8. O mês em que a esquerda escolheu o rigor, as politicas de austeridade

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 8


(Gerard Moitti, in Express Expansion, 19/05/1993)

De 21 de maio de 1981 a abril de 1991, Jacques Attali, conselheiro especial do presidente da República, ocupou o Eliseu, num gabinete vizinho ao gabinete de François Mitterrand. Foi, escreve, o intelectual de que o Príncipe desconfia bastante para o ter à margem mas em quem ele tem bastante confiança para dele fazer o testemunho de todos os encontros, o filtro de todos os documentos, para lhe confiar muitas missões e para o manter como o seu confidente diário. E ele fez, dia após dia, a crónica destes dez anos em que esteve no meio do poder supremo. O livro que escreveu (verbatim, volume 1981-1986, Fayard ) conserva a forma de um jornal: sobre quase mil páginas, uma narrativa nervosa, cintilante, caleidoscópica, onde alternam sem transição os encontros decisivos do chefe do Estado com os poderosos do planeta, os seus cálculos e as suas hesitações no momento das grandes escolhas, os seus (raros) momentos de abandono, e, à sua volta, a dança das ambições.

Um episódio crucial deste primeiro septenato: a decisão, em Março de 1983, de manter o franco no sistema monetário europeu – consagração da viragem do poder socialista para a política de rigor e de desinflação. No início do mês, François Mitterrand, sob a influência dos visitantes do serão (Jean Riboud, Laurent Fabius, Pierre Bérégovoy…), está decidido a deixar o SME e em deixar flutuar o franco. Alguns dias mais tarde, mudou de opinião. As etapas desta viragem histórica, como Jacques Attali as viveu.

(1) Numa carta à Jean Boissonnat, Michel Rocard precisa, na sequência da publicação deste livro e a propósito da informação segundo a qual teria defendido a saída do SME em 1983. É totalmente errado. Eu defendi a fundo a manutenção no SME com tudo o que isso implicava. Era a minha coerência de militante europeu de sempre. (…) O meu trajeto político seria incompreensível se tivesse tomado esta posição em 1983. Tenho a fraqueza de ter manter não somente as minhas convicções mas também a sua legibilidade.

Terça-feira 1 de Março de 1983 é necessário agora saber o que devemos dizer ao chanceler Kohl.

Reeleito, terá, no dia 6 de março, todo o poder de decisão. Pode-se contar sobre uma reavaliação do marco de pelo menos 7%, no 20 de Março? Se não for assim, o SME deixará de ter qualquer razão de ser e será necessário prepararmo-nos para sair. [o almoço com os economistas em redor do presidente, organizado para lançar as bases de um conselho económico, dá-se pois já em plena tormenta monetária. Estes peritos dão-lhe ao mesmo tempo os pareceres mais precisos e mais contraditórios. Há tantos argumentos em favor de uma como da outra tese. Isto acabou por ter como única utilidade libertar de uma vez por todas o chefe do Estado de qualquer angústia técnica e a convencê-lo que a sua decisão deve ser considerada apenas ao nível político.

 Escolheu sair do SME e manter Pierre Mauroy como Primeiro-ministro. Ainda não o tinha dito a ninguém; mas não hesita mais.

 (…) Na quarta-feira 2 de Março de 1983 (…) a Jacques Delors pede para adiar o Conselho monetário europeu previsto para o dia 7 de Marçopara o dia 14 do mesmo mês. Mas, como é a data das eleições municipais, obteve que fosse rapidamente transferido esse Conselho para o dia 21, segunda-feira. Pelo menos, aí está o que é claro: já ninguém ignora que a desvalorização será levado a cabo nessa sexta-feira. Dirige ao presidente um novo esboço do programa económico associado à desvalorização.

A reavaliação do Deutsche Marco em relação ao franco deveria ser de 7 à 8%

 Domingo 6 de Março de 1983 em França, primeira volta do municipais. A esquerda deixou de ser maioritária em votos no país. (…) Como previsto, Helmut Kohl ganha as legislativas alemãs: 226 em 497 lugares. Fez campanha citando em cada comício o discurso do presidente francês no Bundestag. Será necessário recordar-lho. (…) Na segunda-feira 7 de Março de 1983 começa a mais difícil semana do septenato. Na rádio, Jean Boissonnat apresenta bem o cenário: a semana mais longa acaba de começar para o franco. Com efeito, a simultaneidade da vitória dos democratas na Alemanha e o muito nítido retrocesso da esquerda na França pode apenas aumentar a tensão entre o franco e o marco no sistema monetário europeu. Tensão que já nos terá custado vários milhares de milhões de dólares durante as recentes semanas…

O presidente recebe Michel Rocard, que se posiciona a favor da flutuação do franco (1), e Claude Cheysson, que defende, ele, a manutenção no SME. François Mitterrand transmite a todos os visitantes o sentimento de ainda nada ter decidido. Ou antes dá a cada um o sentimento de ter decidido em sentido contrário ao da tese que o visitante defende.

