Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF – Introdução, Parte III

 

François Mitterrand: “A luta de  classes não é para mim um objetivo. Procuro que esta deixe de existir!”

Lionel Jospin:  “Eu sou um socialista de inspiração, mas o projeto que proponho ao país  não é um projeto socialista. É uma síntese do que é necessário hoje. Ou seja, é  a modernidade. ”

François Hollande   “Vivi cinco anos de poder relativamente absoluto. (…)  Eu naturalmente impus ao meu campo que, sem nenhuma sombra de dúvida, só iria aprovar as políticas que eu consideraria serem justas.” 


Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF

(Introdução, por Júlio Marques Mota)

JULIO_MOTA

A farsa acabou. O povo francês, Macron escolheu. Um outro ciclo de tragédia e de  farsa já começou.


Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF

No entanto, para se perceber bem o significado da trajetória assassina que durante mais de 30 anos foi seguida pelos dirigentes do PS francês, trajetória assassina face às classes trabalhadoras, face ao povo francês, é conveniente termos alguma ideia não só sobre a dimensão da farsa que agora está a ocorrer como também sobre as negras perspetivas que se desenham para as classes trabalhadoras a partir de agora. Por isso o tratamento destes dois pontos preenche a primeira parte desta série intitulada Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF.

Os meus amigos aconselharam-me a votar Macron no caso de ser um eleitor francês, uma hipótese que liminarmente recusei. E expliquei-me, considerando que a grande opção seria a ida às urnas com voto em branco ou nulo e mais, se fosse imperativo ter que votar num dos dois candidatos, eu não sentiria problemas em votar Marine Le Pen, pois em Macron é que nunca votaria.

Assim mesmo, pois nunca admitiria poder votar no homem da alta finança, no homem de Bruxelas, no homem que irá praticar em França um Memorando de Entendimento sem que seja necessário assiná-lo com as instâncias europeias, como tiveram que o fazer Portugal, a Grécia, a Irlanda e Chipre. Mais coragem teve Berlusconi que o recusou e por isso caiu! Talvez já ninguém se lembre disso, do memorando de entendimento imposto por Trichet e por Draghi quando este último ainda não tinha assumido o cargo de Presidente do BCE e que Berlusconi fez aparecer nos media italianos. Um verdadeiro ataque à Democracia, esse texto.

Mas no caso de Macron não se trata verdadeiramente de coragem, trata-se de ser coerente consigo mesmo. O poder foi-lhe dado para cumprir o dito memorando não assinado, de resto por Macron bem desejado. É esta a coerência a que me refiro. Os textos sobre o reforço da lei El Khomri aí estão a prová-lo claramente. E é neste homem que os meus amigos me aconselhavam a votar!

Já é pois tempo de nos debruçarmos um pouco sobre o personagem escolhido pela minoria dos franceses que foram às urnas, uma vez que a abstenção atingiu níveis nunca até agora vistos na V República.

Fá-lo-emos primeiro debruçando-nos sobre alguns traços pessoais vindos a público do referido personagem e depois analisaremos algumas das suas orientações em política económica. Falaremos assim sobre o final da farsa, onde se fala de Deuses, de Santos e de Reis. E abriremos a seguir a análise para o campo da tragédia, para o que se desenha no horizonte para o povo francês, para as classes trabalhadoras, e o que se desenha é claramente um capitalismo de Far-West, onde a lei é apenas a do mais forte, ou seja a do capital. Foi para isso que lá foi posto e isto é igualmente coerente com o projeto europeu estabelecido pós Troika. Se dúvidas há quanto a isto veja-se o que nos diz I.  Omarjee sobre o Estado de não direito em que se está a transformar o espaço da União Europeia[1]:

Recentemente, o presidente da Comissão Jean-Claude Juncker explicou que o tratamento económico atualmente infligido à Grécia não estava seguramente conforme à Carta dos direitos fundamentais da Europa, mas que isto não é assim tão grave uma vez que a Troika é uma estrutura ad hoc que age fora de quadro jurídico. Não é isto, precisamente, a definição do arbitrário e do direito do mais forte?

Sim, partilho o sentimento geral sobre a brutalidade e o caráter arbitrário de uma tal declaração que não é, contudo, nem o fruto do azar nem o sinal de uma afirmação desajeitada. A posição defendida por Jean-Claude Juncker faz eco à governança económica e em especial ao esquema imaginado aquando da adoção do Mecanismo Europeu de Estabilidade que, intencionalmente, foi concebido fora do direito da União europeia e por conseguinte da Carta dos direitos fundamentais.

