Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF. VIII – Presidente “jupiteriano” : como é que Macron pensa reinar no Olimpo

François Mitterrand: “A luta de  classes não é para mim um objetivo. Procuro que esta deixe de existir!”

Lionel Jospin:  “Eu sou um socialista de inspiração, mas o projeto que proponho ao país  não é um projeto socialista. É uma síntese do que é necessário hoje. Ou seja, é  a modernidade. ”

François Hollande   “Vivi cinco anos de poder relativamente absoluto. (…)  Eu naturalmente impus ao meu campo que, sem nenhuma sombra de dúvida, só iria aprovar as políticas que eu consideraria serem justas.” 


Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF

A farsa acabou. O povo francês, Macron escolheu. Um outro ciclo de tragédia e de  farsa já começou.

Presidente “jupiteriano” : como é que Macron pensa reinar no Olimpo – Texto VIII

(Entrevista a John Scheid, in Franceculture, 19/06/2017)

Emmanuel Macron sonha ser Presidente “jupiteriano”. Agora que as eleições legislativas lhe deram uma confortável maioria, entrevistámos John Scheid, especialista dos tempos antigos para percebermos o que é que Macron entende encarnar desta maneira: Deus todo-poderoso que tudo pode arrasar com explosões ou Deus de palavra eficaz e justa?

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Jupiter et Thétis, 1811• Crédits : Dominique Ingres

Em claro contra-pé da “presidência normal ” de  Francois Hollande, Emmanuel Macron afirma-se um “presidente jupiteriano “. Esta é pelo menos o que ele tinha reivindicado no mês de Outubro, numa   grande entrevista ao jornal  Challenges : ” François Hollande não acredita na figura de “presidente jupiteriano”.  Ele considera que o Presidente se tornou um emitente como qualquer em outro na esfera mediático-política.” Agora que as legislativas lhe deram uma clara maioria, queríamos perceber o conceito de poder que está por detrás  dessa utilização  de mitologia romana e para isso entrevistámos  John Scheid, historiador do College de France, especialista da antiga Roma. Macron revê-se num deus capaz de esmagar os pobres mortais, ou melhor, em Deus, cuja palavra justa é suficiente para levar à ação? Eis a entrevista.

Primeiro de tudo… de onde vem o adjetivo “jupiteriano”?

“Jupiteriano” não é um adjetivo latino. Seria então preferível  “jovius” a partir do  genitivo de Júpiter, “Jovis”, que significaria  “de júpiter”. Existe ainda um outro adjetivo, “Dialis” para dizer ” “de jupiter”. “Dius pater”, é o Pai celeste, a raiz última do nome. Esse é o seu elemento, que é representado com a águia e os relâmpagos. “Jupiteriano” é um neologismo. “A contração jupiteriana das suas sobrancelhas, o seu olhar de  leão” está em Balzac, em La Duchesse de Langeais. É ele, provavelmente, o primeiro a utilizar a expressão pois que  “jovian” ou “dial” seria impossível de usar em francês … ninguém iria entender. Balzac refere-se à figura de Júpiter, o barbudo majestoso  com um olhar terrível, que fulmina com o olhar apenas.  Mas eu não tenho a certeza de que Macron o utilize neste sentido, porque seria uma enorme estupidez! (Riso)

Eu sinto que o presidente fez uma alusão a esse lado todo-poderoso, mas sem exercer no plano imediato nenhuma omnipotência. Ele está sempre na reserva para com os seres humanos. Entre os deuses não é nada assim, por vezes, há batalhas… mas com os seres humanos, ele sabe que o menor gesto pode ser esmagador e pôr um fim à questão. Esta distribuição, penso eu na relação com o primeiro-ministro e com o governo. Eu chamo performativa.

Se tomarmos este adjetivo, literalmente, e se nos referirmos  à mitologia romana … como é  que Júpiter reinou no Olimpo?

Uma vez que Júpiter é o Deus dos céus, o melhor e o maior deles todos, há realmente uma forma particular de governo. Este não é de modo nenhum um autocrata, mesmo que se trate de alguém que decide tudo, que tudo ordena. Mas estes que fazem as coisas, estes, são outros deuses.

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La Triade capitoline• Crédits : Musée national d’archéologie prénestine

Tomemos Júpiter no Capitólio por exemplo… há aí  primeiramente  a famosa tríade do Capitólio. Fala-se do Templo de Júpiter, mas na verdade trata-se de três divindades: Júpiter, Juno e Minerva. Júpiter é a soberania esmagadora, esse é o seu trabalho. Próximo dele, está Juno. É a deusa das matronas, das mulheres estabelecidas, casadas. Juno protege-as nos seus partos, cuida de tudo o que é específico deste domínio, como Júpiter protege os homens nas suas atividades. Ele não faz a guerra, ele esmaga o inimigo. Fazer a guerra, há um outro deus que dela se encarrega,  é Marte. É o politeísmo. E Juno, é sobretudo o elemento feminino da soberania. Porque com os romanos, um homem, mesmo que seja Júpiter, não é suficiente para expressar a totalidade da soberania. Há um pequeno elemento que lhe escapa, que são as mulheres matronas, as mulheres estabelecidos. A soberania perfeita é a colaboração dos dois elementos. Então Júpiter pode gritar mas se Juno não estiver  de acordo, há um pequeno problema. Mas todos nós já sabemos desde a Iliada e da Olisseia, e, em seguida, na Eneida, das famosas cenas de família entre Zeus e Hera, ou suas contrapartes romanas, Júpiter e Juno. E Minerva é a boa inteligência, a boa capacidade mental desses deuses supremos. Júpiter também tem ao lado dele Fides, a boa-fé, a lealdade do soberano. Ele vence, mas é uma deusa Victoria, que  encarna a vitória. Há aí Vênus que é o encanto, a ternura, mas é também a força de ligação da vontade soberana. É ela que expressa esta terrível vontade de Júpiter, quando ele fez qualquer coisa . Podemos continuar assim, em cascata….

Um deus romano tem sempre em torno dele uma multidão de pequenos deuses, até de todos os pequenos deuses plebeus,  para citar Agostinho que,  de alguma forma,  fazem o trabalho manual. Os professores de latim  falam sempre da frase  “Caesar Pontem fecit”, “César construiu uma ponte”. Isso não quer dizer que César arregaçava as mangas como o fazem os nossos presidentes vezes sem fim para fingirem que andam a trabalhar. Não, César construiu a ponte pela palavra. Ele dá as ordens. E depois há os seus chefes de gabinete, do seu estado-maior, os centuriões, que dirigem os trabalhadores. E isso é em cascata, há personagens secundários que atuam. Eu acho que o presidente o que quis dizer é que é ele que  governa, os outros executam. Não devemos confundir as duas coisas. Júpiter não as confundia. No limite, pode criticar um dos seus Deuses por ter ido à praia   em vez de ter ido trabalhar, mas não lhe cabe fazer isso.  E aí, Júpiter é um reflexo da ordem social Romana.

Os romanos não concebem como nós a ação centralizada e única. E já com Constantino, com o cristianismo, que uma barreira caiu. Com a Bíblia e os Evangelhos, os cristãos concebem especialmente o monoteísmo e o agente único. Os romanos não conhecem o agente único. O agente único tem o poder, mas se ele diz “Abra a porta” mas se aí  não está  nenhum Deus Portunus, ninguém abre a porta. Porque não é o papel de Júpiter  abrir a porta. Há um Deus para os problemas de se  passar para lá dois limiares,  etc. Está ligado  a uma representação da ação. Na mitologia, em geral, isto acaba mal para aqueles que são um pouco tirânicos demais.

Qual era a relação de Júpiter para com os  mortais ?

Nos romanos, um homem nunca é o equivalente a um Deus. Mesmo depois, quando se divinizavam os bons imperadores após a sua morte, eles sempre permanecerão deuses subordinados, mesmo face ao menor dos deuses imortais. Claro, Júpiter é o senhor do mundo dos deuses, e também, na terra, o senhor do mundo dos homens, porque toda a religião romana se passa na terra. Os deuses têm a sua vida no além, mas isso nada tem a ver com os homens. Eles prestam-lhes homenagens educadamente neste mundo. Claro, um pobre mortal não se pode opor a Júpiter, que em qualquer caso esmaga os humanos se assim o quiser fazer.

Teoricamente, os seres humanos podem observar os sinais que Júpiter envia, o que se chama “tomar os auspícios”; isso fazia-se em dado momento pelo voo dos pássaros, mas tudo isso é feito de forma silenciosa. É o cônsul que toma estes sinais, que decide, às vezes mesmo automaticamente,  se é bom ou mau. Mas se um ímpio manipula claramente os sinais de Júpiter para fazer más ações, ele pode levar com um trovão, ou ser uma vítima de uma bela derrota militar. Mas na maior parte do tempo, Júpiter mantém-se silencioso. Como o povo romano: é teoricamente consultado, mas na verdade, aprova quase silenciosamente o poder político. O povo romano diz que sim ou que não às leis, mas na verdade tudo é decidido com antecedência. E os deuses são tratados da mesma maneira. Não viria à ideia de ninguém querer insultar Júpiter, mas não viria também a Júpiter a ideia de esmagar os seres humanos. E há uma pequena história muito engraçada com Numa, o rei que dotou Roma com verdadeiras instituições depois de Romulus, um homem piedoso, venerável… Ele criou a justiça, o direito,  coloca os romanos que no início eram bandidos, de acordo com as narrativas, a aprender a trabalhar e ensina-os  a terem bom comportamento… No céu só há um barbudo  que agita e aterroriza toda a gente.  Numa decide convocar o seu colega celestial. O valente Numa tem os cabelos penteados sobre a cabeça de tal modo ele é poderoso quando está em frente de Júpiter… E diz-lhe: “há justiça, religião, damos-te todas as homenagens que te são devidas… porque é que nos  aterrorizas ?” Então Júpiter propõe‑lhe enigmas que realmente sugerem um sacrifício humano, que é a transgressão absoluta das relações de piedade. E Numa, por três vezes, por subterfúgios, desenrasca-se da situação, dando-lhe algo diferente do que ele parece querer. No final, Júpiter ri e diz-lhe: ‘ tu és capaz de dialogar com os seres humanos, vem amanhã ao fórum, e eu dou-te uma prova da minha amizade … ‘ E este é o início da colaboração entre Júpiter e os homens. Por isso pode ser terrível, mas em geral ele concorda em se comportar adequadamente com os seres humanos se eles estão corretos.

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Numa Pompilius fazendo uma oferta a Jupiter, século XIX • Crédits : Giani Felice

Na sociedade romana, acima de tudo, há uma espécie de remédio permanente que é o imperador, que tem um poder formidável, ele comanda o exército fora de Roma, e ele sempre pode intervir em toda a parte. Isso é um pouco isto, Macron é mais como um imperador no Principat. “Princeps”, o primeiro dos senadores, dos cidadãos. Naquela época o imperador governa da mesma forma que Júpiter governa os seus deuses no céu, isto é, sempre por uma divisão de responsabilidades, e respeito pelos domínios. Isso é exatamente o que o Macron disse no rádio: “Eu governo e o primeiro-ministro aplica, ele faz a política quotidiana.”

Será que este uso do adjetivo “jupiteriano” por Macron é grotesco, talvez mesmo maldoso, legítimo?

Se eu entendi bem, no contexto, o que ele quis dizer foi “jupiteriano” no sentido de Deus do politeísmo Romano, Deus absoluto soberano, mas não onipotente, por vontade. Parece-me uma utilização muito astuta tendo em vista o que sabemos da antiga religião e dos seus deuses. É libertar-se da política, e penso que é muito bom que a cultura latina possa conduzir a debates como este. Pode ser o contraponto do  “Presidente normal”, que se mistura com os seus ministros e os  seus secretários de Estado… Não, Júpiter está lá para governar o mundo, o dos deuses, o dos homens, com a colaboração de toda a gente.

Quando eu ouvi no seu contexto este adjetivo e esta resposta, isto alertou-me, e disse para mim mesmo: ‘ bem, isso é mesmo inteligente! Porque não se trata do Júpiter de Offenbach ou de  mitos gregos e também não é uma espécie de Júpiter monoteísta, isto nunca existiu,  mas porque se trata de  um Júpiter politeísta  que age por sua vontade com a colaboração necessária dos outros, sem se intrometer constantemente no que os outros fazem.


Artigo original aqui


 O nono texto desta série será publicado, amanhã, 02/09/2017, 22h


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