido em que baseei a minha decisão de lhe emprestar o dinheiro é simples:  se não “dou” o dinheiro  e estou enganado, porque penso ser a história uma mentira quando esta é  verdadeira,   o custo para ela pode ser muito grande e para mim o custo é nada. Se “dou” o dinheiro e estou enganado, porque penso tratar-se de uma história verdadeira quando é  uma  mentira, perco apenas 10 euros.  A minha perda potencial é sempre muito inferior  à perda potencial dela. Portanto empresto o dinheiro com o risco de ser “dado”. E isto para além de tudo me levar a acreditar que se tratava de uma história verdadeira.

[2] Depois deste texto estar feito, noto no meu telefone uma chamada não atendida. Era dela. Não telefonei até aí, um dia depois, e nunca o faria à procura do dinheiro. Telefonou. Quando puder, telefonar-lhe-ei e, talvez,  o mais provável, é dizer-lhe que dê  o dinheiro a uma instituição de caridade como o Banco Alimentar, por exemplo.

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