Crónica sobre os anos 80, sobre “VIVA A CRISE! “

Vamos iniciar uma nova série de textos intitulada:

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade

Crónica sobre os anos 80, sobre “VIVA A CRISE! “

IVES_MONTAND

Nesta série procuramos debruçarmo-nos sobre a mentalidade das gentes do PS na década dos anos de 80, de Miterrand aos intelectuais que viviam nas orlas do poder. No fundo encontramos aí a raiz do que aconteceu em 1988 com a enorme queda do PSF e a ascensão de Chirac, do que aconteceu em 2002, com a derrota de Jospin, um homem que dizia que o seu programa não era nem de esquerda nem de direita, ele Jospin era um moderno, e com a vitória de Chirac que passou a presidir aos destinos da França, do que aconteceu em 2007 com a derrota de Segolème Royal que nunca se libertou do Jospinismo, do que aconteceu em 2012 com a vitória de Hollande, não tanto por mérito próprio mas por demérito de Sarkozy, arrasado pela crise e pelas vénias sucessivas a Merkel e que nos explica igualmente o que aconteceu entre 2102 e 2017 que leva François Hollande a não ser capaz de se recandidatar, uma primeira em França em toda a Vª República. E por detrás de tudo isto está uma realidade terrível: o PS de Miterrrand, em nome da Europa, da integração que tem sido feita, abandonou as classes trabalhadoras. De resto é com ele que Yves Montand na emissão Viva a Crise!  Assume a tarefa de convencer as classes trabalhadores que a crise tem a ver com os seus excessos. Diz-nos pois o comediante, sublinhando o elevado nível de compreensão e consentimento das classes trabalhadoras para as políticas duras que têm de ser aplicadas:

“A crise, que crise? Todos à nossa volta falam como se falem de um desastre. Sem demagogia, penso que as pessoas de condições modestas, sentem efetivamente que é difícil, que há qualquer coisa que não vai bem, que não são as ideologias que podem resolver os problemas, eles sabem que isso é uma piada, uma mentira. Obrigado, meu Deus, as pessoas começam a compreendê-lo. ”

Nesse convencimento que tem levado décadas o PSF  tem tido  atrás de si uma enorme plêiade de intelectuais a apoiá-lo e a criarem uma brutal máquina de propaganda, de mistificação. Desses nomes, relembro aqui Serge July, Laurent Joffrin, Furet, Rosanvallon, Julliard, Michel Albert, Closets, Guy Sormon, Alain Minc, Jacques Attali, Bernard-Henri Levy, Jacques Séguéla, André Glucksman, Alain Finkielkraut, Luc Ferry, Pascal Bruckner, Jacques Julliard e tutti-quanti ou jornais como Le Monde, Libération, OBS etc. Todos estes intelectuais descrevem e justificam então as políticas de austeridade que devem ser utilizadas para a França e num espaço económico global,   com um cinismo tal que nem mesmo muitos dos textos da Troika   se atreveriam  a defender. Impressionante.

A opção neoliberal foi traçada em Fevereiro de 1983 e vale a pena ler os textos que a justificam, um ano depois, com o programa Viva a Crise! Uma emissão de televisão e um número de Libération com o mesmo nome, tendo como base os textos de Alain Minc e Michel-Albert, em 1984, que raio de ano a relembrar intensamente Orwell. Com esta emissão, em 1984, a que Yves Montand deu corpo e alma, o PS abre a enorme máquina de propaganda que pode constituir a televisão com os intelectuais de renome e grandes jornais a estarem associados nesta missão, o que deveria fazer uma grande inveja aos partidos comunistas de Leste. É com esta máquina em ação que rapidamente se começam a diluir as diferenças entre a esquerda e a direita ao ponto de direita e esquerda diferirem apenas nos nomes dos que compõem os respetivos campos políticos e não nos objetivos, não nas políticas escolhidas e seguidas, não na visão do mundo.

Podem considerar que estarei a ser muito duro para com os socialistas franceses. Mas quando um eminente socialista,  Pascal Lamy, antigo chefe de gabinete de Jacques Delors e depois Secretário-Geral da Organização Mundial do Comércio  afirma: “quando se trata de liberalizar, não há mais direita em França. A esquerda devia fazê-lo, porque não é a direita que seria capaz de o fazer.”

Aliás, num dos textos da série pode-se ler o seguinte,   no que se refere à inexistência  de diferenças entre a  direita e a  esquerda francesa,  quando se analisa a pratica política do PSF :

“Como diz Pascal Lamy, “quando se trata de liberalizar, não há mais direita em França. A esquerda devia fazê-lo, porque não é a direita que seria capaz de a fazer.” 30; e Julius Friend a este respeito observa: “O que teria feito recuar um governo conservador, um governo socialista realizou-o” 31.

O ardor da esquerda francesa em ultrapassar a direita não se limitou à finança e estendeu-se a todos os domínios da política económica. “O programa aplicado Delors, por Fabius e Bérégovoy, escreve Levy, ia bem para além de uma supressão do dirigismo” 33. Em matéria monetária, por exemplo, dois economistas franceses detetam nas políticas seguidas pelos governos de esquerda “uma ortodoxia financeira globalmente mais forte que a observada no caso dos governos de direita”, o que se explica talvez pela necessidade de ganhar em credibilidade 34. Outros autores aumentaram que a esquerda francesa tinha considerado necessária ir mais longe ainda do que o exigia a ortodoxia económica. A acreditar Serge Halimi, há aí “a ambição de fazer as suas provas sobre o terreno mesmo da oposição. Para a esquerda, esta convicção traduz-se por uma política ainda mais brutal que a da direita quando se trata de aplicar as políticas económicas ortodoxas” 35. E, para David Howarth, “era necessário que os socialistas fabricassem uma imagem de gestores económicos responsáveis, tanto por razões de política interna como para se oporem à especulação internacional contra o franco” 36. Esta lógica de conquista da credibilidade aos olhos dos mercados financeiros mundiais exigia da esquerda francesa que esta se fizesse “mais monárquico  que o monarca ”.

A conclusão a tirar é ainda mais dura do que o que nós escrevemos acima. Com efeito, se diferenças há entre a  direita francesa e a esquerda oficial no governo, o PS,   é que o PS está mais à direita que a direita. Simplesmente isso.  Percebe-se pois o que nos diz um outro texto da série, com a assinatura de François Cusset:

“Eles enterraram tudo – a utopia, o pensamento crítico, a contestação, Marx, o comunismo e mesmo a história. O nosso mundo tornou-se um campo de ruínas, quando o deles se mostrava cheio de beleza e se afirmava com altivez, certo da superioridade das suas palavras de ordem: submissão ao mercado, à modernização tecnocrática, ao espírito de empresa e ao dinheiro-rei.

Um verdadeiro rolo-compressor, lançado em meados dos anos 1970, com os autoproclamados “ novos filósofos” e a sua denúncia do totalitarismo, e metodicamente utilizado ao longo dos anos de 1980. Nada de outra coisa que não seja o pensamento único capitalista e as sombrias perspetivas neoliberais, como se uma Margaret Thatcher sob cocaína tivesse tomado o controlo de toda a parte ocidental do globo. Mais ou menos: o inferno.”

E a diluição de diferenças entre esquerda oficial e direita, praticada ao longo de três décadas, deu como resultado final a vitória nas Presidenciais a Macron e vai-lhe dar a vitória nas legislativas. Cria-se do pé para a mão um novo partido, que ninguém sabe o que é, mas que vai ser o principal partido do país. Um processo de degradação de valores em Política que foi iniciado por Miterrand, afinado por Jospin, depois melhor calibrado pelo think tank Terra Nova, aprofundado e levado  à prática por François Hollande, o homem que se afirmava ter como inimigo a finança e que no dia seguinte às eleições colocou no Eliseu como seu secretário-geral, um homem da finança, de Rothschild, Emmanuel Macron.

É dessa degradação que nos falam os textos desta série. Boa leitura.

Coimbra,  9 de Junho de 2017

Júlio Marques Mota

 

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