De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora. 1ª Parte: Os anos Mitterrand, anos de inverno. Texto 1.4 – Três críticas dos anos Mitterrand

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

1ª Parte: Os anos Mitterrand, anos de inverno

 Texto 1.4 – Três críticas dos anos Mitterrand

Publicado em 17 de maio de 2011, por CIP-IDF (Coordination des Intermittents et Précaires de l’Île de France)

Três contrapontos à comemoração do 30º aniversário da eleição de Mitterrand em 10 de maio de 1981: o primeiro, escrito durante o desemprego (este momento decisivo do trabalho); o segundo descreve uma história, sensibilidades e ideias; enquanto o terceiro é centrado sobretudo nas utopias concretas que precederam o início destes “anos de inverno” (de acordo com a fórmula de Félix Guattari a propósito dos anos 80).

«Um novo ‘estilo Libération’ feito de renúncia dos valores, de torpor e frequentemente de cinismo, não tem deixado de ganhar terreno [entre as componentes intelectuais ditas de esquerda]. […] Sem que se tenha prestado atenção a estes avisos, instalou-se uma recuperação dos valores tradicionais. E esta recuperação preparou o caminho da revolução de direita que está em vias de se consolidar. E toda esta evolução- o que não deixa de ser picante e desagradável- tem-se desenvolvido num contexto xaroposo de um poder socialista, de bom tom e clássico, ele próprio muito cioso em assegurar a sua imagem de marca junto dos meios financeiros e das oligarquias tradicionais. O resultado aí está: uma massa considerável de abstenções […] uma força fascista em vias de se constituir, a fragmentação da capacidade coletiva de resistência ao conservadorismo, o crescimento em flecha do racismo e de uma entropia mortífera. […]

Somos obrigados a constatar que os socialistas franceses perderam a memória do povo. A maior parte deles não dá sequer à polaridade esquerda-direita nenhum outro sentido que não seja circunstancial. Quem acredita ainda, entre eles, que os oprimidos, em França como no mundo, sejam ainda portadores de um futuro de potencialidades criadoras? Quem acredita ainda na democracia como alavanca de transformação do mundo uma vez que esta nos levaria a ganhar uma tomada de consciência sobre as realidades do nosso tempo? Por não se ter trabalhado a tempo na cristalização de novos modos de sociabilidade articulados com as “revoluções moleculares” que atravessam as ciências, as técnicas, a comunicação, a sensibilidade coletiva, a esquerda deixou passar a ocasião histórica que lhe foi oferecida. Ela empenhou-se numa disputa absurda com a direita sobre o terreno da segurança, da austeridade e do conservadorismo»

-– Felix Guattari, Les années d’hiver. 1980-1985.

 

Após a detenção de DSK em Nova Iorque neste 15 de maio de 2011, a esquerda instituída vê-se potencialmente privada do sucesso esperado para a eleição de 2012. De acordo com as sondagens, ele fazia figura de homem providencial. De novo, exonerar a esquerda de toda e qualquer análise crítica no plano da política seguida e de qualquer balanço parecia pois possível. E com isso a vitória igualmente. Mas o candidato está doravante fora de jogo e a realidade está como a canção: não há salvador supremo.

É ainda mais picante quando nos andam a querer encher os ouvidos com a comemoração do grande homem da esquerda que governa.

Porquê tanto barulho? Será que ninguém se lembra mais que “o momento decisivo de viragem para a política de rigor” é anterior ao bloqueio dos salários de 1983 e que tinha sido primeiramente aplicado aos desempregados…

É com efeito em 1982 que a Unedic é reestruturada sob a égide da CFDT sob a direção de Nicole Notat, com um discurso de legitimação doravante clássico “é mesmo necessário salvar o regime”. Na sequência de uma contra-reforma que faz depender o direito ao subsídio da duração anterior de emprego, a parte dos desempregados não indemnizados no conjunto dos desempregados aumenta ao ponto de se tornar maioritária. O discurso moral reinante indigna-se com o aparecimento “de novos pobres” enquanto se desenvolvem movimentos de desempregados e de precários (uma primeira manifestação importante teve lugar em maio de 1985), que se aliaram para exigir um rendimento garantido. Foram, com os movimentos procedentes da imigração – antes de a organização SOS Racismo ter sido criada para minar qualquer capacidade de auto-organização dos primeiros interessados- com as greves de imigrantes contra as reestruturações produtivas (o 1º ministro Pierre Mauroy qualificará os trabalhadores em greve nos automóveis Talbot de “integristas que sabotam a produção nacional”), uma das raras expressões coletivas contestando a política seguida durante estes “anos de inverno”.

De uma crise a outra 1 Parte texto 1_4 imagem 1O poder socialista responderá em 1988 a estes movimentos, criando o RMI [rendimento mínimo de inserção] num absoluto consenso político (a direita e um membro da FN votaram a lei). Este novo subsídio de desemprego vem assim colmatar a ausência de lei e fará do novo desempregado, daquele que entra na situação de assalariado (o jovem de menos de 25 anos não tem acesso ao RMI) a cobaia exposta à política da precarização e isto numa escala de massa e para décadas.

Sob o pretexto “de falta de experiência “dos jovens assalariados, ver‑se‑á desenvolver, na sequência dos “estágios Raymond Barre” de 1976, todas as espécies de estágios e de empregos de inserção, tais como os TUC (trabalhos de utilidade coletiva, trabalho sub pago em associações e no sector público ) ou os SIVP (estágio de inserção na vida profissional) destinados às grandes empresas (o grupo auto PSA, por exemplo, montava assim através da utilização dos SIVP os veículos que comercializa depois no mercado mundial …), que virão engrossar a gama já extensa e a crescer ainda mais “dos empregos atípicos”.

Em 1992, Martine Aubry fazia promulgar uma “Lei sobre o Controlo dos desempregados” que inverte o ónus da prova (cabe ao desempregado provar que anda à procura de emprego). Esta mesma esquerda estará depois também na origem da denúncia dos “assistidos”. Quando uma grande mobilização de desempregados e precários no inverno de 1997/98 tem como exigência não ter que depender de emprego precário e de subsídios insuficientes, Lionel Jospin respondeu, declarando “preferir uma sociedade de trabalho a uma sociedade de assistência [1], numa inversão completa de todos os valores de solidariedade (“a assistência é um dever sagrado da sociedade”, proclamava a Revolução Francesa …). Não há imagem, mergulhado na ideologia trabalhista , o Partido Socialista abriu a via ao “trabalhar mais” de Sarkozy [2] e às provocações de um Wauquiez que fala hoje em impor “horas de trabalho comunitário “para os RSAstes, ou seja, para as pessoas que recebem o rendimento de solidariedade activa.

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Apologia de um outro Maio [3], o de 1981, em profusão. Celebração em boa ordem num grande dia, porque foi um grande dia. Beatificação de um presidente defunto, a fazer esquecer a do Papa João Paulo II. No entanto, se o trigésimo aniversário da eleição de François Mitterrand desperta este dilúvio de comemorações, entre louvores e nostalgia, não o podemos imputar apenas aos que andam a proferir lições sobre a década de 1980, aos proprietários da marca registada “Mitterrand”, mesmo se eles estão sempre na vanguarda em 2011.

No contexto atual, a reticência manifesta em fazer deste aniversário a ocasião para uma avaliação crítica resulta de um duplo constrangimento, como lhe chamam os psicólogos. Um duplo constrangimento explicava também, em meados dos anos de 1980, o famoso “silêncio dos intelectuais de esquerda”: na época, não criticar abertamente o governo, para não fazer o jogo da direita, mas também não o estar a defender, com o risco de se ser desonesto. O duplo constrangimento, desta vez, não se embaraça com estes escrúpulos. Não se celebra a esquerda, essa noção um pouco obsoleta, mas sim um homem e uma função que só têm em França este prestígio e estas prerrogativas, desmedidas, se não mesmo perigosas.

Se lhe é feita esta homenagem unânime, é certamente porque a função perdeu a sua magnificência, aquele que a encarna hoje em dia descarrega sobre a sua pessoa as raivas e os rancores da maioria. Todos parecem de acordo em dizer que se passou, em trinta anos e três presidentes, do Rei-Sol de 1981 ao Rei-Solex, se ousássemos esta fórmula para designar Jacques Chirac, depois ao Eu-Rolex de 2007. Um príncipe acima do lote, que se desculpa em nome da sua estatura. Seguidamente o seu sucessor de 1995, de que há quem se lamente hoje sob os traços de um homem simples e simpático. E o presidente atual, cujos reflexos de grande vigarista e as maneiras de novo rico terão rompido a distância que sempre fez, em França, o respeito da função.

Este relatório sobre os nossos últimos chefes de Estado, com a sua psicologização e os seus meandros, não é somente o facto de se estar perante uma democracia totalmente mediática. É também o sintoma de uma paixão muito francesa para com “o grande homem”, adulado seguidamente odiado, do desejo de um chefe que faz da política francesa, no quadro da psicologia dos povos, esta mistura singular de sujeição voluntária e insubmissão brusca. É o que Jacques Lacan, numa profecia que resume a passagem de um maio a outro (de 68 a 81), lançou em 1968 aos jovens esquerdistas de cabelos compridos que vieram interromper o seu seminário: «Têm necessidade de um mestre, e tê‑lo‑ão! (4) » Tiveram-no, em 1981.

Salvo que a necessidade de um mestre, nos tempos dos meios de comunicação social e do imediatismo, torna-se a cumplicidade fantasiada com um personagem: é desta mudança do rei em mascote, ou do chefe em fetiche, enganosamente inofensiva, que a longa presidência Mitterrand é contemporânea. Inspirou-o tanto quanto ela beneficiou disso mesmo e até hoje. É um pouco o pressuposto dos mitos antigos, que mudavam uma abstração em personagem, uma estátua em indivíduo, personalizando-os, dando-lhes vida. Mas adaptado à democracia mediática, com as suas marionetes de televisão e as suas discussões de balcão.

Lembremo-nos. Mitterrand foi transformado em diversas personagens, que afastavam o homem dos compromissos e das traições da política real, que o aproximam dos franceses, colocando-o ao abrigo do tempo também e  até ao ponto de suavizar o seu fim, contudo, já crepuscular do seu segundo mandato, entre coabitação e a Europa em marcha forçada, entre a sua doença, que ele já não conseguia esconder, e o retorno dos espetros de Vichy à sua vida. A partir destas personagens, podemos reter três figuras que eram as que estavam em melhor posição para lhe oferecerem a eternidade: primeiro Tonton, uma outra forma benevolente da figura paternal, mas também Kermit, a rã, sempre mais astuta do que os outros animais políticos (o “bêbête show” da TF1), e sempre a figura do autor/ator, combinando a autoridade natural e as virtudes do estudioso, amante de livros – o autor, uma vez que é a este título que ele vence Chirac e ganha amplamente a eleição de 1988, depois de ter enviado à laia de programa uma Carta aos Franceses que o colocava muito acima da mesquinhez do confronto partidário.

E, no entanto. É mais do que nunca necessário, neste aniversário, que se dissipe a cortina de fumo. Por mais nostálgicos que alguns possam estar de uma grandeza perdida, ou de um homem à altura da função, não se deverá reduzir o homem ao personagem, a função ao homem, nem esta época longínqua, em que o nosso presente tem as suas raízes, somente aos debates sobre o homem de Estado, o florentino, ou sobre a “paixão da indiferença” que era a sua própria marca – nas palavras que ele retomou dos escritores da Restauração, o seu período literário favorito. Isso seria privar as gerações futuras, a que se torna adulta naquela altura e aquelas que se lhe seguiram, dos instrumentos de que necessitam para compreender o que se passou. O que aconteceu connosco. Porque os anos Mitterrand são anos de uma transição histórica. Eles são os anos de uma escolha assumida (veja abaixo) mas apresentada como inevitável, sendo os anos Mitterrand, consequentemente, anos de um magistral jogo duplo, destruidor segundo muitos pontos de vista.

À série de personagens, é necessário substituir as palavras de duplo significado e de contradições, a que alguns chamam pura e simplesmente mistificações. É antes de mais a este chefe ex-antigaulista, desprezando o “golpe de Estado permanente”, que devemos o neogaullismo de uma república presidencial. assim como as suas derivas autocráticas denunciadas atualmente. Em seguida a “esquerda”, a palavra e a aspiração: François Mitterrand, patrão único da esquerda, sem sucessor neste papel, é também o coveiro da diferença entre a direita e a esquerda por ter reduzido a emancipação a uma promessa retórica e a realidade do poder ao realismo da sua gestão.

Devemos-lhe o abandono das classes populares feito pela esquerda, e o abandono feito por todos da palavra ‘povo’: aquele que dedicava a sua eleição de 1981 aos franceses de fracos recursos, “àqueles que durante toda a sua vida terão esperado pelo dia em que o país viria por fim ao seu encontro“, rapidamente perdeu o povo, em todos os sentidos da palavra, seja do ponto de vista social, seja do ponto de vista eleitoral. Parece que, em 1990, nada mais resta que não seja o estilo “popu sublimado” (sic) tão da preferência dos publicitários, então em voga, desde Jean-Baptiste Mondino a Jean-Paul Goude (que encenou o Bicentenário de 1789).

A era Mitterrand, onde as ideias subversivas dos anos anteriores serviam agora para refrescar os meios de comunicação social e a empresa, vê triunfar igualmente a ordem dos peritos, o argumento capcioso da competência: a substituir “os estilos sociais” em vez das classes sociais, a ciência “da tolerância zero” em vez da prevenção da delinquência, a gestão à americana em vez da lógica do serviço público, e mesmo o artefacto da sondagem em vez da vontade política.

O desenvolvimento da comunicação política e o conselho em imagem sob o reino deste presidente orgulhoso, inflexível, não é o menor dos paradoxos. Semelhante, longe da sua eloquência, é a voga “do TapSeg” como se dizia então: uma mistura da linguagem de comunicação de Jacques Séguéla e da linguagem direta do homem de negócios Bernard Tapie. Quanto à “criatividade” tão cara a Jack Lang, esta foi cantada por toda a parte para ser posta ao serviço da empresa França. Enquanto “a festa” era promovida a um novo valor republicano, organizada em data fixa pelo ministério da cultura.

Por seu lado, a “crise”, este significante mestre da década de 1980, era então e segundo os mesmos, tanto o vírus para ser erradicado, à força de virtude e de probidade, como era igualmente esta oportunidade para a França de poder sacudir as suas preguiças, de se adaptar, de se modernizar. Mesmo a descentralização, com a sua ambição louvável de “descolonizar a província” (segundo os termos fortes de Michel Rocard), teve resultados mitigados, entre novas baronias locais e excesso de publicidade para melhor vender a sua cidade e a sua região.

No coração do vocabulário da geração Mitterrand, nada melhor condensa essa duplicidade que duas expressões antinómicas mas compatíveis, a “diversidade” de um lado, louvada por SOS-Racismo e pelos media em voga e, do outro lado, o “pensamento único “, de seguida amaldiçoado por todos, que se articulou tão bem a esses novos temas. Para além do léxico, o que estava em jogo por detrás desta nova forma de dupla linguagem, ou desta “ideologia do fim das ideologias” [nt. é assim que a classificou o sociólogo Pierre Bourdieu; ver também  Os Novos Filósofos de Gilles Deleuze], é a capacidade das novas elites da década de 1980 em levarem o povo francês a aceitar um conjunto de opções políticas apresentadas como imperativas, através de falsas polaridades: o resgate a ser alcançado pela integração europeia ou então a falência e o isolamento, a liberalização ou os défices insustentáveis, a moral antirracista ou o lepenismo odioso, a República ou a barbárie.

É contra essas falsas escolhas e contra os ideólogos que as promoveram que um movimento social novo, plural, mal representado, começou em andamento desde há quinze anos, desde as greves no Outono de 1995 à revolta nos subúrbios, em 2005. Sem fazer sair a França, por enquanto, do interminável jogo duplo dos anos Mitterrand.

François Cusset, em 9 de maio de 2011, Le Monde

(N.T O texto que se segue no Le Monde, e que se reproduz de seguida, não é referido por nenhum blog como texto de Cusset. No Le Monde o texto prossegue numa fonte diferente, inclusive. Ver em http://www.lemonde.fr/idees/article/2011/05/09/critique-des-annees-mitterrand_1519153_3232.html )

Será necessário escolher entre a Europa e a justiça social?

“Estou dividido entre duas ambições, a da construção da Europa e a da justiça social”, terá dito François Mitterand, no início de 1983, ao seu fiel conselheiro Jacques Attali (tal como este o escreve no seu Verbatim). Após hesitações quanto às decisões a tomar, o presidente fez a sua escolha, a mais decisiva sem dúvida dos seus dois longos mandatos. Ele pôs um fim à generosa mas arriscada política de relançamento da economia que tem sido seguida durante dezoito meses, num contexto de recessão internacional.

A famosa “viragem a favor das políticas de rigor” de março de 1983 consiste em escolher, com o risco de deixar disparar o desemprego, a ortodoxia orçamental e a luta contra a inflação, exigidas para prosseguir a construção da união económica europeia, à custa da política mais ancorada à esquerda que tem sido seguida desde 1981 – que teria exigido, nesta fase, que o franco entrasse num sistema de câmbios flexíveis e, portanto, a exigir uma saída do sistema monetário europeu. A herança de Mitterrand está primeiro aqui, nesta opção, vaiada depois por alguns como sendo a opção de uma “esquerda de tendência Reagan”. De facto, as medidas seguintes serão para um futuro próximo, com a sangria industrial e a decolagem da Bolsa de Paris, o impulso que irá acelerar a primeira coabitação (1986-1988).

O passador de testemunho

Se o ano de 1981 via fugir os mais ricos e os seus capitais, um êxodo do “yatch-people” foi frequentemente exagerado, o fim da década vê milhões de franceses a tornarem-se acionistas dos grupos privatizados e novas fortunas, arrogantes, a alargar o fosso com as vítimas, maioritárias, do desemprego e da austeridade. Uma nota do Instituto de Estatísticas (INSEE) de 1990 dá mesmo à França a palma europeia do monetarismo e do rigor orçamental, à frente da Grã-Bretanha de Margaret Thatcher e da Alemanha de Helmut Kohl. A modernização é o motivo condutor desta década, à imagem do TGV inaugurado em 1981 e do Minitel pioneiro de 1985. A empresa é o novo eldorado: o número de criações sobe em flecha enquanto alguns sucessos franceses são mostrados como exemplo. Mas tendo em conta as suas capitulações e o seu custo social, o liberalismo regulador defendido pelos socialistas ditos “modernos” não convencerá a maioria, empurrando o eleitorado popular para os extremos e a suscitar muito em breve um vento novo de anticapitalismo

A lógica liberal que preside à construção europeia não estará, quanto a ela, nunca posta em causa, apesar das divisões aparecidas no momento do referendo sobre o tratado de Maastricht (1992) e aquando do “não” aposto treze anos depois por uma pequena maioria ao projeto de Tratado constitucional europeu (2005). Os historiadores debaterão sobre a natureza das convicções europeias do presidente Mitterrand, mais motivado por uma visão histórica e uma análise geopolítica do que pela adesão a uma doutrina económica.

Não deixará no entanto de ser visto, ao lado das fortes medidas de 1981 (entre as quais a abolição da pena de morte), como o barqueiro que conduziu a passagem da nação para a Europa, a Europa de Bruxelas mais do que a de Goethe, o homem de uma transição histórica da França estatista e fundiária – a França que fez dele um Presidente – para a França liberal e Europeia. Disposto até a renegar ou pelo menos a infletir fortemente os valores de igualdade e de justiça social colocados como prioritários em 1981 pelo candidato da esquerda unida.

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«Vive la crise!», o eterno remake?

O abuso de comemoração é perigoso para a saúde mental. A da vitória da esquerda reformista em 10 de maio de 1981 poderia ter a sua dignidade, se se ousasse proceder à exumação, no perfume dessa época, dos ideais, confusos e ingénuos, que nela se exprimiam — e tentar este balanço retrospectivo sem ilusões nem ressentimentos. Mas o exercício de estilo necrológico uma vez mais venceu, reduzindo as perspetivas utópicas e concretas, que então tinham permitido ganhar as eleições, a uma pura e simples hagiografia de François Mitterrand — neste caso um carreirista sem escrúpulos e dandy literário com um passado incómodo, colaborador durante a Ocupação, utilizador da guilhotina durante a guerra da Argélia, epidermicamente renitente ao espírito de maio de 68, e muitas outras … provas, que em França um Presidente de esquerda deve, se quiser ter êxito, saber dar garantias à burguesia mais conservadora.

E esta maneira de honrar o homem providencial em vez de sondar a natureza das mudanças radicais que se esperavam levar a cabo através dele, tudo isto diz muito sobre o caminho percorrido desde então. Certamente, objetar-se-á que esta revolução legal não existiu, que um homem de um maquiavelismo notável a encarnou sozinho, mas eu prefiro, sem ilusão nenhuma mas em total respeito, recordar as milhares de vozes cheias de esperança que se ouviam então pelos cafés, pelos escritórios, pelas ruas ou pelos cais das linhas de metro ou nas cadeias de produção e montagem da indústria automóvel, que se ouviam à entrada das faculdades ou nas casas Sonacotra [antiga Sociedade Nacional de Construção de Habitações para Trabalhadores, atual Adoma desde 2007], que se ouviam através das paredes das prisões ou dos hospitais psiquiátricos, que se ouviam entre os recrutas já iniciados nas coisas militares, entre as mães solteiras sozinhas, entre os despedidos das siderurgias, que se ouviam também entre as empregadas das caixas das grande superfícies, sempre mal pagas, entre os fumadores ocasionais de cannabis, entre os pederastas votados à vergonha das províncias, entre os sobreviventes das comunidades neo-rurais, entre os pioneiros das rádios livres, entre os refugiados de todos os despotismos planetários e mesmo entre os ocupantes-renovadores das casas ocupadas indevidamente a leste de Paris. Porque para lá da linguagem hipócrita e tática dos partidos representativos, algo de mais profundo, irrecuperável, heterogéneo, se tinha servido das urnas para libertar uma carga crítica e construtiva, uma vontade literal de alterar a vida quotidiana. O cinismo contemporâneo não saberia honrar uma tal memória coletiva, preferindo ironizar a atávica credulidade popular. É necessário uma árvore, o velho carvalho mitterranista, para esconder os vestígios de uma antiga floresta – e reduzir a cinzas todos os que acabaram por entrar no matagal, o maqui da resistência, em repouso parcial, em desacordo discreto, em resistência preventiva, em afastamento impercetível… resumidamente, à espera de dias melhores.

Hoje, o populismo de direita e de esquerda colocou-se em sintonia com o talk show televisivo. Assume-se que o público em geral é de uma estupidez imunda e que não se podem encarar as pessoas de outra maneira … senão como gente estúpida. E, além disso, como o cripto-reacionário Lacan disse sobre os enraivecidos de pós-68: “Uma vez que querem um mestre, tê-lo-ão!” [4]. Curioso acaso objetivo é quase palavra por palavra a mesma política do quanto pior melhor que defendia Louis-Ferdinand Céline no final dos anos 30. Quando os mais desprezíveis dos decisores se orgulham de estarem acima das massas e das lutas, de se gabarem da utilização da cenoura e do cassetete ou, dito por outras palavras, do prémio pelo mérito ou a ficha biométrica … E ei-los aqui, que fingem lamentar junto deste povo infrequentável o retorno da “besta imunda”, que encontram nisso boas desculpas para deverem sempre seduzir e, depois, assolar … E contudo são estes membros da elite arrogante, tão ocupados a esconder a sua impostura crónica, a jogarem o seu ego na dança das cadeiras, a informarem em tempo real qualquer tarefa impossível, de viverem endomingados 22 sobre 24 horas, a alienarem-se cada fim-de-semana sobre o seu Ipad, a libertarem-se de um par de filhos para um colégio interno, a ingerirem enormes quantidades de speed para se aguentarem, depois, a masturbar-se com fantasmas em silicone, a quererem apresentar um ar de eterno fitness, a desesperarem de solidão interior ao mesmo tempo que nadam numa absoluta ignorância, sim, são estes, estes techno de economia mista arrastando-se entre senhas de presença e ausência de escrúpulos, são eles os primeiros a viver e pensar como porcos, como dizia o falecido Gilles Châtelet.

Então, o que o é que houve de errado desde 10 de maio de 1981? Tantas banalidades de base a aparecerem bem mais cedo do que poderíamos imaginar. Em primeiro lugar, desde o verão, a inércia estalinista indesculpável do governo francês em face das revoltas dos trabalhadores na Polónia, que deveriam ter sido encaradas a crédito de uma esquerda em movimento, e não para benefício exclusivo dos papistas do vil metal. Depois veio a reestruturação da Unedic sob a égide da CFDT (e de uma certa Nicole Notat) que, sob o pretexto de restabelecer as contas, começou a excluir mais de metade dos desempregados do regime de compensação. E, em seguida, no ano seguinte, ao mesmo tempo que vendem a política de rigor, mais um golpe de que ainda hoje estamos a pagar a fatura: a traição do movimento associativo dos jovens de origem imigrante, sufocada pelo esconder de miséria que é o SOS Racismo (dirigido secretamente pelo já suspeito Julien Dray) e a famosa promessa, nunca cumprida, de conceder o direito de voto nas eleições locais aos estrangeiros após dez anos de residência no país. Em seguida, a verdadeira cisão simbólica que já foi analisada de forma precisa por François Cusset em La décennie, le grand cauchemar des années 80 (5). Estamos a falar da emissão “Vive la Crise” que marca este momento de viragem ideológica, uma rutura sem retorno até à fase terminal do imediato de hoje em dia.

