5. O jornal “LIBÉRATION“ e os patrões : juntos desde 1984 – PARTE I

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 5– Parte I

(Sébastian Fontenelle, in blog Bakchich, 2014)

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Depois de François Hollande se ter posicionado bem à direita e deste ter proposto ao Medef “um pacto de responsabilidade”, o diário Libération questiona esta manhã: “É necessário confiar nos patrões?”

Mas na verdade: há trinta anos, quase dia após dia, que este mesmo jornal, claramente neoliberal, respondeu a esta mesma questão.

No mês de Fevereiro de 1984, Libération, então dirigido por Serge July, publica – em complemento de uma emissão de televisão homónima apresentada por Yves Montand – um número excecional fora-de-série, vendido a vinte francos da época e sobriamente titulado: “Viva a crise!”

O seu propósito geral é de uma simplicidade admirável: trata-se de acompanhar a espantosa reviravolta do governo socialista da época, que se tornou defensora das políticas de austeridade.

Obviamente – é pelo menos o que eles proclamam -, a intenção dos jornalistas de Liération não é de forma alguma para agradar a este governo, quando eles se aplicam-se sobre várias dezenas de páginas, “a contar a crise” da qual o Primeiro-ministro em exercício – Pierre Mauroy – acaba precisamente de se queixar de que esta é pouco relatada pela imprensa.

Os jornalistas de Libération são orgulhosos profissionais, ciumentos da sua independência: sabem perfeitamente que “todos os governos sempre sonharam, em qualquer momento, com uma imprensa” às ordens “cuja piedosa leitura inclinaria, dia após dia, os cidadãos ao civismo e, em breve, aos sacrifícios inteligentemente consentidos” – e sabem que acontece mesmo, “às vezes”, que em certos países “a imprensa “explicativa “é uma imprensa amordaçada”.

Mas os jornalistas de Liberação não são dos que se deixam cercar: não é por conseguinte definitivamente (convém insistir) para se porem nas mãos do Estado, que contam a crise da qual os chefes do Estado lamentam que seja insuficientemente contada – mas porque estão plenamente conscientes que “os períodos de grande mutação” exigem “esforços pedagógicos específicos dirigidos ao grande público” para mostrar-lhe “a realidade” da crise.

É a devoção – e nada mais que a devoção – que os faz moverem-se, quando produzem um número especial cuja submissão aos (novos) dogmas governamentais, frequentemente imitada, permanecerá contudo inigualada.

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Mas olhando com muita atenção, e ao facto da instrução das massas (cuja ignorância é às vezes consternadora) “a realidade” da crise, como no-la restituem nos seus editoriais o “patrão” do jornal – a man called Serge July – e os seus fiéis colaboradores, resume-se a uma adição de fórmulas publicitárias cuja característica principal é que estas justificam geralmente – feliz azar – espetaculares renúncias dos socialistas às ideias socialistas.

Assim, July, cuja intrepidez é imensa, não teme ousar “uma imagem claramente mais chocante ” que as que mobilizam os seus pusilânimes confrades da velha imprensa, para anunciar aos Franceses que a crise vai introduzir, nas suas “existências”, “transformações” incluindo que “o efeito” será “ tão importante em intensidade e em consequências de todos os tipos como uma mudança de sexo”.

Depois, acrescentar que “é de uma mudança de vida que seria necessário falar”, e que “a palavra de ordem”, doravante, já não deve ser mais ““mudar a vida “, mas sim a de mudar de vida ”.

Isto cai notavelmente bem para o governo socialista de Pierre Mauroy, que acaba precisamente de renunciar a “ mudar a vida” dos seus administrados, libertando‑os do capitalismo e de optar, em vez disso, por uma estrita ortodoxia capitalista que fará rapidamente dizer a mais de um comentador que “do ponto de vista da tributação do capital, a Grã-Bretanha” da muito (muito) à direita “Margaret Thatcher está à esquerda da França de François Mitterrand”.

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Mudar de vida, explica seguidamente o douto professor July, requer que se deixe de encarar a crise como uma carga, mas sim que esta passe a ser vista sobretudo como uma alegre experiência, porque: “A crise é negativa tanto quanto é sentida como uma doença, como um acidente de percurso.”

Convém, por conseguinte, “para tornar a crise positiva” devemos “transformar os sujeitos passivos ” (e a falar verdade que são incrivelmente linfáticos) que a sofrem (e que têm algumas vezes dificuldade em fazê-lo, tão ocupados que andam a apertar o cinto, a mostrarem-se otimistas – mas há também por aqui um pouco de má vontade nisso) “em sujeitos ativos”, e de “fazer dos cidadãos assistidos, cidadãos empreendedores”.

O que é um cidadão assistido?

É, descreve um Serge July firmemente decidido a não ocultar nada “de uma realidade” que durante muito tempo mata, um (triste) indivíduo, viciado nos benefícios obtidos com a “ Segurança social”, com os “subsídios às famílias”, com “o subsídio de desemprego” e com “ as pensões de reforma”, que tomou desde muito pequeno a parasítica prática de depender do “ Estado providência”, e que tem, desta forma, “vivido numa espécie de oásis social” (com o falacioso pretexto de que este é financiado pelas suas contribuições).

Contra este emoliente cocooning onde o trabalhador se governa à boa vida, o diretor de Libération muito seguro da sua experiência franco-chinesa (mas principalmente hexagonal) de maoista arrependido, pede aos socialistas franceses (de quem é exatamente o projeto) de “incentivar e animar uma espécie “de grande revolução cultural ocidental “” que se fixaria como missão “ transformar a atitude” de cada “ cidadão face à crise”, “dando-lhe ” por exemplo o desejo, “numa mesma existência”, de “mudar várias vezes de profissão, de local de habitação, eventualmente mesmo de país, de residência e, por via de consequência, de cultura, de amizades e de parceiro, permanecendo ao mesmo tempo igual a si-mesmo.”.

A palavra‑mestre é dita (sem contudo ser verdadeiramente pronunciada), por um homem cuja carreira jornalística se fará no perímetro de três bairros parisienses, e que é, por conseguinte, dos melhores qualificados, para abordar tais exigências: é a mobilidade – que não deixa de reclamar um patronato que não quer mais nada que não seja o levantar dos obstáculos que os impedem ainda (os socialistas resolverão o problema) de despedir sem entraves.

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Um outro jornalista de Libération mostra-se tão determinado quanto o seu diretor, na justificação das renegações do governo: chama-se Laurent Joffrin – e fará, no mundo editorial, uma carreira magnífica.

Os socialistas pensavam bem-fazer, explica ele em substância num manifesto que continuará a ser importante três décadas mais tarde na sua produção editorial, quando prometeram aos seus eleitores que rompessem com o capitalismo (porque os socialistas são pessoas gentis, agradáveis).

E não é de forma alguma da sua culpa, se estes renegaram tão rapidamente a sua boa – a sua excelente – vontade que se “quebrou não sobre o muro do dinheiro mas sobre o muro da realidade”, que é não haver no mundo livre, como tão pertinentemente o ilustrou a deliciosa senhora Thatcher (mesmo que tenha posto à fome o proletariado inglês e deixasse morrer nas suas prisões alguns contestatários Irlandeses), nenhuma alternativa a uma completa submissão dos povos às justas leis do capitalismo.

Esta conversão ao realismo dos chefes mitterrandistas, que tiveram a insígnia e uma rara coragem em “reconhecer – em parte – os seus erros”, faz com que Laurent Joffrin mergulhe numa espécie de clímax, porque ele, pela sua parte terá vivido muito mal vivido “o primeiro ano de poder socialista”: isto ter-lhe-á dado, é o que se adivinha, a impressão que a França se tinha transformado em algo como uma democracia popular, vergada sob o jugo “de um jacobinismo com um molho à Marx: Estado, ainda Estado, sempre Estado”, onde “todo ia” por conseguinte “para o Estado”, onde depois tudo vinha do Estado”.

Por sorte, “tudo saiu errado”, e é, do ponto de vista do aplicado Comissário de Libération, uma divina surpresa, porque mais nada se opõe, desde então, a uma muito agradável “reabilitação da iniciativa e do indivíduo” onde o Estado, desqualificado, vai ter que ceder “ o espaço de intervenção, o palco, aos verdadeiros atores” “da grande mutação”, formidavelmente estimulante, que alguns, “por comodidade” (e sem dúvida também porque a imprensa livre ainda não os ensinou a congratularem em cadência), continuam estupidamente a chamar “crise”.

Para estes atrasados, Laurent Joffrin declama: “Tal como estas velhas fortalezas relegadas a terem um papel secundário relativamente à evolução da arte militar, a massa pardacenta do Estado francês assemelha-se cada vez mais a um castelo inútil.”

E acrescenta: A França, liberta das cadeias que a prendem, vai descobrir que a vida está algures, em outros lugares, ela emana da crise, através das empresas, através da iniciativa, através da comunicação”.

E conclui, encantado de tanta ironia : É a esquerda submissa e reverente perante o Estado que é disso a prova e de uma forma bem clara.


(A segunda parte deste texto será publicada amanhã, 21/06/2017, 22h)


Texto original aqui

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