3. “Viva a crise!”, Uma fábula de trinta anos – Parte I

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 3 – Parte I

 

(In Regards.fr, 21/02/2014)

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No dia 22 de fevereiro de 1984, Yves Montand efetua um espetáculo televisivo em que apregoa a renúncia “aos privilégios” bem como “às ideologias”, e entende assim dar um forte empurrão aos franceses precipitando-os no futuro. Ainda que seja difícil de engolir, fica-se pregado a ver o canal Antenne 2, nessa noite.

É necessário confessá-lo: é elegante e representa bem. Fino, com a sua expressão característica, o olhar firme na câmara, com um ar um pouco cabotino, o ator e cantor executa perfeitamente o seu texto nesta “emissão contada por Yves Montand” na Antenne 2, anunciada com grande publicidade e acompanhada de uma edição especial do diário Libération. O nosso Sr. Leal promete que “se se conta o que é a crise, isto torna-se tão apaixonante quanto um filme”. Viva a crise! bate recordes de audiência, e marca um momento essencial dos anos 80: o de uma imensa negação.

Nesse momento da década dos anos 80, o poder socialista assumiu “ a viragem para a política de rigor”, e escolheu permanecer no sistema monetário europeu. Em 1983, o crescimento é quase nulo, o limiar de dois milhões de desempregados é ultrapassado. A crise dura desde há dez anos e é necessário convencer os Franceses que nada mais pode ser como dantes.

« As ideologias, isso é uma piada »

Para evangelizar as massas, a televisão por conseguinte dispôs-se a dar a sua contribuição: neste 22 de Fevereiro, a emissão especial começa por um conjunto de informações apresentadas por Christine Ockrent, que anuncia uma série de medidas destinadas a reduzir o agravamento dos défices públicos: redução nas comparticipações para a compra de medicamentos, supressões de subsídios às famílias, baixa dos subsídios de desemprego e das pensões de reforma … “tranquilizem-se, isto não é verdade. Este flash informativo é uma piada, estas notícias são pura imaginação ”, diz Yves Montand, que aponta os telespectadores a dedo: “Mas confessem que tiveram medo. Porque no fundo, estas medidas tocam-nos de verdade, e dão uma ideia de que nos espera se a crise se agravar.”

Entrecortada por sequências de documentário-ficção, com texto escrito pelo jornalista Jean-Claude Guillebaud, a emissão dá-nos a vulgarização económica e assenta essencialmente no livro Le Pari Français de Michel Albert, antigo Comissário do Plano. Este apóstolo do crescimento e do comércio externo, teórico do que ainda não se chamava as deslocalizações, é o convidado principal das sequências em estúdio. Porque o perito económico é, a partir dali, a autoridade. Reconhecemo-lo já no seu tom doutoral, com um razoável ar de condescendência: a política não tem mais nenhuma razão de ser, deve prestar uma verdadeira vassalagem.

De direita ou esquerda, as políticas antigas já não funcionam mesmo. “As receitas políticas já não funcionam ”, diz-nos Montand, que repetirá com ar mais grave : “As pessoas de condição modesta (…) sentem muito bem que não são as ideologias, quaisquer que elas sejam, que podem resolver os seus problemas, sabem muito bem que as ideologias são uma brincadeira, Deus seja louvado, as pessoas começam a compreendê-lo muito bem. ”

Deixa de se queixar.

Às vezes ligeiro, a representação oscila contudo entre a dramatização e a culpabilização. A crise é grave, e a culpa é nossa. A culpa é “dos privilégios”. “O país aproveita apesar de certas desigualdades de privilégios incríveis. O problema, é que estes privilégios, nós estamos tão habituados a eles ” Deixem de se estar a queixar, aqui está a primeira mensagem. Um turista russo em visita à Paris escreveu à sua família: “Crises como esta, isto queríamos nós. ” A Sra. Lambert, representante da classe média, descreve as suas condições de vida nos anos 50 e sessenta. A crise dos anos 30, era outra coisa, bem diferente da nossa, e em comparação “algumas das nossas reivindicações poderiam fazer sorrir” [1]. Toda gente reclama. O décimo terceiro, o décimo quarto e às vezes o décimo sétimo mês. A segurança do emprego, mais feriados, mais férias… Às vezes tem-se razão, mas frequentemente exagera-se. “

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São apresentados alguns casos de natureza pessoal e profissional: um radioterapeuta que fala sobre a baixa dos rendimentos que o atingiu e que o têm forçado a renunciar ao seu “emprego de formação”, um eletricista EDF que tem os seus benefícios salariais em natura, um funcionário que se queixa de uma mudança para uma torre de ar condicionado. Os efeitos da crise seriam por conseguinte irrisórios sobre os Franceses, mas é melhor dizer e procurar perceber que o país se encontra “no início de uma doença” bem mais grave. Os Trinta gloriosos anos de crescimento acabaram e já não nos podem permitir que vivamos a crédito: “Agora, vai ser necessário pagar. Deixemo-nos, pois, de estar a sonhar porque, seguramente, a situação é grave.”

[1] Coincidência perturbadora, a imagem mostrada no momento desta declaração é a da multidão (ainda que não reconhecível à primeira vista) da Marcha pela igualdade e contra o racismo que tinha acontecido dois meses antes.


(A segunda parte deste texto será publicada amanhã, 18/06/2017, 22h)


Texto original aqui

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