Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF. IV – Macron, um tão velho presidente

François Mitterrand: “A luta de  classes não é para mim um objetivo. Procuro que esta deixe de existir!”

Lionel Jospin:  “Eu sou um socialista de inspiração, mas o projeto que proponho ao país  não é um projeto socialista. É uma síntese do que é necessário hoje. Ou seja, é  a modernidade. ”

François Hollande   “Vivi cinco anos de poder relativamente absoluto. (…)  Eu naturalmente impus ao meu campo que, sem nenhuma sombra de dúvida, só iria aprovar as políticas que eu consideraria serem justas.” 


Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF

A farsa acabou. O povo francês, Macron escolheu. Um outro ciclo de tragédia e de  farsa já começou.

Macron, um tão velho presidente  – Texto IV

( Por Jérôme Leroy, Revista Causeur, Macron, 31/05/2017)

 

macron_putin


Com efeito, Emmanuel Macron é velho. A impressão é vaga, ainda, mas persistente desde a sua chegada ao poder. É certo, tem apenas 39 anos mas frequentemente, tal como os primeiros da classe, é mais velho que os seus professores. A megalomania tranquila da cerimónia do Louvre em Maio de 2017 fazia-nos recordar a de Mitterrand no Panteão em Maio de 81.

Mas pelo menos, o Mitterrand de 81, no Panteão, inscrevia-se numa tradição de esquerda republicana com as grandes figuras da sua história concreta como quando colocou uma rosa sobre o túmulo de Victor Shoelcher. Macron, ele, em frente da Pirâmide dava antes a impressão de fundar uma Igreja ou de celebrar a vitória de uma seita. Entendam-nos bem, não estamos a acusar Emmanuel Macron de ser velho. Os velhos, ou mesmo os muito velhos, fazem também grandes coisas. Blum em 36, Churchill em 40, De Gaulle em 58, não eram crianças. Simplesmente, estar a exagerar sobre a sua juventude à boa maneira de Kennedy torna-se francamente ridículo quando nos confrontamos com os primeiros factos da sua presidência. O culto do chefe “jupiteriano”

O culto do chefe “jupiteriano”

Tomemos então alguns exemplos. A designação dos candidatos de En Marche! Não é porque foram recrutados sobre cartas de motivação como CDD da empresa Assembleia Nacional que não serão futuros godillots, ou seja, que não irão ser deputados às ordens e prontos a servir o seu chefe no que ele quiser, deputados que andarão (!) como um só um homem, o que faz de Republique en Marche um partido como qualquer outro, bem aferrolhado, à maneira do RPR ou PCF da grande época. Não haverá contestatários, não haverá correntes. Comungar‑se‑á o culto do chefe “jupiteriano”. O adjetivo não é meu, é do próprio Macron. Para alguém que queria terminar com os velhos partidos e revitalizar a vida parlamentar… Não somente, não passará à VI República (não estava no seu programa) mas vai presidencializar as coisas ao extremo, como Sarkozy na época “da hiperpresidência”.

É o regresso para o futuro de uma V República que se tem tornado democraticamente perigosa desde o fim do septenato e a coincidência entre as presidenciais e legislativas. Sem estar a falar sobre um modo de voto sempre tão aberrante em tal contexto que vai dar um punhado de deputados à FN e à France Insoumise quando estas forças são respetivamente, de facto, a segunda e terceira força política do país.

Atenção ao código do trabalho!

Macron, igualmente, é tão velho quanto Chirac em 2002 sobre o modo “peço-vos que faça barragem à FN, estou perfeitamente consciente que não aderem às minhas ideias mas votem em mim em nome da República e terei isso conta. ”Tu falas, Charles. Cada boletim para Macron posto na urna pelos não-macronistas ou mesmo antimacronistas, foi tomado para uma legitimação de facto. Passou a ser evidente nos meios de comunicação social e ao governo que Macron foi eleito por mais dos dois terços dos Franceses por conseguinte que dois terços dos franceses deram-lhe um poder sem partilha por cinco anos. Christophe Castaner, o porta-voz do governo, foi brutal no Paris Match a 23 de Maio: “Hoje para os Franceses as coisas são claras: elegeram Emmanuel Macron com a vontade de libertar o trabalho. Deem-se-lhes os meios do diálogo, nunca os de bloqueio”, dirigindo-se aos sindicatos que se começam a movimentar. Resumidamente, como uma velha raposa, Macron simplesmente vigarizou-nos. Quantos manifestantes e de grevistas no momento da lei El Khomri votaram com ele e a fazerem barragem à FN e reencontram-se agora contabilizados como apoios de facto à destruição do Código do trabalho por decreto-lei ? Ou da única medida potável da lei trabalho, com o direito à desconexão, que era a questão das condições de dureza do trabalho, e que será suprimida como Macron o deixou entender no dia 29 de Maio aos parceiros sociais. É verdade que isso desagradava ao Medef soberanamente. Então tanto pior para o pedreiro de 56 anos compreender que trabalhava desde os 14 anos e que esperava aproveitar da mudança que não vai acontecer. É estúpido, e é pena, que votando Macron se acredita evitar a FN: e vai ficar um pouco mais de tempo à espera. E se o nosso pedreiro não está feliz, ele poderá sempre criar uma start-up Ferrand para se afundar.

Último ponto, a questão Ferrand. Aí, quase tudo é demasiado bonito. Que o ministro não seja juridicamente culpado, é sem dúvida o caso. Que o comportamento de mutualista imobiliário, que gosta efetivamente da sua mulher e mesmo das suas ex, seja moralmente mais que discutível, é igualmente verdade. E aí está o pobre Bayrou que é obrigado recuar de uma semana a sua lei sobre a moralização da vida política para não fazer demasiado contraste entre os defeitos privados e as virtudes públicas dos novos caciques do macronismo que têm mesmo assim, muitos velhos hábitos.

Então, jovem, o presidente Macron? No delírio quase místico que rodeou a sua pessoa, há aí mesmo gente que se extasiou sobre a sua semelhança com Boris Vian, morto com a idade em que Macron se tornou presidente. Alguns gritaram à reencarnação. O problema é que se reencarnação há, terá havido um curto-circuito no sistema, nos chakras. Porque o que nós temos à nossa frente, no Eliseu, é Boris Vian, mas com o imaginário de poeta como Albert Samain ou Sully Prudhomme.


 O quinto texto desta série será publicado, amanhã, 24/08/2017, 22h


.Fonte do artigo aqui

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: