13. A semana onde a esquerda virou à direita – PARTE I

Em 1983 tudo se passa como se o poder socialista guarde no bolso as suas teorias económicas e responde na urgência da situação utilizando o arsenal mais clássico possível. Não terá ele um outro discurso a defender, outras escolhas a fazer, e no mínimo um verdadeiro debate a propor?

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 13 – Parte I

(Por François Ruffin, Abril de 2013)

É um aniversário que as pessoas se esqueceram de celebrar: há trinta anos, em Março de 1983, a esquerda virou à direita. Em dez dias desenrola-se um thriller político. No dia 13 de Março, François Mitterrand deseja a “outra política”. No dia 23 de Março, vergou-se: será o momento “ da viragem para o rigor” e para a Europa da austeridade. Abre-se então “o parêntese liberal”. No qual ainda estamos bloqueados.

1 de Maio de 2012 – A homenagem

Em plena campanha, entre as duas voltas das presidenciais, François Hollande não desfila nos cortejos de manifestantes. Foi a Nevers, para uma homenagem ao antigo Presidente da Câmara Municipal da cidade, o Primeiro-ministro Pierre Bérégovoy, que se suicidou no dia 1º de Maio de 1993. O candidato socialista saúda “o operário, o homem de Estado, grande servidor da República”, mas nós, diz-nos Libération , “mais do que da vitória da esquerda, é de 1984 que se fala, quando Bérégovoy, nomeado para Ministro da economia, teve que pôr em marcha “a correção das contas públicas da França, corroída pelos défices e pela inflação”. Quando o antigo operário se tornou “o homem que sabia gerir”. Um retrato póstumo que vale promessa se ganharem no Domingo”, conclui o jornal. E o porta-voz da sua campanha, Bernard Cazeneuve, hoje ministro do Orçamento, acrescenta: “Bérégovoy é um marco na história da esquerda. É ele que reconciliou a esquerda e o realismo.”

É mais que um sinal. Como pai espiritual, François Hollande tinha já Jacques Delors, o grande artesão da renúncia, de que ele foi um dos seus colaboradores quando esteve  á frente do clube dos Témoins ( Testemunhos). Mas eis que antes mesmo da sua entrada em funções, como inspirador pouco inspirado, escolhe o agradável Béré, o socialista que liberalizou os mercados financeiros, que tinha “da austeridade” sempre cheia a sua boca, que se tornou um sim-sim- ao franco forte. Porque Pierre Bérégovoy, para além das suas qualidades pessoais, para além do seu fim trágico, encarnou a esquerda carpete, vergou-se totalmente em face das potências do dinheiro, pôs-se de joelhos face à Alemanha e à Europa. Todo um programa, para o futuro presidente: ele não lutaria, não resistiria, anunciava-o já. Em 1983, François Mitterrand, e com ele o PS, tinha aberto “o parêntese liberal”, assinado um armistício, após muitas hesitações,  muitas evasivas, uma pequena dor de alma. Trinta anos depois, o seu sucessor no Eliseu faz desta renúncia o seu orgulho: a capitulação quer-se definitiva – e habitada por um estranho orgulho.

14 Março de 1983 – O nó da questão

Ontem, a esquerda sofreu uma derrota, mas não uma derrocada. “Uma advertência”, como diz Lionel Jospin, o primeiro secretário do PS, com trinta e umas cidades perdidas: Grenoble, Roubaix, Tourcoing, Épinal, Nîmes, etc. No Eliseu, o presidente espera o seu Primeiro ministro. É a hora da escolha, então, uma escolha que ele recusa desde há já muito tempo. Relê uma nota, que lhe passou Jacques Delors, o seu ministro da economia: “Ao longo de um ano, o consumo dos Franceses aumenta 3,7 %, mas a produção interna apenas 2,1 %. A diferença é assegurada por um aumento de importações. ” O défice comercial aumentou de trinta e dois mil milhões. Ao longo de um ano, a taxa de cobertura em produtos manufaturados reduziu-se de dez pontos, passando de 88 % a 78 %.

É claro: o relançamento da economia francesa beneficia sobretudo os Alemães, os Americanos, os Japoneses. O que fazer, então? Há apenas duas opções, e nunca terceira via: a França deve sair do Sistema monetário europeu (SME), tomar medidas protecionistas, limitar as importações, e persistir numa política “de esquerda”, voluntarista, virada para a indústria, para o progresso social? Ou deve aceitar a disciplina do SME, vincular o franco ao marco, e, portanto, proceder “a um saneamento” orçamental, a uma “desinflação competitiva”, em suma, à austeridade tanto para o Estado como para os assalariados? Este é nó da questão, é necessário agora cortá-lo, decidindo qual a opção a tomar. Um nó que Mitterrand ele mesmo emaranhou, conscientemente, desde há um ano pelo menos.

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16 Junho de 1982 – A outra política

A partir de 5 de junho de 1981, o seu conselheiro, Jacques Attali, sempre rápido a pôr o pé no travão avisou-o contra os défices: “De momento, faço política, respondeu-lhe François Mitterrand. O rigor, ver-se-á mais tarde. ” Na Primavera de 1982, o seu Primeiro-ministro, Pierre Mauroy, apresentou‑lhe um plano de rigor, precisamente: “deixe-me organizar a minha cimeira, depois ver-se-á. ” O monarca socialista acolhia o G7 em Versailles, com banquete, fogo-de-artifício, ópera, no princípio de Junho: pelo que não estava interessado, por agora, em inquietar-se com estas questões. Mas a partir do fim-de-semana seguinte, sábado 12, o franco era desvalorizado em 9,75 % relativamente ao marco. E no dia seguinte, Domingo, o Conselho de Ministros bloqueava os preços e os salários por um período de quatro meses. Os defensores da política de rigor pareciam estar a ganhar a batalha de convencer o Presidente. Mas no dia 16 de junho, em conferência de imprensa, o presidente acompanhou esta orientação, temporária, de um discurso agressivo: “Encontramo-nos num caso típico de luta das classes, ao mesmo tempo nacional e internacional. Não podemos contar sobre nenhum dos grandes países capitalistas, porque para eles o objetivo é demonstrar que nós não nos podemos isolar. Esta constatação teria podido conduzir-nos então a deixar o SME porque, finalmente, este sistema obriga-nos a que o combatamos. […] Se falharmos nesta segunda fase, uma terceira fase poderia conduzir-nos a sair do SME.”


(A segunda parte deste texto será publicada amanhã, 14/07/2017, 22h)


Texto original aqui

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