4. A eterna pedagogia da submissão

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 4

(Pierre Rimbert, in Le Monde Diplomaqique, Fevereiro de 1999)

texto5

Viva o euro! A quase totalidade dos meios de comunicação social franceses rivalizaram em zelo para exaltar a nova moeda e acompanhar a euforia coletiva inicial dos atores em bolsa. Quinze anos antes, em Fevereiro de 1984, uma emissão de televisão animada por Yves Montand procurava realizar um trabalho de propaganda mais ou menos similar. Fim das ideologias, futilidade do Estado-Providência, culto da empresa: os Franceses eram chamados a sacrificar o seu Estado social e as suas conquistas sindicais sobre o altar da política de rigor. Quanto à Europa unida, sonhava-se com uma presidente chamada Margaret Thatcher…


Em Fevereiro de 1984. A hora tinha chegado “de uma grande revolução cultural ocidental” própria a “fazer dos cidadãos assistidos, cidadãos empreendedores”. Mas, para os arquitetos de um tal projeto, uma explicação preliminar se impunha. Era necessário explicar: “Tal como estas velhas fortalezas relegadas a terem um papel secundário relativamente à evolução da arte militar, a massa pardacenta do Estado francês assemelha-se cada vez mais a um castelo inútil. A vida está algures, em outros lugares, ela emana da crise, através das empresas, através da iniciativa, através da comunicação. (1). ” Precedida de uma campanha ruidosa seguidamente retransmitida por um suplemento do diário Libération, uma emissão de vulgarização económica ia empregar-se a explicar o sentido desta afirmação publicada por Libération. O seu título: “Viva a crise! ” (2).

A via estava livre. Eleita sobre um programa “de rutura com o capitalismo”, é com o socialismo que a esquerda no poder rompeu oficialmente. Em face de um défice comercial importante, a esquerda no poder decidiu comprometer-se a aplicar uma política de deflação suscetível de reduzir o consumo interno e de diminuir as importações, em vez de tentar uma reativação industrial que implica eventualmente a flutuação do franco e a sua saída do sistema monetário europeu (SME)?

O governo tinha decidido. A 23 de Março de 1983, no fim de longas evasivas, François Mitterrand decidiu-se pela manutenção no SME. O parênteses “da outra política” fechava-se definitivamente. O ano 1983 saldar-se-ia por um crescimento mais ou menos nulo (0,8 %), uma baixa do poder de compra e quanto ao desemprego passou-se da barra dos “ dois milhões de desempregados”. A renúncia socialista não tinha, contudo, colocado um fim ao trabalho dos partidários “de uma solução liberal” de esquerda para a França.

Michel Albert, antigo Comissário do Plano e Alain Minc, diretor de uma filial de Companhia de Saint-Gobain, tinham traçado os contornos em duas obras publicadas em 1982: Le Pari Français (Seuil ) e L’Après-crise est commencé (Gallimard). Este último tinha beneficiado da atenção benevolente do diário libéral-libertário Libération, onde Pierre Rosanvallon, ex-teórico da Confederação francesa democrática do trabalho (CFDT), convidava os leitores a descobrir o economista neoliberal Friedrich von Hayek e a “ aprender o que é a austeridade”. A Fundação Saint-Simon, de que Alain Minc, Michel Albert e Rosanvallon eram membros, abria-se a um grupo escolhido de intelectuais, de altos-funcionários, de industriais e jornalistas, todos preocupados em “ formular projetos que visem à uma melhor inteligibilidade das nossas sociedades contemporâneas (3)”.

Às categorias direita-esquerda ou dominantes-dominados, eles substituíam-nas por modernidade-arcaísmo, o que era feito para desqualificar qualquer exposição de uma problemática em termos políticos. Serge July, diretor de Libération , contava-se no número destes inovadores.

Descobrindo as virtudes da empresa à medida que abandonavam a sua postura contestatária, os jornalistas deste jornal diário em voga dos anos 80 cobriam de elogios François de Closets, que arrasava de críticas os “ricos” da função pública (4). Quanto a Laurent Joffrin, então jornalista ao serviço na secção economia, escrevia um manifesto “neorrealista” intitulado La Gauche en voie de disparition. Comment changer sans trahir? (5).

Síntese televisiva das suas ideias, “Viva a crise!” inspira-se mais particularmente no livro Le Pari Français de Michel Albert. A emissão realizada por iniciativa de Jean-Claude Guillebaud, pretende revelar as causas do marasmo económico europeu e propor as suas soluções. Exercício arriscado: a matéria é considerada tão exaltante quanto os discursos de Raymond Barre, o seu “melhor” prático francês, e a ambição – de “fazer de “Viva a crise!” uma palavra de ordem popular (6) “- tem falta de encanto. Contudo, os autores dispõem de uma vantagem: Yves Montand aceitou ser o seu porta-voz.

 « De esquerda, tendência Reagan »

Desde a Primavera de 1983, Yves Montand multiplica os aparecimentos mediáticos, denunciando aqui ou acolá “o empenhamento às arrecuas ” do exército francês no Chade, a oposição dos pacifistas alemães aos euromísseis. Mas os seus alvos favoritos permanecem os comunistas, cuja presença no governo ele sente como um ultraje (esta permanência terminará em Julho de 1984). Considerando-os “cúmplices do goulag”, arrasa-os de um ódio ainda mais tenaz tanto quanto durante muito tempo esteve próximo dos comunistas (7). No início de 1984, a sua passagem à emissão de televisão “os Processos do ecrã” mergulha a imprensa numa inebriante manifestação de exaltação.

De Libération ao Figaro, passando por Nouvel Observateur, os jornalistas dissertam sobre “o encanto”, “a sinceridade” e “o grande profissionalismo ” desta “Estrela da política” em que acreditam detetar, depois de Coluche, o novo arauto “da sociedade civil”. A poucos meses das eleições europeias de Junho de 1984, alguns detetam-no à cabeça de uma lista de centro-esquerda; outros, apoiando-se sobre uma aparente semelhança biográfica com Ronald Reagan, conferem-lhe ambições presidenciais.

Interrogado por Libération, Yves Montand explica: “A esquerda é bem obrigada a retomar posições sobre a economia que eram tradicionalmente as posições da direita. O aborrecimento, é que se perderam três anos (8). ” Vestindo o fato de quem recita “ Viva a crise! ”, o ator afirma-se “de esquerda de tendência Reagan” e preconiza “um capitalismo liberal” ao mesmo tempo que confessa nada conhecer de economia. A preparação da emissão fornece-lhe a ocasião de uma formação expressa. Os seus biógrafos explicam: “Profissionalismo obriga, queimam-se as pestanas com a leitura de Le Pari Français, o livro de Michel Albert (…), ouvem-se religiosamente as crónicas de Jean Boissonnat sobre a Europa 1, engole-se a imprensa económica, consulta –se Alain Minc e declara-se de acordo em ” 90 % “com o texto que se lhe pede que o diga. (9).

A 22 de Fevereiro de 1984, os telespectadores descobrem um ator particularmente inspirado. “A crise? Que crise? ”, Interroga-se. “Eu, estou como todos vocês, gostaria de perceber bem o que se passa. ” Servido por um cenário pontuado de choques visuais e de intervenções “de especialistas”, Yves Montand defende a causa da austeridade. A sua argumentação é simples: habituados ao crescimento “dos Trinta gloriosos”, os franceses recusariam aceitar os novos constrangimentos económicos; eles obstinam-se a reclamar “sempre” mais. Ora, de acordo com Michel Albert, a Europa está em “vias de subdesenvolvimento”. Incapaz de produzir calculadoras solares extraplanas, teria perdido o comboio da terceira revolução industrial e corria o risco “ qualquer que seja o ponto de vista de se tornar uma espécie do Afeganistão”. Pior ainda! Tributário dos produtores de petróleo e atingida pela baixa de natalidade, o Velho Continente não resistiria três dias à recusa de um país em desenvolvimento de honrar a sua dívida. A prospetiva era apresentada de uma forma convincente: “O terceiro choque petroleiro é inevitável. No ano 2000, o barril atingirá sem dúvida 55 dólares contra 29 atualmente”. Em 1999, o barril custa cerca de 10 dólares.

A conclusão impunha-se: “Agora, vai ser necessário pagar. ” As reivindicações salariais de um mecânico EDF não têm mais legitimidade que as recriminações de um médico que se sente forçado a despedir o seu empregado. Trabalhada na montagem, e depois compactados em trinta e nove segundos, a entrevista com o funcionário representa o retrato-robô “de um privilegiado”:

“As reivindicações imediatas, tem a ver com o poder de compra. Sente-se já uma perda de 5 % de poder de compra para o ano 1983. (…) É também a redução do tempo de trabalho às 35 horas, sem diminuição de salário…

— E as suas vantagens em bens e serviços, em natura?

—  Isso, isso é cada vez mais importante ; é um elemento da nossa remuneração»

O jornalista interrompe-o.

« Quanto é que paga pelo quilowatt-hora?

—  Quatro cêntimos, em vez dos 45 cêntimos para uma utilização doméstica. Logo, isto faz parte dos nossos salários, não devemos mexer nisto.»

Para Michel Albert, um tal comportamento ilustrava “o vétéromachismo”, sistema pelo qual “os velhos machos” preservam os seus acervos transferindo o peso do desemprego sobre as mulheres, os jovens e os imigrantes (10). E o antigo Comissário no Plano ofende-se quando se lhe fala de redução do tempo de trabalho sem diminuição de salário. A conquista das quarenta horas em 1936 foi, na sua opinião, “o mais extravagante e mais dispendioso contrassenso cometido na França desde a revogação do édito de Nantes (11)”.

O Pigmalião da emissão e o seu acompanhante estão convencidos: a crise representa “uma grande mutação”, dolorosa mas, por fim, será verdadeiramente vantajosa. Cheios de certezas de uma outra era, as políticas clássicas seriam inoperantes. E perigosas as utopias anticapitalistas hostis ao produtivismo: “Um crescimento mole, uma sociedade dura”, explica o jornalista Henri Amouroux para quem trinta anos de estagnação económica levariam obrigatoriamente ao totalitarismo. Mas Yves Montand tranquiliza-se imediatamente: “As pessoas de condição modesta (…) sentem muito bem que não são as ideologias, qualquer que elas sejam, que podem resolver os problemas – sabe-se muito bem que é uma patetice, uma mentira ”.

Reportagens-ficção testam então a nocividade de três remédios julgados representativas das ideias do senso comum da época. São as expressões do tipo “não há senão’”. O primeiro imagina a expulsão imediata de dois milhões de imigrantes. Reforçando uma ideia recebida para torcer o pescoço da outra, este cenário mostra as ruas de Paris juncadas de detritos. O segundo caso analisa a hipótese de uma contratação massiva e concluiu-se por uma impressionante conclusão: “Desde há dez anos, a parte dos rendimentos de que o Estado se apropria sob a forma de impostos e contribuições sociais atinge já quase 50 %. Este dinheiro serve em grande parte para financiar os salários da função pública. Mas este dinheiro faz falta às empresas: desde há dez anos, o investimento industrial deixou de progredir. A Europa conta hoje doze milhões de desempregados.

” O fim da emissão expõe casos “de adaptações” comiseradas como êxitos. Porque a crise “é um pouco como um parto: há aquilo que se vê, há aquilo que está sujo, há aquilo que faz mal, há aquilo que nos mete medo também e, depois, há aí um nascimento, uma vida nova que surge”. Por exemplo, há a vida dos pequenos empresários. E Michel Albert apresenta o protótipo: um jovem enarca, de Vendeia, chamado Philippe de Villiers. Subprefeito demissionário, inventor de um espetáculo “libertário e convivial” que utiliza as tecnologias mais avançadas para reconstituir a epopeia contrarrevolucionária da sua região, encarna o espírito de conquista que faria assim tanta falta às vítimas da crise.

São intimados a ganharem capacidade de iniciativa: “se as pessoas que trabalham se contentam somente em estender a mão, isto faz deles uns assistidos e é perigoso para eles. Na empresa Talbot, viu-se um trabalhador originário do Maghreb dizer: ” Eu, reciclar-me? Mas não sei nem ler nem escrever! “(12). ” Na cena final, com o dedo apontado para o telespectador, Yves Montand fulmina-os: “Assumam os vossos destinos, tomem-nos em mãos, saibam o que querem, peçam-no, vejam o que se pode fazer, e em frente, avancem! Então, ou ter-se-á a crise, ou sair-se-á da crise. E, em qualquer dos casos, ter-se-á o que se merece!”

O programa “Viva a crise!” foi um excecional sucesso de audiência. O suplemento de Libération esgotou-se. Saudada, aplaudida, elogiada por uma imprensa quase unânime, a emissão é aplaudida igualmente por uma boa parte do governo de esquerda. Jacques Delors, então ministro da economia, das finanças e do orçamento, considera-a “correta e profunda ”, uma ideia que partilha Pierre Bérégovoy, então ministro dos Assuntos Sociais. François Mitterrand julga a prestação “sobretudo boa“ e vê mesmo nela a mesma lógica que se encontra na política governamental. Quanto a Michel Rocard, reservará os seus comentários à Jean Daniel, diretor do Nouvel Observador, com quem viu a emissão “Vive a crise!” em companhia de Yves Montand.

A maior parte “das soluções” preconizadas na emissão foi posta em prática pelos governos que se sucederam desde 1984. “Os tabus” “das vantagens adquiridas”, do lucro, dos salários, da flexibilidade e das privatizações foram abatidos um a um. Para se sair da crise “é necessário pensar europeu”, afirmavam já os autores. Eles tinham já decalcado sobre a América uma Europa ideal, de que a jornalista Christine Ockrent traçava os contornos a favor de uma reportagem de antecipação: “Primeira visita oficial da nova presidente da Europa, Margaret Thatcher, aos Estados Unidos. Recebida pelo presidente Reagan, a Sra. Thatcher felicitou-se da boa cooperação entre os Estados Unidos da América e os Estados Unidos da Europa.”

Fica-se também a saber que Vinicola, “uma excecional mistura de todos os vinhos europeus”, se tinha tornado a bebida mais consumida do mundo e que a moeda única do Velho Continente batia recordes dignos de Wall Street…


Notas.

(1) Serge July et Laurent Joffrin, « Vive la crise! », suplemento fora-de-série do  numero 860 de Libération, Fevereiro de  1984, Libération-Le Seuil.

(2) Difundida no dia  22 Fevereiro 1984 sobre Antenne 2. Salvo indicação em contrário as citações seguintes são daí extraídas.

(3) Veja-se Vincent Laurent, « Fondation Saint-Simon : Les architectes du social- libéralisme », Le Monde diplomatique, septembre 1998. Veja-se também  Keith Dixon, « Les évangélistes du marché. Les intellectuels britanniques et le néolibéralisme », Raisons d’agir,1998.

(4) O seu best-seller anti-sindical , Toujours plus! (Grasset), tinha sido publicado em  1982.

(5) Editions du Seuil, 1984.

(6) Serge July, op. cit.

(7« Se um homem de mais de cinquenta anos e ainda membro do PCF  me quiser encontrar e dizer-me bom dia, está a querer  gozar comigo,  declara ele a Paris-Match

 (8) « O aborrecimento, é que já se perderam três anos », entrevista com  Yves Montand, « Vive la crise!, le supplément », op. cit.

(9) Hervé Hamon et Patrick Rotman, Tu vois, je n’ai pas oublié, Seuil-Fayard, Paris, 1990, p. 595.

(10) Michel Albert, Le Pari français, Seuil, 1982, pp. 176-187.

(11Ibid, p. 63. Sublinhe-se que aqui   Michel Albert limita-se a plagiar  Alfred Sauvy (« l’acte le plus dommageable commis depuis la révocation de l’édit de Nantes »), Histoire économique de la France entre les deux guerres, Fayard, 1965, pp. 331-332.

(12) « Vive la crise!, suplemento citado  », op. cit. p. 82. No final de  1983, os trabalhadores  da fábrica  Talbot-Poissy, onde em primeiro lugar  os OS imigrados se tinham duramente   oposto a uma vaga de despedimentos autorizados pelo governo,. .


Artigo original aqui


(O texto nº 5 desta série será publicado amanhã, 20/06/2017, 22h)

.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: