2. No dia 22 Fevereiro de 1984, Yves Montand grita: “Viva a Crise!” – 1ª Parte

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 2 – 1ª Parte


(David Doucet et Vincent Glad, 27/02/2014)

IVES_MONTAND

Revimos esta improvável mistura neoliberal de falsas reportagens difundidas por televisão e a pedagogia económica, um documentário-ficção transmitido antes do horário nobre por Antenne 2 (Aqui link para alguns áudios dos documentários). O objetivo? Tornar a crise excitante.

Crise, desemprego, encerramento de fábricas, subida da Frente Nacional. A França de 1984 assemelha-se furiosamente à de 2014. Três anos antes, na vaga criada por dois choques petrolíferos que puseram violentamente fim “aos Trinta Gloriosos”, François Mitterrand tinha sido eleito na base da sua promessa de “mudar a vida”.

A nacionalização em marcha forçada, tanto dos bancos como dos grandes grupos industriais feita pelo governo socialista é um fiasco. O défice orçamental aprofunda-se gravemente, os capitais fogem do país e o franco é desvalorizado por três vezes.

Encostado contra a parede, François Mitterrand renuncia à sua promessa !de mudar a vida” e prefere então mudar a política .

Em Março de 1983, faz a escolha de permanecer no Sistema monetário europeu e inicia a viragem para as políticas de rigor. A crise torna-se normal, diária, comum. Falta torna-la excitante, portadora de esperança. Pascale Breugnot, produtora de Gym Tonic com Véronique e Davina, teve a ideia de lançar um programa de formação para as pessoas de países a viverem em crise:

“A população tinha a impressão de viver com uma chapa de chumbo em cima das costas mas não tinha necessariamente todas as informações necessárias para compreender que se passava.”

A emissão chama-se Viva a crise. É difundida sobre Antenne 2 no horário nobre no dia 22 de fevereiro de 1984, e apresentada por Yves Montand. É uma mistura improvável de falsas reportagens emitidas por televisão e de pedagogia económica, do documentário-ficção antes do tempo.

A crise, um jogo em que o cidadão é o herói

A crise? Seria necessário ser muito desmancha-prazeres para se estar a queixar. “A verdadeira crise que ameaça os franceses, é a crise de fígado!” diz-nos em jeito de brincadeira numa falsa reportagem um falso russo que descobre os prazeres da gastronomia francesa. Yves Montand concorda:

“A crise? Que crise? Todos falam à nossa volta como se estejam a falar de um desastre, mas confessem no entanto que este desastre não é nada espetacular.”

Com o tom de um pai de família que está a analisar um n-ésimo boletim escolar abaixo da média, Yves Montand acaba a emissão, com um olhar severo, o dedo apontado para o telespectador:

“ São apenas vocês e apenas vocês que encontrarão a solução! Não há salvador supremo, não há super-homem, são vocês, que tomarão em mãos os vossos próprios destinos e avançarão! Ou ter-se-á a crise, ou sair-se-á da crise. Em qualquer dos dois casos, ter-se-á o que se merece!”

A economia torna-se acessível, como um jogo do qual cada um de nós é o herói: “um cenário individual de suspense, a ter como desenlace o sucesso ou o malogro, e como único autor cada um de nós”, escreve o historiador das ideias François Cusset. Viva a crise é concomitante da emergência mediática de Bernard Tapie, outro exemplo desta economia apeada do seu pedestal para indicar à França a via do renascimento.

Melhor que “a Grande viajem”

A emissão teve um grande sucesso e excedeu os 30% nas quotas de audiência. “Reuniram-se mais pessoas do que para ver um grande filme popular no domingo à noite, do tipo La Grande Vadrouille , foi incrível!”, recorda-se Laurent Joffrin, então jovem jornalista económico no Libération que participou na emissão.

Viva a crise é transmitido antes da hora. No dia seguinte, Libé publica um suplemento especial , com Yves Montand na capa de cobertura. É um novo recorde.

“Realizaram-se mais de 120.000 vendas, afirma Joffrin. Isso valeu-lhe críticas internamente porque os três quartos da emissão apareciam todas elas do mesmo modo , como uma apologia do capitalismo. Mas é necessário recordar-se que na época, a esquerda tinha nacionalizado metade da indústria e a totalidade do sistema bancário. A emissão respondia ao excesso de peso do governo socialista e acompanhou sem dúvida a viragem neoliberal imposta por François Mitterrand durante o seu mandato.”

François Mitterrand ficou reconhecido

O governo aplaude. Jacques Delors, ministro da Economia e das Finanças, considera a emissão “correta e profunda”. Pierre Bérégovoy, ministro dos Assuntos Sociais, elogia as virtudes pedagógicas e organiza mesmo uma projeção privada do programa. Diz-se na imprensa que François Mitterrand também apreciou muito. “À parte os comunistas e as pessoas muito próximas de Chevènement, toda a classe política saudou a emissão”, assegura Jean-Claude Guillebaud, antigo grande reporter no Le Monde, que co-escreveu o texto do programa.

Trinta anos mais tarde, este momento de história, testemunho espantoso da importância das ideias neoliberais sobre a França de meados dos anos 1980, não está disponíveis em nenhum lado. A Internet mostra aqui os seus limites: impossível de fazer o download sobre BitTorrent ou por outro material. O último rasto de Viva a crise é este extrato de 30 segundos sobre Dailymotion, (que pode ser visto abaixo).

É necessário meter-se na entranhas da Biblioteca Nacional de França BNF, com um cartão de investigador, para ter o direito a consultar o documento. Depois de ter preenchido uma sequência interminável de formulários, podemos, por fim, sentarmo-nos em frente do ecrã a ver o filme.

Desde as primeiras sequências que se fica pasmado nos grandes bancos de madeira de BNF.

Christine Ockrent aparece no jornal televisivo e anuncia que o governo acaba de tomar uma série de medidas drásticas: taxa moderadora dos hospitais a aumentar 300%, os subsídios às famílias cortados ou mesmo suprimidos para todos os lares acima dos 8.000 francos por mês, reformas reduzidas de 20% a 70% de acordo com as categorias, subsídio de desemprego reduzido de 20%.

Yves Montand aparece num décor de alto quadro de empresa e tranquiliza o telespectador:

“Tranquilizem-se, nada disto é verdadeiro, é um conjunto de notícias falsas e estas notícias são imaginárias. Mas confessem que tiveram medo, porque no fundo, estas medidas, soam a verdade. Dão uma ideia de que nos espera se a crise se agravar”.

A Guerra dos mundos, versão liberal

Em horário nobre, na Antenne 2, a tentativa é ousada: “Tentou-se fazer em pequeno o que Orson Welles tinha feito em grande com o seu logro sobre a Guerra dos mundos”, conta Laurent Joffrin.

Os extraterrestres de Orson Welles tinham poucas possibilidades realmente de chegarem aos Estados Unidos. Mas Viva a crise! quer explicar aos Franceses que se o país não renunciar aos seus “privilégios”, a próxima vez, Christine Ockrent não irá voltar a brincar aos telejornais.

Alvo favorito de Yves Montand: os sindicalistas, que se queixam durante todo o tempo mas não conheceram a crise de 1929 (a crise de 1929 nesta emissão o ponto de referência económico, o ponto de Godwin, o fim de toda e qualquer argumentação):

“Hoje, certamente, há reivindicações importantes e milhões de desempregados vivem na ansiedade, é verdade, mas há também certos problemas que fazem os grandes títulos dos jornais e que não têm nada a ver, mas nada mesmo a ver com os dramas de 1929. Nós permanecemos como privilegiados e algumas das nossas reivindicações nos nossos países poderiam fazer sorrir. Todos reclamam: o 13º, o 14.º e até o 17º mês, a segurança do emprego, mais feriados, mais dias de férias, menos preocupação, etc. às vezes tem-se razão, muito frequentemente, exagera-se!”

A crítica abusiva de Montand é seguida de imagens de sindicalistas, entre os quais um “funcionário” que se queixa dos novos locais de Radio France sem “nenhuma possibilidade de ventilação externa, com as janelas a estarem totalmente fechadas”. Que indecência estar a querer arejamento dos escritórios, os funcionários que nunca passaram por 1929.

(A segunda parte deste texto será publicada amanhã, 16/06/2017, 22h)


Texto original aqui

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