Estar à altura dos tempos… estar à altura das circunstâncias… tem significados vários, pode querer dizer coragem física para enfrentar um perigo, coragem moral para respeitar princípios quando seria mais fácil ou proveitoso não o fazer e pode também significar a coragem histórica de perceber o essencial que está em jogo numa decisão que influencia o destino de uma sociedade.
Os políticos distinguem-se pela coragem histórica. Destacam-se da mediania aqueles que subordinam os princípios que enformam a sua consciência de chefes de partido, de grupo, de fação à consciência de responsáveis pelo destino de uma sociedade como um todo. Tal como para os grandes atletas, é a noção do momento certo da batida que os projecta para o salto que distingue os grandes políticos dos que constituem a grande massa de vulgares mais ou menos habilidosos, mas sempre medianos.
Estar à altura dos tempos, das circunstâncias é ter a noção da rutura com o que tem sido a norma. Coragem histórica, tiveram os reis João I e João IV, pessoalmente temerosos, homens de baixo bordo, mas que se transcenderam num dado momento. Coragem tiveram, bem perto dos nossos tempos, os homens e mulheres do Conselho de Estado que a seguir ao 25 de abril de 74 votaram o princípio da descolonização e fizeram uma interpretação à altura da História da Constituição de 1933, então ainda em vigor.
Vi uma gravação do debate de Jerónimo de Sousa e Catarina Martins e fui acelerando a gravação à medida que os ia ouvindo. Acabei por obter apenas a confirmação do que esperava. Para os militantes e votantes incondicionais, essa normalidade – essa banalidade – do discurso dos dois políticos deve ter soado a uma agradável e conhecida melodia. Tranquilizou-os. Jerónimo de Sousa e Catarina Martins falaram para os seus. Estiveram à altura deles. Não podem ser acusados de ousados, nem, muito menos, de terem ofendido qualquer princípio do seu grupo. O Partido Comunista e o Bloco de Esquerda têm, reconhecidamente, dois esforçados chefes. Fica a questão de eles estarem, ou não, à altura do que, nos tempos atuais, Portugal e a sociedade complexa que os portugueses constituem necessitam.
Do debate, uma cavaqueira entre um velho operário comunista e uma jovem universitária esquerdista, senti que podia ter ocorrido nos anos 70, na ressaca do maio de 68, expurgado de acusações típicas. Faltou (não ouvi) Catarina Martins classificar Jerónimo de revisionista e este de classificar o esquerdismo como doença infantil.
Para os tempos de hoje, os dois chefes partidários mantiveram a classificação dos partidos socialistas e sociais-democratas de contra-revolucionários, de forças de direita e continuaram a tratá-lo como inimigo principal da revolução popular, pois impede que as contradições sociais sejam acentuadas e que os verdadeiros revolucionários enfrentem o inimigo final. Argumentos do quanto pior melhor de há quase meio século!
Os argumentos de Jerónimo de Sousa e de Catarina Martins assentaram na defesa dos seus feudos eleitorais da contaminação do Partido Socialista. É típico de políticos funcionários. Os argumentos são calistos e contêm a dose de verdade que dota a falácia de eficácia: o Partido Socialista é de direita e fará como sempre tem feito o mesmo que o governo de Passos Coelho. Este argumentário contribui para manter a situação actual, mas esse é um problema dos portugueses em geral, secundário para os líderes dos dois partidos, para quem o objectivo é manter a percentagem de votos e o número de deputados. É o mesmo tipo de discurso de António Barreto, numa entrevista recente. É o mesmo que a constelação de comentadores neoliberais mais sofisticados tem desenvolvido, ao afirmar que qualquer governo fará o mesmo, porque são Bruxelas e a finança (os mercados) que mandam. Sendo assim, porque mudar? Como nem Jerónimo de Sousa, nem Catarina Martins acreditam que os eleitores lhes dêem a maioria para governar, como não fizeram um apelo ao levantamento das massas e à tomada revolucionária do poder, sendo assim, para Jerónimo de Sousa e Catarina Martins é preferível votar na PAF do que no PS, ou em qualquer outra formação disponível para viabilizar com ele uma alternativa. Foi a mensagem subliminar que passaram: firmes e hirtos, imunes ao tempo, como as esfinges, os budas gigantes do Afeganistão, ou o templo de Palmyra, até virem os bárbaros!
Muito bem visto.
Bem Visto!