O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 12. PORQUE É QUE OS ÁRABES NÃO NOS QUEREM NA SÍRIA, por ROBERT F. KENNEDY, JR. – III

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Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota 

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Porque é que os árabes não nos querem na Síria

Kennedy - III

Robert F. Kennedy, Jr., Why the Arabs Don’t Want Us in Syria,

Politico Magazine, 22 de Fevereiro de 2016

(CONTINUAÇÃO)

A União europeia, que obtém 30% do seu gás da Rússia, desejava também ardentemente este pipeline que teria permitido aos seus Estados membros uma energia a baixo custo e tê-los-ia aliviado da influência económica e política asfixiante de Vladimir Putin. A Turquia, o segundo mais importante cliente do gás russo, tinha particularmente interesse em pôr um fim à sua dependência para com o seu antigo rival e ocupar a lucrativa posição de hub transversal entre as energias asiáticas e os mercados europeus. O pipeline qatari teria possibilitado à monarquia sunita conservadora da Arábia Saudita assumir uma posição na Síria dominada pelos chiitas. O objectivo geopolítico dos sauditas é de limitar o poder económico e político do principal adversário do reino, o Irão, um Estado chiita e um aliado vizinho de Bachar el-Assad. A monarquia saudita considerava a tomada de poder pelos chiitas no Iraque, apoiada pelos Estados Unidos (e mais recentemente o fim do embargo comercial contra o Irão) como uma regressão do seu estatuto de potência regional e estava já envolvida numa guerra por procuração contra Teerão no Iémen, o que foi posto à luz do dia pelo genocídio perpetrado pelos Sauditas contra o tribo Houthi, que é apoiada pelos Iranianos.

Naturalmente, os Russos, que vendem 70% das suas exportações de gás à Europa, consideravam a construção do pipeline turco-qatari como uma ameaça existencial. Do ponto de vista de Putin, o pipeline do Catar é um complot da NATO para alterar o status quo, privar a Rússia da sua única implantação ao Médio Oriente, estrangular a economia russa e pôr fim à influência que exerce sobre o mercado energético europeu. Em 2009, Assad anunciou que não assinaria o acordo que permitiria ao pipeline atravessar a Síria, “para proteger os interesses do nosso aliado russo.”

Assad tornou ainda mais furiosos os monarcas sunitas do Golfo aderindo “a um pipeline islâmico” aprovado pelos Russos, atravessando a Síria desde o lado iraniano do campo do gás até aos portos do Líbano. O pipeline islâmico faria do Irão chiita, e não do Catar sunita, o principal fornecedor do mercado europeu da energia e aumentaria consideravelmente a influência de Teerão no Médio Oriente e no mundo. Israel estava, de maneira compreensível, igualmente determinado a fazer descarrilar o projecto do pipeline islâmico, que enriqueceria o Irão e a Síria e reforçaria sem dúvida os seus submarinos, Hezbollah e o Hamas.

Telegramas confidenciais e relatórios dos serviços americanos de informação, sauditas e israelitas mostram que a partir do momento em que Assad rejeitou o pipeline qatari, as instâncias de decisão do exército e dos serviços secretos puseram-se rapidamente de acordo sobre o facto que fomentar um levantamento sunita na Síria para derrubar o pouco cooperativo Bachar el-Assad era um meio viável para atingir o objectivo comum de estabelecer uma ligação do gás entre o Catar e a Turquia. De acordo com Wikileaks, em 2009, imediatamente depois de Bachar el-Assad ter rejeitado o pipeline qatari, a CIA começou a financiar grupos de oposição na Síria. É importante notar que isto é bem antes do levantamento contra Assad, desencadeado pela primavera árabe.

A família de Bachar el-Assad é alauita, de um grupo muçulmano largamente reconhecido como alinhado sobre as posições chiitas. “Bachar el-Assad não era suposto vir a ser Presidente,” disse-me o jornalista Seymour Hersh numa entrevista. “O seu pai fê-lo regressar da Faculdade de medicina em Londres quando o seu irmão mais velho, o herdeiro suposto, morreu num acidente da estrada.” Antes do começo da guerra, de acordo com Hersh, Assad tomava medidas para liberalizar o país. “Tinham Internet, jornais, distribuidores de notas de e banco e Assad queria aproximar-se do Ocidente. Depois do 11 de Setembro, deu à CIA milhares de processos inestimáveis relativos a djihadistas radicais que considerava como inimigos comuns.” O regime Assad era deliberadamente laico e a Síria era incrivelmente diversa.

O governo e o exército sírio por exemplo eram constituídos por 80% sunitas. Assad mantinha a paz entre as diferentes populações graças a um exército forte, disciplinado e leal à família Assad, uma fidelidade assegurada por um corpo de oficiais estimado da Nação e muito bem remunerado, um serviço de informação friamente eficaz e uma inclinação para a brutalidade que, antes da guerra, era bem moderada em comparação com os de outros líderes do Médio Oriente, e nestes últimos estão os nossos aliados atuais.” De acordo com Hersh, “ seguramente não decapitava pessoas em cada sexta-feira como o fazem os sauditas em Mecca. ”

Outro jornalista experiente, Bob Parry, faz eco a esta constatação. “Ninguém na região tem as mãos limpas, mas em matéria de tortura, assassinatos de massa, [supressão] de liberdades civis e apoio ao terrorismo, Assad é bem melhor que os sauditas.” Ninguém pensava que o regime seria susceptível de ser afectado pela anarquia que rasgou o Egito, a Líbia, o Iémen e a Tunísia. Na primavera 2011, houve pequenas manifestações pacíficas à Damasco contra a repressão pelo regime Assad. Eram sobretudo eflúvios da primavera árabe que se tinham espalhado de maneira viral nos países da Liga Árabe no verão precedente. No entanto, as comunicações de Wikileaks indicam que a CIA estava já sobre o terreno na Síria.

Mas os reinos sunitas que tinham imensos petrodólares em jogo queriam uma participação muito mais importante dos Estados Unidos. No dia 4 de Setembro de 2013, o secretário de Estado John Kerry declarou durante uma sessão do congresso que os reinos sunitas se tinham oferecido para pagar a factura de uma invasão americana da Síria destinada a derrubar Assad. “Com efeito, alguns disseram mesmo que se os Estados Unidos estivessem prontos para fazer as coisas em grande, como já o tínhamos feito algures [Iraque], pagariam os custos.” Kerry reiterou a oferta à Republicana Ileana Ros-Lehtinen (Florida): “A propósito da oferta dos países árabes de assumir os custos [de uma invasão americana] para derrubar Assad, a resposta é absolutamente sim, propuseram-no. A oferta está sobre a mesa.”

Apesar da pressão dos Republicanos, Barack Obama recusou-se a comprometer jovens Americanos para irem morrer como mercenários a soldo de um conglomerado de pipeline. Obama ignorou sabiamente os Republicanos que reclamam abertamente que se enviassem tropas para a Síria ou então que se aumentassem os fundos dados aos “ insurrectos moderados.” Mas no final de 2011, a pressão dos Republicanos e dos nossos aliados sunitas forçaram o governo americano a entrar em liça.

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O Presidente dos Estados Unidos Barack Obama | Mark Wilson/Getty Images

Em 2011, os Estados Unidos juntaram-se à França, ao Catar, à Arábia Saudita, à Turquia e ao Reino Unido para constituir os amigos da coligação síria “que exige oficialmente a partida de Assad. A CIA forneceu 6 milhões de dólares à estação de televisão Barada, uma cadeia de televisão britânica, para produzir emissões que exortam à substituição de Assad. Documentos dos serviços de informação sauditas, publicados por Wikileaks, mostram que em 2012, a Turquia, o Catar e a Arábia Saudita armavam, treinaram e financiavam combatentes djihadistas sunitas radicais da Síria, do Iraque e de outros lugares para derrubarem o regime Assad aliado dos chiitas. O Catar, país que tem mais a ganhar no negócio, investiu 3 mil milhões na criação da insurreição e convidou o Pentágono a treinar os insurrectos nas bases americanas no Catar. De acordo com um artigo de Seymour Hersh de Abril de 2014, as entregas de armas da CIA eram financiadas pela Turquia, pela Arábia Saudita e pelo Catar.

A ideia de fomentar uma guerra civil entre sunitas e chiitas para enfraquecer os regimes sírios e iranianos com o objectivo de manter o controlo sobre os fornecimentos petroquímicos da região não é uma ideia nova na terminologia do Pentágono. Um relatório altamente preocupante da RAND financiado pelo Pentágono tinha proposto em 2008 um plano preciso do que iria rapidamente passar-se. Este relatório nota que o controlo do petróleo e do gás do golfo Pérsico permanecerá nas mãos dos Estados Unidos “uma prioridade estratégica” que “tenha relações estreitas com a ideia de se prosseguir a guerra num tempo longo.” RAND recomenda o uso “de acções clandestinas, operações de informação, de guerra não convencional ” para impor uma estratégia “de dividir para reinar melhor.” “Os Estados Unidos e os seus aliados locais poderiam utilizar os nacionalistas djihadistas para lançar campanhas por procuração” e “os líderes americanos poderiam também escolher tirar vantagens lucro de um conflito chiitas-sunitas prolongado tomando partido pelos regimes conservadores sunitas contra os movimentos autonomistas chiitas no mundo muçulmano… eventualmente apoiando os governos sunitas autoritários em face de um Irão continuamente hostil.”

Como previsto, a reacção excessiva de Assad a esta crise fomentada por potências estrangeiras – libertando barris de explosivos sobre os bastiões sunitas e matando civis – polarizou a divisão sunitas/chiitas e permitiu aos líderes dos Estados Unidos vender aos Americanos a ideia que esta batalha dos gasodutos era uma guerra humanitária. Quando os soldados sunitas do exército sírio começaram a desertar em 2013, a coligação ocidental armou o Exército Sírio Livre para desestabilizar mais a Síria. O retrato feito pela imprensa do Exército Sírio Livre como composto de batalhões sólidos e coesos de sírios moderados era delirante. As unidades dissolvidas agrupavam-se em centenas de milícias independentes, da maior parte comandadas ou aliadas à militares djihadistas, que eram os combatentes mais empenhados e mais eficazes. No mesma altura, os exércitos sunitas de al-Qaïda no Iraque atravessavam a fronteira entre o Iraque e a Síria e uniam as suas forças à dos batalhões de desertores do Exército Sírio Livre, dos quais um bom número era treinado e armado pelos Estados Unidos.

Apesar do retrato largamente difundido nos meios de comunicação social do árabe moderado que luta contra o tirano Assad, os estrategas da informação dos Estados Unidos sabiam à partida que os seus agentes pró-gasoduto eram djihadistas radicais que criariam provavelmente um califado islâmico completamente novo nas regiões sunitas da Síria e do Iraque. Dois anos antes que os degoladores do ÉI aparecessem em cena, um relatório de sete páginas, realizado Defense Intelligence Agency dos Estados Unidos e obtido pelo grupo de direita Judicial Watch, alertava sobre o facto que graças ao apoio em curso dos Estados Unidos e da coligação sunita aos djihadistes sunitas, “os salafistas, os Irmãos Muçulmanos e de AQI (hoje o ÉI) são as principais forças que comandam a revolta na Síria.”

(continua)

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Ver o original em Politico clicando em:

http://www.politico.com/magazine/story/2016/02/rfk-jr-why-arabs-dont-trust-america-213601#ixzz48H4NH66J

 

Ver a Parte II deste artigo de Robert F. Kennedy, Jr., publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clicando em:

O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 12. PORQUE É QUE OS ÁRABES NÃO NOS QUEREM NA SÍRIA, por ROBERT F. KENNEDY, JR. – II

Ler a introdução de Júlio Marques Mota, publicada anteontem em A Viagem dos Argonautas:

O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 12. PORQUE É QUE OS ÁRABES NÃO NOS QUEREM NA SÍRIA, por ROBERT F. KENNEDY, JR. – a introdução de JÚLIO MARQUES MOTA

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