ANÁLISES SOBRE A CRISE, OLHARES SOBRE A EUROPA, OLHARES SOBRE O CRIME QUE CONTRA ESTA OS SEUS DIRIGENTES ESTÃO A COMETER – PORTUGAL – POR FAVOR, QUANDO SAIR DESLIGUE AS LUZES! – por EDWARD HUGH – V

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Portugal – Por favor, quando sair desligue as luzes!

Edward Hugh, 14 de Julho de 2012

(CONCLUSÃO)

Conclusões: o que é que a seguir irá acontecer mais?

A primeira consequência – Um segundo resgate muito provavelmente

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Considerou-se que Portugal irá regressar aos mercados de títulos no próximo ano. Atendendo às perspectivas para a crise da dívida soberana parece  muito pouco provável que isso  seja possível. Além disso a decisão da Standard and Poor’s  de baixar a notação do país  (a partir de BBB para BB), significa que a sua dívida passou  agora a ser classificada de  sub-investment grade (ou  seja com o estatuto de  “lixo” ) pelas três principais agências de rating de crédito. Em termos práticos a baixa de notação  levou a uma redução na base dos potenciais investidores no  país, uma vez que muitos fundos de investimentos e fundos do mercado monetário estão agora indisponíveis para  terem ou para manterem títulos da dívida portuguesa, enquanto, por outro lado,  as instituições financeiras residentes não podem  assumir a responsabilidade sozinhas.

Por outro lado os mercados têm recuado na sua postura agressiva do início deste ano, e os rendimentos dos títulos caíram substancialmente. Uma conclusão que pode ser razoavelmente ser feita aqui é a de que estes  não estão a considerar qualquer  envolvimento do sector privado , Private Sector Involvement (PSI),   em nenhum  tipo de reestruturação da dívida e em nenhuma  revisão do programa durante o próximo futuro previsível. E isto parece perfeitamente realista, uma vez que a verificação de um  PSI em Portugal  é muito improvável neste momento. O que é mais provável é a reestruturação da dimensão e da duração (e possivelmente o custo em termos de juros) dos actuais empréstimos do sector oficial, juntamente com um pouco de  abrandamento no que se  refere às metas estabelecidas para o défice,  em sintonia com a nova ” austeridade modificada  ” da actual  postura da UE.

As estimativas do valor do segundo resgate financeiro podem variar. Muito provavelmente estamos a falar  de qualquer coisa como cerca de  50 mil milhões de euros com  24,2 mil milhões de financiamento em 2013/14, além de outros 26,9 mil milhões de euros para 2015. E então deve haver algo a permitir o cenário de agravamento económico e  um relaxamento nos objectivos a alcançar quanto ao défice.

Mas aconteça o que acontecer em Setembro, no longo prazo o futuro da dívida portuguesa parece vir a ser muito precário, uma vez que esta está  delicadamente equilibrada  no fio da navalha, e poderia facilmente virar bruscamente no sentido  de um cenário fortemente desfavorável. Então, a hipótese de um PSI, a longo prazo, está longe de ser descartada.

Como diz o FMI na sua terceira revisão do programa, “se o crescimento económico decepciona, as taxas de juros são elevadas ou o esforço orçamental ficar menor do que o previsto no âmbito do programa, a dinâmica da dívida seria então menos indulgente levando a uma relação dívida/ PIB, que ficaria bem acima de 100 por cento dentro de  um  futuro próximo. E a combinação adversa de baixo crescimento, maior taxa de juros e menor saldo primário colocaria a dívida numa trajectória insustentável “.

Eles também sublinham o perigo de que a dívida do sector privado possa necessitar – ao estilo espanhol – de ser apoiada: “Os cenários também mostram que haveria pouco espaço para acomodar a migração de passivos do sector privado para a conta das responsabilidades  do sector público “. Pensemos no que  Manuel Campos Reis acima citado  disse a respeito dos construtores e dos promotores portugueses  e do que pode estar a acontecer  com os balanços dos bancos, no momento em que escrevo este texto.

Ou pense num número significativo de empresas efectivamente estatais que ainda estão oficialmente classificadas como sendo empresas do sector privado. De acordo com estimativas do FMI, as garantias explícitas para as estatais (incluindo as que estão fora das contas das administrações públicas) representavam entre 10% a 15% do PIB em meados de 2011.

De acordo com o cenário central, da Troika a dívida portuguesa passará de 107,2% do PIB em 2011 para 116,3% do PIB em 2012 e alcançará o seu pico de 118,1% em 2013. A sustentabilidade da dívida deverá ser confirmada a partir de 2014, quando a dívida em relação ao PIB deverá diminuir para 115,8%. A Troika assume que o PIB Português cai 3,0% em 2012 seguido de uma leve recuperação (0,7%) em 2013 e de um salto do crescimento para 2,4% em 2014. Posteriormente, a Troika pressupõe um crescimento real do PIB de 2,0% ao ano e um crescimento do PIB nominal de 4%. Neste contexto  que a Troika espera que Portugal voltará a financiar-se nos mercados financeiros em 2013  e estima que a taxa de juros média para a nova dívida será  de cerca de 4,8% para o período até 2015 inclusive.

edward hugh - XXVII

Em Fevereiro último,  uma equipa  de investigadores do  Citi liderada por Jürgen Michels examinou vários cenários para o crescimento do PIB no período que vai de  2012 a 2016 tomando como base os cenários da Troika  (Veja gráfico acima). Para se ter uma ideia de quão sensível é a trajectória da dívida portuguesa para os parâmetros de crescimento económico, eles estimaram que, em caso de crescimento do PIB fica abaixo do valor estimado como referência entre de 1 ponto percentual e 3 pontos percentuais, a relação dívida / PIB assumiria uma trajectória insustentável, subindo para valores entre 134% e 202% do PIB, respectivamente, em 2020.

Naturalmente, tendo taxas de juro mais altas que as previstas ou tendo significativas transferência de dívida  do sector privado teriam efeitos negativos semelhantes.

Adicionalmente, está a aumentar a juventude altamente formada que abandona o país.

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De acordo com Peter Wise, a escrever no Financial Times, o “primeiro-ministro de Portugal tem sido claro com seus conselhos para as legiões de jovens e de desempregados do seu país. Eles devem-se “mostrar mais esforçados” e “abandonarem a sua zona de conforto”, procurando arranjar trabalho no exterior. Os professores que não consigam arranjar emprego no país devem pensar emigrar para Angola ou para o Brasil”.

O pano de fundo para esta controvérsia, como Peter sublinha, é o aparecimento repentino de Portugal como país de origem para a emigração.

“Na década após Portugal ter preenchido os critérios para aderir ao euro em 1999, a emigração, que tinha servido como uma “válvula de  escape” na economia  durante  200 anos, terá virtualmente parado. Pela primeira vez na sua história, Portugal foi um importador líquido de migrantes. Mas com um número estimado entre 120.000 a 150.000 pessoas a terem no ano passado deixado o país, um país de 10 milhões, a emigração tem estado agora a subir para os níveis de pico de 1960 e de 1970, quando ondas de trabalhadores empobrecidos partiram para o norte da Europa e para as Américas.”

E como ele sublinha, a diferença entre esta migração, a de agora,  e as  anteriores  saídas de camadas da população é que, ao contrário da hemorragia de força de trabalho migrante de outrora que  saia do país, na sua maioria analfabeta,  muitos migrantes de hoje são jovens licenciados com diplomas universitários.

edward hugh - XXX

A perda líquida de capital humano é evidente. O impacto sobre o envelhecimento da população é-o bem menor, mas em breve tornar-se-á evidente quando se pensar em termos de pirâmide da população. Mas quanto ao crescimento económico, o que isto tem a ver com a taxa de crescimento de longo prazo? Não estará um país a cometer um suicídio ao exportar a sua força de trabalho em idade activa quando a longo prazo a sua taxa de reposição da população é superior à sua taxa de fertilidade?

O crescimento económico atrai migrantes e desta forma é também o próprio mercado de trabalho que se se expande, e esta leva a que  aumente a população em idade activa e com ela a taxa de crescimento de longo prazo. Por outro lado, um país que tem uma contracção económica duradoura pode perder população quando o desemprego aumenta (isto é o que está a acontecer agora, conjuntamente, em toda a periferia da Europa), e com a perda da população é a taxa de crescimento potencial que também cai, e com ela é o emprego futuro que também cai. Se não formos cuidadosos isso incentiva mais pessoas a saírem e a situação torna-se claramente circular (sem dúvida isso já aconteceu na Letónia e pelas mesmas razões) com a baixa taxa de crescimento e a  recessão a alimentarem-se mutuamente. Se a idade média das pessoas que abandonam o país é menor do que a idade média da força de trabalho, ou se o nível educacional das pessoas que estão a sair é acima do nível da média da força de trabalho, então a qualidade da sua força de trabalho, e com isso a produtividade potencial também, está em queda. Ao mesmo tempo o problema da dívida torna-se maior já que há menos pessoas a partilhar a dívida.

E fica ainda pior, porque as pessoas menos jovens significa menos formação de agregados familiares (pensemos nesses construtores com as suas casas novas vazias, sem compradores), menos novas famílias, menos crianças e maior insustentabilidade no sistema de saúde e nas  pensões  a longo prazo. Tudo isto é tão óbvio que a única coisa que me surpreende é que não tenho encontrado nenhuma qualquer avaliação sobre este fenómeno em nenhum documento da TROIKA.

Alguns dirão que estes movimentos são bons, uma vez que se considere que a Europa precisa de mais flexibilidade no mercado de trabalho. Para que eu dissesse que sim, que o argumento possa ser considerado como válido, há uma dificuldade, e esta dificuldade é a de ainda temos os estados-nação que se espera estejam a ser auto-sustentáveis​​, de modo a que as contribuições para as pensões são pagas   num só lugar, enquanto as pessoas mais velhas   podem estar à espera de receber as pensões num  outro lado . Naturalmente, se a Europa fosse como o são os Estados Unidos nada disto seria um problema – mas esta não o é!

Edward Hugh, Portugal – Please Switch The Lights Off When You Leave!, texto disponível em http://fistfulofeuros.net/afoe/portugal-please-switch-the-lights-off-when-you-leave/. Texto publicado em 14 de Julho de 2012.

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Para ler a Parte IV deste trabalho de Edward Hugh, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

ANÁLISES SOBRE A CRISE, OLHARES SOBRE A EUROPA, OLHARES SOBRE O CRIME QUE CONTRA ESTA OS SEUS DIRIGENTES ESTÃO A COMETER – PORTUGAL – POR FAVOR, QUANDO SAIR DESLIGUE AS LUZES! – por EDWARD HUGH – IV

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Ver o original no blogue de Edward Hugh acedendo a:

http://edwardhughtoo.blogspot.pt/2012/07/portugal-please-switch-lights-off-when.html

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