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Retornemos brevemente a este episódio crucial. Em 22 de Fevereiro de 1984, o segundo canal da televisão pública transmite “Viva a Crise”, à hora de maior audição, o famoso 20:30 do cidadão. A emissão, inspirada no livro de Michel Albert, Le Pari Français, (Seuil, 1982) e no L’Aprés crise est commencé (Gallimard, 1982) de Alain Minc, foi realizada pelo ensaísta Jean-Claude Guillebeaud do Le Monde, tendo como apresentador vedeta nada mais nada menos que Yves Montand. O ator favorito do programa comum socialista-comunista apresenta-se aí doravante como “esquerda de tendência Reagan“, culpabilizando as pessoas pela simples razão de que os seus “benefícios sociais” fariam deles os piores “privilegiados“. Ele defende, para além do bom-senso, o esforço e a austeridade salarial para melhor se vangloriar algumas figuras exemplares de um desejo de empreendedorismo durante muito tempo limitado pelo polvo que é a tributação estatal: Philippe de Villiers, Bernard Tapie ou François de Closets. E o velho estalinista arrependido concluiu: “Saiamos desta França espartilhada pelas garantias sociais, pelos privilégios…é preciso combater esta realidade, arregaçar as mangas!“. Um tal balão de ensaio mediático reivindicado sob o rótulo de “capitalismo liberal” não poderia encontrar melhor meio de retransmissão do que um suplemento epónimo de Libération, sob a orientação de Pierre Rosanvallon, um antigo teórico da CFDT, e um jovem jornalista do serviço ecologia, Laurent Joffrin, assinando aí um editorial fortemente agressivo: “A pedagogia do erro”. Em sentido contrário ao dos valores históricos do jornal – pondo fim a uma década de crises internas —, Serge July não tardará a batizar esta mutação “de liberal-libertária”, título tomado de empréstimo a este OVNI conceptual made in USA, a uma tradição que existe desde há muito tempo no xadrez político americano, a extrema-direita dos Republicanos, na zona lobing do Partido Libertário.

Cada um observará que a maior parte dos nomes próprios citados tiveram promoções fulgurantes, subindo os escalões do poder real. Atenção contudo para não se cair na tendência da denúncia ad hominem, à imagem de Serge Halimi e de outros. Os carreiristas que emergem no momento deste “Viva a Crise” são apenas vagos ícones sintomáticos, e não as principais causas da refundição ideológica que atinge então o seu máximo da sua força e da sua culpa.

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Um pequeno detalhe me parece significativo a este respeito e a merecer ser recordado. A própria expressão “Viva a crise” poderia ter sido uma geração espontânea de slogan publicitário. E, no entanto, não, não é o achado original, provocativo e ruidoso, produto do publicitário Jacques Séguéla, mas é a recuperação integral da capa de uma revista trimestral, Le sauvage, datada de Janeiro de 1975.

Nenhum dos promotores da operação poderia, além disso, ignorar esta revista com uma tiragem de 40.000 exemplares que tinha sido comprada em 1972 por Claude Perdriel, diretor do Nouvel Observateur. Esta revista era, de alguma forma, o órgão muito ecuménico da ecologia política, juntando no seu seio críticos radicais do produtivismo capitalista e pioneiros do desenvolvimento sustentável compatível com a economia de mercado – na esteira do americano Ralph Nader. Entre os colaboradores regulares, regista-se um leque enorme e eclético de autores: Michel Bosquet, Théodore Monod, Gilles Lapouge, Edgar Morin, Robert Jaulin, Serge Moscovici, Herbert Marcuse, Henri Laborit, Guy Hocquenghem, Christiane Rochefort, Alain Finkielkraut, Pierre Lieutaghi, Michel Edouard Leclerc, Joël de Rosnay, Ivan Illich, Jean Malaurie, André Langanay, Jane Fonda, Barry Commoner, Bertrand de Jouvenel, Edouard Godsmith.

Acontece que no sumário deste número “Viva a crise”, além da crítica contra o nuclear e o elogio do solar, aí se defende teimosamente – com o relatório da Fundação Ford em apoio – um “crescimento zero de energia”, sob o título aglutinador de: “Menos energia, mais felicidade.” E não é indiferente medir a distância que separa a primeira abordagem deste paradoxo crítico – de um reformismo reciclando certas aspirações de muitos dos pós-Maio 68 – da segunda, utilizando o mesmo paradoxal eletrochoque para exaltar até às nuvens a contrarrevolução ultraliberal de Reagan. Em forma de epílogo, contentar-nos-emos em citar alguns excertos de um artigo nesta edição, “Eu, eu quero mudar de vida“, incluído na rúbrica testemunhos. Deixemos então, a palavra a esta secretária bilíngue que já não quer um “trabalho idiota” nem “esperar pelos amanhãs que cantam.” É assinado G. R. para proteger o seu anonimato.

“Eu estou numa situação de desemprego voluntário. Eu não fui demitida, pura e simplesmente despedi-me do meu último emprego, no dia 2 de setembro de 1974. Porque, de tudo que eu fiz ao longo dos últimos dois anos, vou apresentar um registo, um balanço, extremamente triste: é uma situação de estar pelos cabelos, retumbantemente dominada por um sentimento de inutilidade, tédio, apatia, de ausência de prazer e de motivação, de irresponsabilidade, e especialmente nos últimos meses, por uma tomada de consciência que eu sentia intuitivamente a amadurecer. É agora claro, adulto e mais que evidente, que me recuso a continuar a ser cúmplice deste estilo de vida que eu não quero condenar na sua totalidade. Mas, ao ponto a que isto chegou hoje, sinto toda a minha vida a ficar envenenada, a não suportar o barulho do dia-a-dia, os gases dos tubos de escape, o nervosismo coletivo, a falta de árvores, os produtos enlatados repugnantes, os produtos higienizados, desinfetados e tudo e tudo, todos os detergentes que causam dermatoses, o espírito de competição, a publicidade nojenta que me faz gastar por um produto um terço ou mais acima do que realmente custa. Eu não quero trabalhar nessas áreas que são obstáculos concretos e materiais contra o meu prazer, contra a qualidade da minha vida, assim como contra a daqueles que eu amo, ou mesmo que não amo, em seguida, enfim, aos outros da minha raça, além de outras raças, animais, vegetais. E, como nós nunca somos melhor servidos do que por nós mesmos , eu quero pôr as mãos na massa. […]

Quando eu decidi acabar com as minhas atividades de trabalho temporário e passar a procurar um trabalho a tempo indeterminado, sem saber quanto tempo esse processo me ocuparia, inscrevi-me no Instituto de Emprego local para não perder os meus direitos sociais. Para isso, e para beneficiar de um outro período de subsídio que não a clássica, eu teria que entregar às funcionárias de Assedic um certificado que deve ser total e automaticamente preenchido pelo empregador e enviado ao fundo pelo empregado. O processo não pode ser estudado nem o subsídio estabelecido sem a entrega deste documento. Os responsáveis pelo pessoal de toda e qualquer empresa, incluindo as de trabalho temporário, sabem disso. Depois de muitas reclamações, o meu último empregador enviou-me este documento com 26 dias de atraso. Ele estava incompletamente preenchido, não assinado, o mesmo é dizer de valor nulo e inutilizável pela Caixa ASSEDIC que o recusou. Assim, um novo pedido de documento em conformidade com um veemente pedido da minha parte. Eu também tive que intervir pelo telefone: foi-me respondido que as ofertas de emprego estão disponíveis para a minha qualificação profissional de secretária bilíngue e que eu faria muito melhor estar a trabalhar em casa, o que seria mais rentável do que estar desempregado. Vamos lá! Então, eu estava privada das minhas ajudas sociais durante dois meses pela negligência imputável exclusivamente (?) aos serviços, que teria ganho muito mais a conferir os meus registos de horas! Além disso, esta empresa recusou-se a pagar-me o dia 1 de maio (a única festa legal a que todo o assalariado tem direito, independentemente da data do seu contrato), sob o pretexto de que eu não estava na empresa desde há um ano! Eu contactei a Inspeção do Trabalho, citei artigos da lei e o caso foi resolvido. Mas quantas centenas de pessoas em situação de trabalho temporário há que nunca tiveram o 1 de maio a que têm direito, simplesmente porque não estavam informados ou não tinham defesa […]

Depois, aterrei num grupo americano muito importante: tive apenas o meu mês de ensaio, e ainda, dizendo-me nas duas últimas semanas que era necessário aguentar até ao fim do mês para refazer ligeiramente o meu porta-moedas depois de mês e meio no desemprego. Mas isto situa-se ao nível do heroísmo ou então do masoquismo consciente! Depois, descobri a indústria farmacêutica. E então, foi aí o meu grande choque, a revelação! Muito honestamente tinha algumas ilusões à partida. Tinha sonhado, na minha adolescência, na sequência de uma longa e grave doença, fazer carreira numa profissão paramédica. As circunstâncias tinham-me tornado secretária nas patentes e agora acabava por ir parar ao que eu acreditava ser um domínio relativamente nobre, no meio de pessoas que primeiro e sobretudo se dispunham a aliviar os pacientes. Primeiro e antes de tudo, o que conta, é o volume de negócios, e nada mais que não seja o volume de negócios. A humanidade sofredora, depois. Fiquei um pouco incomodada, devo dizê-lo. Incomodada pela indústria farmacêutica, mas sobretudo através de este laboratório, por este enquadramento, por este estado de espírito. Primeiro: discriminação entre os quadros e… os outros, a que chamamos povo. Seguidamente: horários muito rígidos. Chegada na parte da manhã, às 8:30 exatas! Chegando uma manhã (excecionalmente porque era pontual) às 8:34, tive direito às reflexões acerbas da direção do pessoal, como na escola pública da minha comuna, com ameaça de sanções. E eu respondi que, sendo a hora de saída às 17:30, era completamente deplorável que nos dias em que saía às 17:45 para terminar uma carta para que ela ainda pudesse seguir naquele dia, a direção em questão já não estivesse lá para o ver. Resultado a partir desse dia, deixei o serviço às 17:30 fossem ou não necessários mais 5 ou 10 minutos para terminar um trabalho ou uma carta urgente corrente. Tanto pior — amanhã será outro dia, e a Terra não deixará de rodar em torno do Sol se o professor Machin não receber esta carta amanhã. E acusam-se os empregados de falta de consciência profissional! Perfeitamente! As boas velhas tradições perdem-se! Não sou a única evidentemente a ter passado por estas situações e, felizmente, a ter reagido da mesma maneira.

Para estes senhores, eu continuo, sem dúvida, mesmo que nunca tenha tido qualquer contacto com a clientela, a estar em camisola de gola alta, mesmo no subsolo sem janela; gravata de rigor sob a blusa. Quanto aos aumentos… são individuais e tributários das classificações anuais, como num exame, é necessário ter pelo menos uma dada nota no total; por conseguinte é-se classificado pelo seu chefe de serviço sobre um enorme conjunto de critérios: assiduidade, eficácia, exatidão, etc., e por outros chefes. Faz-se a média e, é realmente pena, diz-vos o vosso chefe de serviço, sois um muito bom elemento, mas falta-vos 2 pontos! Deste modo, a secretária de quem os classificadores não gostam, estagna desde há anos sem que o seu valor pessoal seja tomado em consideração. Ela terá apenas direito aos aumentos sistemáticos. Mas este detalhe significativo passou em silêncio no momento da contratação. E, depois, há a questão do meu trabalho, também ele. Fui contratada como secretária de direção bilingue. Em oito meses, tive que fazer 5 ou 6 cartas de algumas linhas em inglês – 80 % da minha atividade era unicamente tirar milhares de fotocópias, digo muitos milhares. Tive igualmente de fazer algumas traduções, de 80 a 100 páginas, de avaliações científicas americanas, para as quais não estava efetivamente qualificada: sou secretária, e não tradutora em assuntos de técnica médica. Contratada nesta empresa para ser secretária bilingue, eu fui alternativamente dactilógrafa (geralmente) ou tradutora. Mas nunca aquilo para que fui contratada pela empresa. São oito meses assim. E de um só um golpe, a gota de água que faz transbordar o vaso, a observação que fiz por causa de quatro minutos de atraso. Assim, este trabalho, e este estado de coisas, estou pelos cabelos.

É necessário que eu faça qualquer coisa. Outra coisa. Certamente. Mas o quê? Penso que se tivesse tido um qualquer talento, artesanal ou outro, este já se teria manifestado. Se houvesse, este não teria esperado 36 anos para me dar sinal disso mesmo. Sabê-lo-ia. Fiz alguns bordados, faço malha ocasionalmente, faço fotografia, mas não ao ponto que possa fazer disso a minha vida profissional. Sou, como muitos pessoas, sensível a muitas coisas que gostaria de saber fazer e que me seduzem mas lamento, não sou uma artista completa que possa viver da sua arte. Então isso implica que deva passar a minha vida por detrás de uma máquina de escrever? … Se tivesse desejado reciclar-me na área de gestão de empresas, no marketing ou noutras especialidades nesta área, o Instituto Nacional para o Emprego poderia eventualmente fazer alguma coisa por mim. Mas se eu quiser aprender a reabilitar uma velha casa em mau estado, fazer cadeiras de madeiras ou bonitas velas, ouviria, lamento minha senhora, mas é necessário vivermos de acordo com o nosso tempo, o Estado não pode estar a financiar os seus caprichos. O marketing, isso sim, mas as velas… Fazer turismo, no verão, para os jovens, estudantes ou não, benévolos. Ou então, se isso existir, a informação é coisa que não tenho. Bem. Em conclusão, senti, vi, compreendi, vivi, que pelo menos 80 % das pessoas vivem descontentes com o seu trabalho”.

E para resumir todo o espírito desta confissão de 5 páginas, cheias de nuances e de pequenas fúrias, este título que dispensa comentários:

“Estou condenada a tornar-me uma inadaptada social. Eu não quero mais ser um elo da cadeia”.

Então aqui sim, quando a crise serve para abrir os olhos de uma tão bela forma, isto merece um VIVA!

Yves Pagès, 10 de maio

As ilustrações foram publicadas pelo blog  : http://www.archyves.net/

Vivre et penser comme des porcs. De l’incitation à l’envie et à l’ennui dans les démocraties-marchés, Gilles Châtelet, Exils, 1998 (essai, réédition, Gallimard, « Folio »)

Notas:

[1] Sobre este assunto ver o artigo desempregados/precários de 1998 : À gauche poubelle, précaires rebelles.

[2] No que diz respeito a Vichyssois de Neuilly ver : Abjecte sarkophagie travailliste : « Le travail, c’est la liberté, le plein emploi est possible ».

[3] Ver o vidéo « Mai 68 n’a pas eu lieu », no sítio da revista Chimères, onde Gilles Deleuze e Félix Guattari retomam a palavra para analisarem 1984 à luz de 1968.

[4] A esta caracterização de Lacan opõe-se a de Guattari e Deleuze que pretendem mostrar pacientemente como uma determinada clínica e uma determinada teoria da psicanálise constituídas em dogma transformam a psicanálise numa ratoeira reacionária, ver: « L’anti-oedipe », un enfant fait par Deleuze-Guattari dans le dos de Lacan, père du« Sinthome », revue Chimères.

[5] La décennie, le grand cauchemar des années 80, Article 11;  Lettre à tous ceux qui sont passés du col Mao au Rotary, Guy Hocquenghem, extraits : Aux artistes et prétendus tels, À Jack Lang;  Les chômeurs c’est la classe ! CASH, mai 1985

 

Diversos Autores, Trois critiques des années Mitterrand, Texto disponível em : http://www.cip-idf.org/article.php3?id_article=5633

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