A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. II – Repartição da riqueza e a economia alemã: uma pequena desmistificação (parte 2)

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

II – Repartição da riqueza e a economia alemã: uma pequena desmistificação (parte 2), por Onubre Einz

Publicado por criseusa.blog.lemonde em 20 de abril de 2013

Transferência de riqueza, transferênci

Reedição revista dos artigos publicados em A Viagem dos Argonautas em 26 e 28 de março de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/03/26/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-ii-reparticao-da-r/

e https://aviagemdosargonautas.net/2015/03/28/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-ii-reparticao-da-r-2/)

 

 

(conclusão)

 B – As lógicas dos investimentos

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Para medir o Investimento total ou a formação bruta de capital das empresas, das administrações públicas e dos particulares, é necessário adicionar o investimento privado em habitação (E), os investimentos públicos (F) e os investimentos produtivos (A), resultante dos investimentos em máquinas e equipamentos (B), as construções imobiliárias de vocação produtiva (C) e um remanescente de investimento produtivo que DESTATIS [Departamento Federal alemão de Estatísticas] nem sempre integra na FBCF das empresas privadas.

Verifica-se, então, que o investimento produtivo (A) se caracteriza por uma queda durante os anos 2001-2005 e que retoma a sua subida a partir de 2006. A comparação com a sua parte no rendimento nacional altera-se radicalmente; com estes novos dados disponibilizados por DESTATIS, não é possível tornar coerentes entre si os dados: a FBCF deixa de ser calculada da mesma forma!!!

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O que nos interessa neste esquema, é só uma coisa: a taxa de investimento produtivo das empresas baixa a partir de 1992 e existe entre os anos que vão de 1992 até ao primeiro mandato de Schröder. A diferença essencial com as nossas constatações anteriores é a seguinte: a partilha do rendimento mostra uma taxa de investimento estável (+ou-15 %) enquanto que a taxa aqui calculada diminui nos anos 90 e cai depois após 2000.

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Este novo gráfico indica como pode ter sido gerida a queda da taxa de investimento para não penalizar a competitividade das empresas alemãs. A queda do investimento do conjunto das empresas poderá ter sido neutralizada pela manutenção da taxa de investimento em máquinas e bens de equipamento enquanto os investimentos em construção terão pago o preço alto da queda da taxa de investimento.

Talvez possamos levantar aqui, parcialmente, a nossa contradição estatística reformulando as nossas ideias: 1° Se a taxa de investimento tem sido constante e considerando que os equipamentos de produção têm sido preferidos ao investimento em construção, então a estrutura desequilibrada do investimento é a tradução germânica dos efeitos do aumento da parte dos rendimentos da propriedade do capital que afeta as remunerações e os investimentos. As estatísticas alemãs contraditórias podem pois apoiar esta tese baseada na repartição do rendimento. Se a taxa de investimento está em declínio, a tese precedente ainda é válida com uma reformulação parcial: a preferência concedida aos equipamentos de produção em desfavor da construção é a maneira original que o capitalismo alemão teve para preservar a sua competitividade. Mas, houve de facto erosão do investimento produtivo.

Quanto à crise atual, ela parece ter simplesmente suspendido um processo que, a prazo, é insustentável. Os investimentos em construção não podem ser negligenciados duradouramente.

É pois necessário interrogarmo-nos sobre a validade das estatísticas alemãs utilizadas neste trabalho: qual das duas estatísticas utilizadas em A e B nos informa melhor sobre a taxa de investimento?

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A expressão sob a forma de taxa dos rendimentos da propriedade do capital e da FBCF relativamente ao PIB mostra que existe uma relação inversa entre a taxa de crescimento dos rendimentos da propriedade do capital e a taxa de investimento produtivo. São, portanto, os rendimentos da propriedade do capital que parecem pesar significativamente sobre as taxas de acumulação.

Deste ponto de vista, estamos muito próximos da tese que defendemos neste blog, a saber, que a formação dos rendimentos do top 10 dos agregados familiares (ou 20 contando por alto) – em grande medida devido às desigualdades de repartição da propriedade do capital – pesa significativamente sobre o nível de investimento. Os alemães acomodaram-se, ao que parece, a esta pressão evitando uma baixa da taxa de acumulação produtiva através de um arranjo provisório de investimento desfavorável em construção.

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Em contrapartida vemos que não existe uma relação tão clara entre a queda do investimento e a queda das remunerações. Se ela determinasse o nível de investimento, a queda das remunerações deveria alimentar uma subida das taxas de investimento. Ora, isso não aconteceu entre 1992 e 2007.

Parece, portanto, que o que se esconde na nossa primeira série de estatísticas (A), é a relação profunda entre queda da taxa de investimento e crescimento dos rendimentos da propriedade, a pesarem tanto sobre as remunerações como sobre o investimento.

C – As componentes das remunerações.

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A comparação das componentes das remunerações é interessante. O salário pago por hora é apenas uma parte do custo por hora de trabalho, incluindo este as prestações indiretas. Portanto, pode-se distinguir neles uma diferença entre salário (B) e remuneração (A). Reencontramos aqui um processo semelhante à evolução do investimento produtivo. Até às reformas Schröder, a progressão do salário por hora é paralela à evolução das remunerações. Após 2002, a muito fraca progressão das remunerações é explicada pela muito forte queda do salário pago por hora e que é uma das componentes das remunerações. E, mais uma vez, salário e remuneração evoluem em paralelo com a crise. As economias realizadas em construção reencontram-se nas economias feitas no salário por hora, que teve uma evolução negativa no seu índice.

Conclusão

Parece-nos provável que a queda da taxa de investimento alemã é um facto e que resultou menos da flutuação dos custos diretos e indiretos do que dos rendimentos da propriedade do capital. Acreditamos como provável que a queda da taxa de investimento é, principalmente, a resultante da evolução dos rendimentos da propriedade do capital e, só depois, por uma parte bem menor, dos custos do trabalho que não são a determinante essencial. Estes custos do trabalho sofreram um duro golpe com as reformas de Schröder que os fizeram baixar de forma significativa.

Para amortecer a queda da taxa de investimento e o seu efeito negativo sobre a competitividade do país, as empresas alemãs sacrificaram o seu investimento em construção e mantiveram um investimento regular em máquinas e bens de equipamento. Para dispôr de capacidade de investimento compatível com o aumento dos rendimentos da propriedade do capital, a economia alemã, a Alemanha fez uma arbitragem desfavorável aos salários mas sem atacar muito fortemente os salários indiretos.

Portanto, verifica-se uma semelhança notável entre os EUA e a Alemanha. Em ambos os países a taxa de investimento baixou e a partilha da riqueza criada é feita em proveito dos rendimentos da propriedade do capital e em detrimento dos salários e dos investimentos. Mas a estrutura, ainda industrial da economia alemã advogou por uma manutenção do investimento produtivo em máquinas e bens de equipamento, enquanto que a dimensão social da economia fez incidir sobre os salários diretos o peso desta partilha desigual.

As estruturas industriais e sociais do país modificaram as condições da expressão do declínio económico do país que se revela por um enriquecimento acelerado das camadas de rendimentos superiores da população. Aos rendimentos do capital é necessário acrescentar a polarização dos rendimentos do trabalho para o topo da pirâmide social.

A velocidade com que se dá a distorção da distribuição do rendimento a favor dos rendimentos superiores é proporcional à velocidade com que o país se precipita no seu declínio. Depois de 2002, as classes dirigentes alemãs estavam visivelmente apressadas. Elas dotaram-se de uma capacidade de acumulação de rendimento e de património novas.

A crise, suspendendo este processo de enriquecimento de uma minoria e de declínio do país, parou um processo que se parece com um atalho histórico por brusca aceleração. Não insistiremos demasiado sobre o facto de que a economia social de mercado e a social democracia foram enterradas pelo chanceler Schröder.

Após 2002, os alemães ricos correram, literalmente, atrás dos seus homólogos americanos que levaram uma trintena de anos para afundarem o seu país. Ao acelerarem o passo, os nossos primos germânicos, produtivamente uns covardes, aproximaram-se em grandes passos à situação americana. Teria sido suficiente uma quinzena de anos para se juntarem aos grandes do declínio.

A crise, portanto, foi positiva para o país no seu conjunto, ela congelou o processo.

A Alemanha, dizíamos nós em artigo recente, é um país cheio de surpresas. Eis-nos bem longe do país modelo com que a classe política francesa nos enche os ouvidos.

E depois, seria necessário interrogarmo-nos sobre o desempenho alemão. Sejamos claros, a balança positiva dos rendimentos do capital (juros, lucros e dividendos) infla os rendimentos da propriedade do capital que fazem parte do rendimento nacional, do mesmo modo que a queda da taxa de investimento revela o facto de que a Alemanha é uma potência industrial montando produtos que ela própria produz cada vez menos. Controlando as linhas de montagem a Alemanha está também no alto da cadeia de valor, da qual ela se pode apropriar de uma parte considerável selando os produtos com o made in Germany. Não se trata aqui de pôr em causa a qualidade dos produtos alemães, mas de sublinhar que a riqueza nacional alemã está inflacionada de um volume de valor muito desigualmente partilhado entre os alemães.

Sublinhemos ainda que a taxa de investimento em queda é acompanhada de uma modernização dos serviços, o que é ilustrado pela evolução da balança dos serviços cujo défice está já reabsorvido. Segue-se que a taxa de investimento industrial sofreu uma diminuição.

Ora, o declínio industrial é antecâmara dos fenómenos que conduzem, mais ou menos, à situação americana, por vias por sua vez originais. E assegurar o crescimento através dos serviços – como podem fazê-lo hoje os nossos vizinhos do outro lado do Reno – é envolver-se num impasse que os EUA estão a pagar caro: o crescimento endógeno da economia não volta mais.

Este texto é, pois, uma modesta contribuição para a desmistificação da Alemanha. País exótico, cheio de surpresas.

Texto original em http://criseusa.blog.lemonde.fr/page/11/

[1] Título principal da responsabilidade do tradutor.

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