Várias vezes, o Tribunal de Justiça foi solicitado quanto à conformidade com a Carta dos direitos fundamentais das medidas nacionais de austeridade exigidas pela União ou contidas nos acordos de facilidade de assistência financeira concebidos no âmbito do Mecanismo europeu de estabilidade. Quer se trate das medidas adotadas na Grécia, em Portugal, em Chipre, na Roménia ou na Irlanda, o Tribunal constantemente julgou que estas medidas não podiam ser submetidas ao controlo da Carta porque elas não resultavam da aplicação do direito da União e portanto da Carta dos direitos fundamentais.

Estamos a assistir aqui a uma evolução preocupante da criação de instrumentos fora do quadro jurídico da União para de seguida subtraí-los ao controlo jurisdicional ou aos textos fundamentais.

Tudo conforme, portanto. O capitalismo do mais forte, o que Juncker simboliza acima a propósito da ausência de suporte jurídico para a austeridade imposta aos mais fracos, o capitalismo do Far-West, o que Macron pretende com o aprofundar da lei El Khomri.

Mas situemo-nos basicamente em Macron. De Macron ouvimos falar em Presidente jupiteriano, ouvimos falar em Senhor dos Tempos ou dos Relógios, ouvimos falar que o povo francês deseja um rei, que o povo francês nunca desejou matar o rei que matou em 1793, e do seu Ministro da Economia Bruno Le Maire. De Bruno ouvimos agora falar por aquilo que disse em Nova York, perante uma assistência de banqueiros, de economistas e de financeiros, e passamos a citar: “Macron é Júpiter e eu sou Hermès, o seu mensageiro”.

É pois este aspeto do final da farsa que passaremos a expor. Depois, falaremos do início da próxima tragédia que se desenha já em França e só depois entraremos a fundo na elaboração do relatório da autopsia do moribundo, o PSF, cuja morte está anunciada para breve. Com o relatório dessa autópsia ficamos a saber que nada do que está agora a acontecer está a acontecer por acaso. Tudo o que agora está a acontecer, como o iremos provar, é fruto da ação meticulosa de homens que ao longo do tempo venderam a alma ao Diabo e com ela venderam a esperança do povo francês, muitas das vezes em nome do medo de derivas  militaristas, (Mitterrand) da ideologia (Delors), da submissão à alta finança, Beregovoy e Jospin, em nome, de esconderem a sua impotência como governantes e algo mais, como é o caso de François Hollande.    Pois bem, é  a análise desta ação meticulosa que constitui a terceira e última parte desta série de textos, ou seja, sobre a morte lenta do PSF.

Sobre a farsa, nada melhor do que começar por um dos escribas de Mitterrand da década dos anos 80, um dos autores de Vive la Crise, Laurent Joffrin com o seu artigo de titulo bem sugestivo, Macron au Congrès, le roi en son Parlement. Seguem-se depois:

  1. Francis Métivier, Emmanuel Macron pensa que ” nos falta um rei em França”: uma enorme regressão ideológica
  2. Le Point, Emmanuel Macron, mais realista que socialista;
  3. Revista Causeur, Macron, um tão velho presidente
  4. Amélie James, Quem é o «senhor do Tempo» invocado por Emmanuel Macron?,
  5. Benoît Rayski, O Deus da Economia Hermès Le Maire um filho favorito de Jupiter
  6. Alice Develey, Jesus, Júpiter, Luis XIV e Emmanuel Macron
  7. Presidente jupiteriano: como é que Macron pensa reinar no Olimpo, entrevista a John Scheid, especialista sobre Antiguidade.

Sobre a tragédia que se avizinha:

  1. Régis de Castelnau – Revista Causeur, E agora, a destruição do código do trabalho assalariado – Assalariados, tremam é a Europa que ganhou
  2. Luc Peillon et Alexia Eychenne, jornal Libération, Código do Trabalho : o que nos prepara verdadeiramente o governo
  3. David Cayla, Reforma do mercado de trabalho: as empresas serão também perdedoras
  4. Reforma do Código do Trabalho: a caminho de um “capitalismo western” Entrevista com David Cayla
  5. JACQUES SAPIR, O falhanço de uma política

Sobre a autópsia à morte próxima do PSF

  1. Thierry Barboni, O que se deve reter do discurso socialista aquando da viragem para a política de rigor
  2. Rafaël Cos, O vazio ideológico do Partido Socialista
  3. Rémi Lefebvre, Superação ou desaparecimento do partido socialista (2012-2017)?
  4. Dominique Meda, Porque é que a esquerda governamental esqueceu o trabalho?
  5. Fabien Escalona, A social-democracia na Europa: crise terminal ou novo «campo de batalha»?

Júlio Marques Mota

Coimbra, 11 de Julho de 2017.


Notas:

[1] Veja-se I. Omarjee : «On assiste à une évolution préoccupante des instruments juridiques européens». Texto disponível em : http://l-arene-nue.blogspot.pt/


O primeiro texto desta série será publicado amanhã, 30/07/2017, 22h


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