Terça-feira 8 de Março de 1983: Ao pequeno-almoço, Pierre Mauroy ataca violentamente Edmond Maire a quem considera como responsável, pela sua declaração de fevereiro nas escadarias do Eliseu, da derrota eleitoral. Pus-me de acordo com Jacques Delors sobre um plano a apresentar após a desvalorização. [o presidente tem um ar cerrado.

Quarta-feira 9 de Março de 1983. No Conselho de Ministros, Pierre Mauroy constata a derrota sofrida nas municipais e critica todos aqueles que anunciaram, na véspera das eleições, um novo apertão na política económica. Rocard busca nervosamente na sua pasta um documento impossível de encontrar. Na sexta-feira, 11 de Marçode 1983, mas quem é que inspira por conseguinte os artigos de Serge July, tão abertamente alimentados com as teses dos visitantes do serão? Bérégovoy? Riboud?

Denizet? Servan- Schreiber? Eu tenho uma pequena ideia quanto a isto. 

Sábado 12 de Março de 1983. Dentro de uma semana, será necessário escolher entre desvalorização e flutuação. Dois cenários são possíveis: – ou seja sair do SME segunda-feira e anunciar quarta-feira um programa económico brutal, em especial com cláusulas de salvaguarda e depósitos na importação; – ou seja discutir segunda-feira com os Alemães, ao mais elevado nível, pondo sobre a mesa todo o acordo franco-alemão e exigir uma resposta para o dia seguinte pelas 13 horas. Se a resposta for positiva, é a desvalorização; se for negativa, será necessário sair do SME. Nos dois casos, anunciar-se-á o conjunto de medidas do programa económico na quarta-feira, tal como no caso do primeiro cenário.

O presidente optou claramente pelo primeiro cenário.

Domingo 13 de Março de 1983. Segunda volta das eleições municipais. Alívio: é menos mau que previsto. François Mitterrand, encorajado, interroga-se a meia-voz : Mauroy e Delors já deram o que tinham a dar? Devo eu mantê-los? E Mauroy quer ir embora?

Amanhã, anunciará à Mauroy que o manterá para dirigir a política dos visitantes ao serão. Aceitará?

Na segunda-feira 14 de Março de 1983. Às 10 horas, François Mitterrand recebe Pierre Mauroy: a partir de amanhã à noite o mais tardar, tendo em vista o Conselho europeu de próxima segunda-feira, tudo se vai agitar. Uma decisão monetária, qualquer que seja, aparecerá como tomada sob a pressão dos acontecimentos. É necessário por conseguinte decidir hoje. Proponha amanhã um governo reduzido, com uma política nova fundada sobre a flutuação do franco.

Pierre Mauroy: Não a sei fazer. Não sou o homem para uma tal política.

O presidente fica mais surpreendido que furioso. Não esperava esta resposta . Pela primeira vez, Pierre Mauroy resiste-lhe.

Às 15 horas, recebe Pierre Bérégovoy, Laurent Fabius e Jean Riboud. É François Mitterrand está determinado. Não lhes diz que Pierre Mauroy se recusou em conduzir a ação proposta. Sabe que vários dos visitantes da noite desejam a sua sucessão em Matignon.

Às 17 horas, François Mitterrand recebe outra vez Pierre Mauroy, que lhe traz uma carta de demissão e confirma: Não sei lidar com a flutuação do franco. Não há nenhuma linha de referência que nos sirva de exemplo. A França tornar-se-ia um gigantesco Portugal.

De muito de mau humor, o presidente pede à Mauroy que reflita.

Terça-feira 15 de Março de 1983. Às 10:30, François Mitterrand recebe Pierre Mauroy, que explica-lhe de novo os perigos da flutuação do franco. Magnífica coragem, a do Primeiro-ministro.

A entrevista derrapa. Fabius é muito influente… O presidente tem uma nova ideia: fazer que seja Jacques Delors a levar a cabo a política de flutuação do franco!

Procura Delors. Este está em Matignon com Mauroy; eu junto-me a eles.

Delors não aceitará. O nosso ponto de vista comum é claro: sozinhos, não chegaremos a lado nenhum. É necessário que um dos ministros entre os visitantes do serão – Fabius, Defferre ou Bérégovoy – mudem de opinião de modo a que tenhamos uma possibilidade de convencer o presidente. Peço à Delors que permita ao diretor do Tesouro, Michel Camdessus, de comunicar o montante real das nossas reservas em divisas a Fabius e Defferre. Quando estes o souberem – não está longe de zero -, compreenderão que o franco flutuante não pode sustentar uma paridade e que, portanto, isso seria entrar numa espiral infernal.

Delors aceita com reservas. Informará Fabius. Previno o presidente, que aprova. Às A 15 horas, François Mitterrand chama Jacques Delors. Propõe-lhe que assuma o cargo de Primeiro-ministro na condição de aceita efetuar uma política fundada sobre a saída do SME. Delors recusa. A frente Mauroy-Delors parece aguentar-se.

Mais que três dias antes do fim do prazo, o Conselho europeu. Às 19 horas, o presidente recebe de novo Jean Riboud, Laurent Fabius e Pierre Bérégovoy. Comunicou-lhes as suas incertezas.

Estes acreditam que a sua hora está próxima. O presidente, com efeito, começa a mudar de opinião. Há a manifestação dos estudantes em medicina em Paris. Não é realmente o momento!

Quarta-feira 16 de Março de 1983. Às 8 horas, pequeno – almoço entre Mauroy e Delors, rue de Varenne.

Jacques Delors pede à Mauroy que permaneça em Matignon, aconteça o que acontecer. Às 9 horas, François Mitterrand recebe Pierre Mauroy, como todas as quartas-feiras de manhã. Mauroy declara aceitar continuar como Primeiro-ministro, independentemente da escolha de política económica que venha a ser feita. Pede-lhe apenas que o deixe tentar, antes de se decidir por uma flutuação, obter uma forte reavaliação do Deutsche Marco: Stoltenberg vem a Paris amanhã falar com Delors. Deixe-o negociar.

Ver-se- á o que isso dá. François Mitterrand escuta-o muito cuidadosamente. É aí que se situa, sem dúvida, o momento da sua mudança: aceita deixar Delors negociar uma desvalorização. Decide dirigir-se aos Franceses no 23 de março. Nessa data, de qualquer modo, algo terá já sido feito. Mas o quê? No seu regresso à rua de Rivoli, pelas 13:30, Laurent Fabius convoca o diretor do Tesouro. Descobre que as reservas cambiais não permitem aguentar mais de quinze dias no caso de flutuação.

Muda de opção e decide a manutenção no SME e previne o presidente. 

Está convencido ou será que sentiu que François Mitterrand, ele, já teria mudado de opinião? Um pouco mais tarde nesse mesmo dia, Gaston Defferre fará o mesmo modo. Às 15 horas, o presidente interroga-me: Mas se os Alemães recusarem reavaliar, será mesmo necessário aceitar uma desvalorização unilateral do franco?

Boa pergunta. A viragem está decidida . O presidente mudou de opinião.

Formidável esforço! François Mitterrand encontra Delors antes que este parta para Celle-Saint-Cloud onde vai negociar com Stoltenberg: É necessário obter uma reavaliação do marco de 6 pontos, com uma desvalorização do franco de 2 pontos.

Seguidamente recebe de novo Jean Riboud e os outros visitantes. Saberão eles que já estão a perder terreno?

Sábado 19 de Março de 1983. A reunião dos dez ministros das Finanças abre-se em Bruxelles. Nada filtra nessa manhã. Depois do almoço, Christian Goux volta ainda à carga, de maneira muito convincente, a favor da flutuação. O presidente: Decididamente, toda e qualquer tese é economicamente justificável. Agora está decidido mantermos o franco no SME se a desvalorização tiver êxito. Mas é necessário alterar o governo.

Domingo 20 de Março de 1983. Espanto: às 8:30, esta manhã, Jacques Delors declara em Bruxelas que coisas importantes que se vão passar em Paris exigem o seu regresso. Regressa. François Mitterrand fica furioso: mas não lhe pedi para regressar! Delors julga-se, muito provavelmente já Primeiro-ministro. É recebido rapidamente pelo presidente, que o manda seguir para Bruxelas.

Segunda-feira 21 de Março de 1983. De madrugada, a negociação de Bruxelas é dada por concluída: reavaliação de 5,5% do marco, 3,5% do florim, 2,5% da coroa, de 1,5% o franco belga e luxemburguês, desvalorização de 2,5% do franco francês e da lira. Está correto. O suficiente, de toda a maneira, para ficar no SME. Agora, vamos partir para o Conselho Europeu. No avião, François Mitterrand fala-me detalhadamente sobre as virtudes de cada um dos possíveis candidatos a Matignon. Eu inclinei-me para Jacques Delors. Michel Vauzelle argumenta no mesmo sentido. O Presidente parece estar decidido: proporá Matignon a Delors. Na terça-feira, 22 Março de 1983 François Mitterrand confirma: Eu vou escolher Delors. Reúne Bérégovoy, Fabius, Delors e Bianco para um almoço rápido. Não fala de nada. Em seguida, recebe em privado cada um dos três primeiros candidatos a Matignon.

A Jacques Delors, o primeiro a ser recebido, declara que encara propor-lhe que seja o seu Primeiro- ministro. Delors aceita com ardor.

 François Mitterrand pede-lhe então que seja Fabius nas Finanças.

Delors recusa: deseja manter-se nas Finanças, mesmo se vá para Matignon. O presidente, fica pálido, não responde nada. Delors quereria acrescentar que não faz disso uma condição sine qua non, mas cala-se.

Por volta das 16:30, o presidente chama-me no seu escritório: Veja-se, Delors quer manter as Finanças consigo, para além de ter Matignon! Não quero pôr-me nas mãos de um só um homem. Mantenho Mauroy; chamo-o para lho dizer. Chame Delors, diga-lhe que é número 2 do governo. Poisa a mão e acrescenta sorrindo: Então, vamos? Na segunda-feira 28 de Março de 1983 o franco aguenta-se; as divisas regressam.


(O nono texto desta série será publicado amanhã, 29/06/2017, 22h)


Texto original aqui

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