De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora. Uma outra série de textos. Por Júlio Marques Mota

 

De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora: Uma outra série de textos

júlio marques motaPor Júlio Marques Mota

 

Dedico esta série à M. Abreu que me levou no coração a Fátima, intenção que respeito e agradeço e dedico-a também aos amigos que comigo refletiram sobre o texto de 2 de Maio. São eles, R. Namorado. A.G. Marques, J. Feio, C. G. Pinto, F. G. Tavares, H. Costa, V. Nogueira.

No dia 2 de Maio publicou o blog A viagem dos Argonautas um texto meu sobre as Presidenciais intitulado Em torno da segunda volta das eleições em França, uma série de textos intitulada Que fazer: escolher Macron, escolher Martine Le Pen ou escolher não escolher? Tratava-se de um texto doloroso no qual me prenunciava sobre o meu voto virtual, que era de preferência a abstenção mas onde afirmei que não me repugnaria votar Le Pen no caso de obrigatoriamente ter que escolher um entre os dois candidatos, Marine Le Pen ou Macron. Uma situação virtual portanto.

Curiosamente, a 3 de maio publicava a revista Causeur um artigo de Régis de Castelnau intitulado Presidenciais: a armadilha Macron – Pen: Porque é que estamos num tempo difícil com um subtítulo: três razões para não ir votar na segunda volta, onde se afirmava:

Aude Lancelin tinha denunciado “um golpe de Estado mediático”, pelo qual o CAC 40 teria escolhido um candidato diretamente procedente das suas fileiras. Não partilho esta análise que é apenas parcial, a operação tem várias facetas, e o grande capital arranjou-se com a escolha da “ noblesse d’État ” depois de se ter inicialmente inclinado a favor de Alain Juppé. Tudo isto é inquietante para a sociedade francesa, em que a querem brutalmente conduzir numa direção que esta, no entanto, recusa maioritariamente. Não devemos deixar a esta operação que constituiria um precedente letal para a República, nem sequer um vislumbre que seja de legitimidade. E entre as duas garras da armadilha, a de Macron é provavelmente a prazo, a mais perigosa para a França.

Por isso não iria votar em 7 de maio.”

Mais precisamente afirmei no texto de 2 de maio:

“No fundo, estamos todos de acordo que Macron não serve. A grande diferença é que os meus três amigos defendem que se vote Macron porque se impede uma tragédia em França e na Europa enquanto eu digo que votar Macron significa adiar a tragédia, agravar os problemas e ter, depois, uma tragédia bem maior.

Mas dir-me-ão que fujo à questão, uma vez que não respondo à pergunta: se estivesse em França, onde votaria? Tenho o direito de escolher não escolher e essa opção seria, do meu ponto de vista, a posição afetiva e intelectualmente mais cómoda. Mas estamos aqui como a Alice no país das Maravilhas, em que escolher não ir para lado nenhum é ainda escolher ir para algum lado, mesmo que este lado seja nenhures, seja estar onde está. Esta é a opção tomada por Jerôme Leroy num artigo intitulado Escolher não ter de escolher porque com a segunda volta temos como opção o mundo absurdo de Kafka e do Processo ou o mundo de Orwell e de 1984.

Esta é uma opção que poderia tomar, deixando então aos outros o poder de decidirem por mim, mas não é, logicamente, a única.

Do meu ponto de vista e por razões equivalentes, se bem que simétricas, às que levaram o António Gomes Marques a afirmar que votaria Macron, hoje, eu diria que engoliria um hipopótamo mas poderia votar Le Pen, em nome da queda do euro, passo necessário embora não suficiente, longe disso, para se sair da crise atual. Não há saída da crise possível sem a queda do euro e não haverá queda do euro se não sair primeiro um grande país. A Grécia aí está a mostrá-lo à evidência.”

Este texto deu origem a uma série de comentários de amigos, alguns deles com análises profundas sobre o mesmo tema. São análises que mereceriam serem tratadas no seu conjunto, dada a relevância do que está em análise: o neoliberalismo, a Europa e a Democracia.  Se pudermos, fá-lo-emos logo que possível. Aliás, a multiplicidade de respostas ou de razões pelas quais se votaria Macron espantou-me, e muito. De resto, é em face disso que me decidi ir um pouco mais a fundo sobre a questão com esta nova série de textos. Se serei bem sucedido ou não, isso se verá depois. Duas coisas são certas. Para quase todos eles, exceto um, Macron seria o candidato menos desagradável e, portanto, o candidato nunca desejável mas imperativamente aceitável, para sermos delicados, enquanto Marine Le Pen, essa, diabolizada, seria a candidata a derrotar. Sejamos um pouco duros e utilizemos aqui as  próprias palavras de Macron:

“Eu sei que muitos vão votar por mim, domingo, 7 de maio, para não terem a Frente Nacional”. (…). “Essa é a natureza de uma segunda volta democrática. “Eu quero expressar-lhes o meu respeito.” (…)

“Eu ouvi os vossos apelos: “Unamo-nos mas esqueçam a reforma do trabalho (a lei Macron e a lei El Khomri,]”, diz ele. “Esse apelo da vossa parte [da esquerda de Mélenchon] é legítimo, alguns fizeram-no passado.” Eu não o farei, não as esquecerei. As francesas e os franceses expressaram-se e escolheram o projeto que promete essas reformas. “Não os irei trair,  negando-lhas!” (…)

“Estas mudanças [as suas reformas] respondem à cólera dos franceses. Elas são a condição para que em cinco anos, não tenhamos a Frente Nacional ainda mais forte, ainda com maior votação” .

As gentes da Frente Nacional “são eles os nossos verdadeiros inimigos, potentes, organizados, hábeis, determinados. Cruzamo-nos com eles nas ruas, nas campanhas, na internet, frequentemente disfarçados, tão odiosos quanto cobardes.”

“São os agentes do desastre, os instrumentos do pior, a extrema-direita francesa aí está ela, com o seu partido da Frente Nacional. Eles esperam e desejam o colapso da situação que atravessamos para se aproveitarem disso”.

“Por tudo isto, rejeito o julgamento democrático que alguns nos querem fazer. Eles afirmam que a escolha a que eles agora estão sujeitos não é uma escolha. Pedem-nos- e eu estou a citá-los – que como eleitores tenhamos de escolher entre a peste e a cólera. Mas é a regra de um processo democrático. A regra é que os dois candidatos mais votados na primeira volta têm o direito de concorrer a segunda! Então eles não podem estar a dar-nos lições de democracia, apelando à vitalidade democrática e de só quererem como uma forma de democracia: aquela em que eles ganhem. Não!

Assim, pois, a batalha é hoje entre os dois projetos selecionados pelos franceses, estritamente opostos. Por um lado, o projeto de uma França patriótica, exigente, reformista, reformadora, eficiente e justa, que traz consigo a mudança e a renovação profunda, para que cada de nós encontre o seu lugar na sociedade, para uma França forte, numa Europa que protege. E por outro lado, o de uma França reacionária, nacionalista, que pratica a cólera do povo para dar como resposta o declínio, o isolamento internacional, o ódio, a saída da França da Europa, do mundo e da História. Porque o que é que nos é proposto hoje pelo candidato da Frente nacional, o que nos é proposto, é a negação do contrato que nos une.”

A diabolização de Marine aí está, com um corolário: ou votam em mim, Macron, ou então terão a apoiar o diabo. Esse raciocínio fizeram-no alguns dos meus amigos. O voto útil em toda a sua extensão: pensem o que quiserem de mim, serei sempre menos mau que a Le Pen. Portanto vota-se no candidato que menos nos desagrada, vota-se Macron!

Na lógica da extensa citação do discurso de Macron proferido a 1 de Maio só há um mundo possível em França, Macron e as suas reformas neoliberais porque a alternativa, essa é o caos. A alternativa é pois simbolizada por todos os que não votam Macron, são portanto os que votam Le Pen, os que se abstêm ou votam em branco, face ao perigo do caos. Todos estes seriam nesse caso os responsáveis pelo caos que se criaria, daí a diabolização de todos estes eleitores que são assim vistos como o braço longo do Demónio, e que é representado por Marine Le Pen, porque direta ou indiretamente estariam ao seu serviço.   Tudo o resto é paisagem e desértica.

O que me espantou nos meus amigos é que ninguém tenha levantado a hipótese de votar NULO, de fazer campanha pelo voto NULO ou pela Abstenção, ou seja, o escolher não ter de escolher, como sublinhava Elisabeth Lévy, diretora da revista Causeur. Isto incomodou-me e procurei estruturar uma série que nos desse a entender o custo terrível dessa opção, de escolher aquele que se odeia menos, para sermos um pouco cáusticos.

Por outro lado, analisando a frio as eleições a partir de autores de referência chega-se à conclusão de que algo vai muito mal na democracia francesa, pois é sentido como comum à esquerda, de que não há memória de se ter descido tão baixo em termos de campanha eleitoral para o mais alto cargo da nação. Diz-nos David Desgouilles, ao comentar o debate televisivo Macron- Le Pen:

“Mas a verdade é que não temos a disposição que nos leva a brincar. Porque deveria ter-se tratado de um debate entre duas personalidades a disputar a magistratura suprema da quinta maior potência do mundo. Em vez disso, assistimos a um espetáculo indigno. Até mesmo um debate transmitido por um canal de notícias em pleno Verão e no horário das onze da noite e entre editorialistas de 3ª categoria teria sido de melhor qualidade.

Este debate esteve à imagem desta “reconstrução de low-cost”, de que aqui descrevemos a implementação. A verdadeira recomposição tinha esperado demasiado tempo. Esta dispunha, na época em que deveria ter acontecido, provavelmente há quinze ou vinte anos atrás, de personalidades à altura, complexas e cultas. Os velhos partidos, agarrados às suas prebendas retardaram-no antes de terem sofrido o enorme fracasso da primeira volta desta eleição presidencial. Nós estamos a colher o resultado: uma feira de invetivas entre dois personagens caricaturais e manifestamente indignos da função presidencial. (…)

Espera-se que a abstenção não seja desencorajada no próximo domingo, depois da repulsa gerada por esta feira de agressões em que cada um defende os seus interesses. Ficamos sem saber qual lado vai ficar mais desmobilizado que o outro. Independentemente de quem que saia vencedor, mesmo se Emmanuel Macron parece ser o mais provável, pode legitimamente perguntar- se então se é razoável enviar-lhe uma maioria para a Assembleia Nacional. Chegámos aqui: ver numa França ingovernável um mal menor. E tudo isso num mundo perigoso. Ontem à noite, eu lembrei-me de Philippe Seguin, pondo há já muito tempo, o diagnóstico sobre a nossa democracia doente e sobre a nossa crise moral. Nós estamos em fase terminal.”

No dia 7 publicámos em A Viagem dos Argonautas um outro texto à hora de fecho das urnas em França, intitulado De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de François Hollande, um olhar crítico. Uma série de textos. Aqui propúnhamo-nos editar uma outra série onde retomaríamos como eixo de análise as eleições francesas. Com ela procuramos saber de onde é que vem este mal francês que atinge a esquerda e que está à beira de poder destruir o maior partido de França situado à esquerda no xadrez político deste país, o Partido Socialista. Procuraremos pois saber ou perceber quais as razões que levaram a esta decadência, a esta fase terminal, e estas vêm de longe, de Fevereiro de 1983, ponto mais alto da tragédia[1] que iremos sintetizar, quando Mitterrand se submeteu ao diktat de Berlim, fazendo a grande viragem à direita, ou seja, renegando praticamente as razões e os apoios que o levaram à Presidência de França, renegando os menos favorecidos, os invisíveis, todos aqueles de que o pais se tinha esquecido, como o declarava Mitterrand. Como assinala Cusset, a Mitterrand “devemos-lhe o abandono das classes populares feito pela esquerda, e o abandono feito por todos da palavra ‘povo’: aquele que dedicava a sua eleição de 1981 aos franceses de fracos recursos, “àqueles que durante toda a sua vida terão esperado pelo dia em que o país finalmente virá ao seu encontro”, rapidamente perdeu o povo, em todos os sentidos da palavra, seja do ponto de vista social, seja do ponto de vista eleitoral.”

A viragem neoliberal é depois retomada por Lionel Jospin em 2002, sendo depois tomada em mãos e fortemente aprofundada, com requintes de cinismo e de malvadez, por François Hollande que chega à Presidência garantindo o crescimento económico e garantindo uma luta sem quartel contra o seu “inimigo”, o capital financeiro e que, no dia seguinte à sua eleição, tomou este, afinal, como o seu grande “amigo”.

A titulo de exemplo, Hollande que se comprometeu a defender a indústria siderúrgica francesa, aprovou o encerramento das unidades siderúrgicas de Florange. Prometeu renegociar o Pacto de Estabilidade e Crescimento, era um dos seus estandartes de campanha, mas desistiu logo no primeiro dia do seu mandato; Prometeu  “inverter a curva do desemprego” antes do final de 2013, ela continuou  a sua violenta subida. Mas do ponto de vista do imaginário coletivo, mais importante que isso está o sentimento de traição gerado a partir de um discurso seu onde ele definia qual seria o seu principal inimigo se fosse eleito Presidente. Disse ele nesse seu discurso de campanha, em 2012, e depois muitas vezes repetido: “o meu único adversário é o mundo da Finança.” Simplesmente, logo que eleito convidou para o palácio do Eliseu e como seu conselheiro um antigo banqueiro de Rothschild e a quem mais tarde entregou a pasta do Ministério da Economia.

É neste contexto que podemos afirmar que a candidatura de Macron é disso um flagrante exemplo, o ponto mais alto da farsa em que se transformou o seu mandato. Com a análise dessa farsa terminaremos pois esta nossa série de textos.

Pois bem é esta série que agora começamos a publicar.

A série decompõe-se em quatro partes:

1ª Parte: Os tempos Miterrand, tempos de inverno

2ª Parte: Os tempos de Lionel Jospin, tempos de vazio

3ª Parte: Os tempos da ascensão de Hollande,  tempos do desprezo

4ª Parte: Os tempos do declínio de Hollande, os da farsa, os da transmissão do poder

Coimbra 14 de Maio de 2017.

Júlio Marques Mota

[1] Por ser o ponto mais alto desta tragédia, depois de acabada esta série, dedicaremos um conjunto de artigos a este momento, o momento onde se questionava ou a obediência a Berlim ou a saída do SME, o momento onde os intelectuais em apoio da viragem clamavam e escreviam E Viva a Crise!

2 comments

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Onde está o meu comentário? Assim vamos mal.CLV

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: