11. Quando os socialistas franceses libertaram a finança – PARTE IV

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 11 – Parte IV

(Por Raphaël Kempf, 12/04/2012)

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Na sua notável obra sobre a década de 1980, François Cusset sublinhou esta grande vitória paradoxal da esquerda. “Os meios económicos, eles mesmos, felicitam-se por uma crise que empurra o novo poder para aplicar reformas que vão no sentido dos seus interesses: rigor salarial, redução da fiscalidade, modernização dos mercados financeiros, flexibilidade acrescida do emprego. A esquerda é mais liberal, mais eficazmente neoliberal que a direita,  congratulam-se eles, e esta esquerda sozinha pode ter  levado  a cabo em apenas três pequenos anos o desmantelamento de um anticapitalismo francês que se acreditava inextirpável. ” Que fazer, doravante, desta esquerda de governo? Pode-se acreditar que o rigor era apenas “um parênteses” (14), como o explicou naquela época , em 1983, o primeiro secretário do PS (15)?

Lionel Jospin dirigia então um partido “pensado sobretudo como uma organização de mobilização do eleitorado, em detrimento das outras funções atribuídas a um partido político, como nomeadamente a função doutrinal” (16). Com efeito foi demonstrado que o partido tinha sido marginalizado nas escolhas feitas pelo governo de François Mitterrand (17). O aparelho militante não tinha a sua palavra a dizer, como também não a tinha o povo, a quem era imposta esta viragem.

É aqui que o livro de Rawi Abdelal levanta outra interrogação. Se são, na verdade, as “escolhas políticas” que permitiram a expansão da finança, a natureza desta “política” é pelo menos redutora. O termo visa aqui apenas escolhas feitas a nível de peritos governamentais, altos funcionários ou ministros, que debateram entre eles as opções a tomar. O povo é reduzido apenas à “ classe média ” em proveito de quem teria sido decidida a viragem para as políticas de rigor e a liberalização financeira e bancária. Assim, para além do alinhamento  da esquerda de governo ao capital, o ano 1983 assinalaria também o abandono pela esquerda das classes populares?

Como ler, igualmente, a fina análise feita pelo autor da noção de credibilidade? Vivemos, explica, “na era da credibilidade”. Ou seja que “o sucesso de uma política depende fundamental e necessariamente da maneira como os mercados financeiros reagem. […] Quando os mercados não acreditam que uma política vai melhorar os desempenhos económicos de um país, então esta política não pode ter êxito” (p. 163). Deve-se deduzir que é já demasiado tarde para mudar seja o que for, que a política já não existe mais? “Na França, escreve ainda François Cusset, como no resto do mundo ocidental, os anos 1980 são o resultado de um processo bissecular de auto limitação económica da política, se não mesmo o resultado de uma muito  velha tentativa, certamente impossível, de querer eliminar a política” (18).

É verdade que uma vez que as regras do capitalismo mundializado estão inscritas em tratados internacionais, os quais necessitam o acordo de várias dezenas de países para ser alterados, parece então impossível voltar atrás e escolher outra política. Codificando estas regras durante os anos 1980, a política é-se ela mesmo proibida, para o futuro, de poder fazer outras escolhas.

O livro de Rawi Abdelal, se não se pronuncia sobre o futuro da política, tem o mérito de pôr em dia esta história. E parece surpreendente que este tenha sido ignorada em França, quando este país é mesmo o primeiro interessado. Poder-se-ia aconselhar a leitura ao candidato socialista? Isso permitir-lhe-ia talvez formular com mais cautela, e é-se tentado em dizer, com mais realismo, as suas diatribes contra a finança. Conhecer e assumir o passado do seu próprio partido permitir-lhe -ia talvez ultrapassá‑lo e não enganar a expectativa destes eleitores deslumbrados pelos encantos de um candidato normal, próximo das pessoas, e cujos ataques contra a finança parecem tão convincentes.

Post-scriptum : Enquanto que me preparava para enviar a final versão deste artigo à redação do RdL, François Hollande dava uma entrevista à imprensa britânica. Na frente dos jornalistas, longe de passar sob silêncio o papel da esquerda de governo na expansão do capitalismo financeiro, assume-o e afirma-o… em Londres, mas não na frente dos eleitores franceses! Eis como, alguns semanas depois do discurso de Bourget, procura abertamente tranquilizar os mercados: “a esquerda esteve no governo durante quinze anos, no decorrer dos quais liberalizamos a economia e abrimos os mercados à finança e às privatizações”. A conclusão do candidato socialista está imediata : “Não há nada que ter medo. ” E o povo de esquerda, na França, de que deve ele ter medo? (“François Hollande seeks to ressegura UK and City of London”, The Guardian, 14 de fevereiro de 2012)


Notas:

13. Jérôme Sgard, art. cit. Veja-se também Nicolas Véron, « Le “French paradox” de la libéralisation financière », La Vie des Idées, Setembro de 2007.

14. Citado par Thierry Barboni, « Ressorts du discours socialiste lors du « virage de la rigueur » », Nouvelles Fondations, 2006, n° 2.
15. François Cusset, La Décennie. Le grand cauchemar des années 1980, Paris, La Découverte, 2006, p. 93.
16. Ibid., p. 62.
17. Ibid.
18. Ibid, p. 214.

 


(O décimo segundo texto desta série será publicado amanhã, 11/07/2017, 22h)


Texto original aqui

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